Volumes de chuva fora do comum
Em 2008, foi registrado o maior volume de chuva da história de Santa Catarina, devido a fenômenos climáticos daquele ano
A chuva que atingiu Santa Catarina e, principalmente, a nossa região do Vale do Itajaí, em novembro de 2008, foi algo incomum. O volume de água que caiu nos dias 22 e 23, foi um fator complementar para que o solo, que já estava fragilizado em virtude das chuvas contínuas que viam caindo desde o começo de setembro do mesmo ano, deslizasse com facilidade em várias localidades.
Mas, só em novembro, foram 1.007 milímetros de chuva, concentrados entre os dias 19 e 26. O número é seis vezes maior do que a média histórica para o mês e foi o maior volume registrado em Blumenau e região. O Rio Itajaí-Açu, chegou aos 11,5m, inundando várias ruas da cidade.
Vamos exemplificar: um milímetro é igual a um litro por m2. Se pegássemos 503 garrafas pet’s de dois litros e jogássemos em uma área de um metro quadrado, chegaríamos a um valor aproximado ao o que choveu naqueles dias, em novembro. Se toda a água que caiu nos sete dias fosse utilizada para abastecer uma cidade como Blumenau, por exemplo, seria suficiente para mais de 15 anos.
Mas porque esse volume de chuva foi tão grande, nesse período? Do ponto de vista meteorológico, a tragédia em Santa Catarina foi o resultado de uma combinação de sistemas de diferentes escalas, espaciais e temporais. No aspecto global, os meses de setembro, outubro e novembro, assim como as primeiras semanas de dezembro, foram caracterizados pela presença de fortes anomalias de pressão atmosférica, segundo a Epagri/Ciram.
Outro fator que foi fundamental para o volume elevado de chuva, foi a passagem do La Niña, fenômeno climático que aumenta o índice pluviométrico, ou seja, resulta em mais períodos de chuva. Geralmente o La Niña acontece em períodos de cinco a sete anos, e depende muito de sua força, podendo ser de fraca ou forte intensidade, como aconteceu na nossa região, em 2008.
Deslizamentos em grande escala
O grande fator que causou a maioria das mortes registradas na catástrofe daquele ano, foram os deslizamentos. A chuva que já vinha caindo desde setembro, deixou o solo úmido, o que faz com que o mesmo fique enfraquecido e saturado. Com as pancadas dias 22 e 23, muitas encostas que estavam com a terra fragilizada, acabaram caindo, causando destruição e levando algumas pessoas à morte. Outro fator que pode facilitar o enfraquecimento do solo, é o mal uso do mesmo, na hora de aterrar um terreno para a construção de uma residência, em áreas íngremes e inclinadas.
Mas, de acordo com o diretor de geologia da Defesa Civil de Blumenau, Jean Naumann, muitas ocorrências também foram registradas em áreas naturais.
“A chuva foi tão contínua e forte naqueles dias em novembro, que até em locais que o solo não teve nenhum tipo de intervenção do homem, a terra veio abaixo. Um exemplo, foi no Parque São Francisco de Assis, atrás do Shopping Neumarkt, que registrou um deslizamento, quase atingindo o prédio do centro comercial”, comenta o diretor.
Nos dias de hoje, 10 anos após a tragédia, parte dessas áreas ainda estão sendo “cicatrizadas” com o tempo. Em alguns locais, como no Ribeirão Souto, onde a equipe do JP visitou, é possível ver um tipo de vegetação diferente, mais rasteira, seca e pequena. Segundo Naumann, o nascimento de novas espécies de vegetação nas áreas de deslizamento, é normal.
“Pode demorar quase uma era para que a vegetação se recupere totalmente. Toda camada orgânica natural, com o deslizamento, é levada embora, deixando o solo mais pobre em micro-organismos. Com isso, surge um tipo de vegetação mais rústica, que nasce em solo ruim e com pouca água, o que também acaba criando uma pequena proteção desse solo, diminuindo a penetração de água”, explica Naumann.
O decreto de calamidade pública
Em 2008, o prefeito Ércio Kriek, que estava exercendo seu último ano de mandato, resolveu decretar Situação de Calamidade Pública, já no domingo, dia 23. Um pequeno “quartel general” foi montado dentro da Prefeitura, para atender ligações que vinham da comunidade pomerodense, na busca de informações, auxílios e até resgates.
Ércio esteve in loco em algumas ocorrências, como a de Testo Central, Ribeirão Souto e Ribeirão Luebke, casos que foram relembrados na edição passada, 1174.
“Nós tivemos que montar uma equipe para atender todos os chamados, pois os telefones tocavam a todo instante. Fomos vistoriar algumas áreas para saber a real situação e tentar fazer um diagnóstico preliminar. Me lembro do caso de Testo Central, quando fui acompanhar o trabalho da equipe de resgate. Na Rua Ingo Reingenberg, também estive lá, e outras ocorrências que acompanhamos ao longo de vários dias”, relembra o prefeito.
De acordo com Kriek, um dos momentos mais emocionantes daquela tragédia, foi quando se deslocou até moradores que não queriam sair de suas casas, mesmo estando em área de risco.
“Foi um momento muito difícil, convencer aquelas pessoas a saírem de casa, pois muitas delas não tinham para onde ir depois. Isto foi muito comovente, tinha horas que não aguentava a emoção e chorava. Realmente, uma das ocasiões mais emocionantes”, relata.