Resgate no Morro da Turquia
Na noite de sábado, a sirene de emergência do CBVP soou. Esse sinal indica alguma situação grave de emergência.
Na noite de sábado, a sirene de emergência do Corpo de Bombeiros Voluntários de Pomerode (CBVP) soou. Esse sinal indica alguma situação grave de emergência e aciona a presença de todos os bombeiros à sede da corporação.
A situação era grave. Segundo informações da bombeiro designada ao relacionamento com a imprensa, Charmaine Bernhardt, o comando recebeu uma ligação de um pai, que contou que os dois filhos dele estavam praticando pé-cross no Morro da Turquia. Segundo informações, Jacson e Julien desceram do alto do morro pela trilha de Down Hill, e estavam desaparecidos.
Depois de quase toda a equipe dos bombeiros presentes, foi estabelecido o plano de salvamento das vítimas. Optou-se por iniciar as buscas no início da manhã, tendo em vista que buscas à noite têm baixo percentual de sucesso. A equipe se dividiu em três: o Ninho da Águia, encarregada de formar a base atrás do Pavilhão de Eventos e as equipes Falcão e Gavião, que subiram pela trilha para realizar a busca dos jovens.
A trilha de mata fechada possui pontos íngremes que dificultam o resgate. Duas jornalistas acompanharam as equipes de busca mata adentro para registrar o treinamento. Sim. Tratava-se de um treinamento com simulação muito próxima do real. Há dois meses, o Comandante do CBVP, Vilmar Volkmann, preparava a situação para treinar os bombeiros e para que eles estejam prontos para situações reais. “É um caso que tem toda possibilidade de acontecer. Essas situações servem para que os bombeiros tenham, noção de salvamento, controle emocional e noção de que tipo de materiais serão necessários nesses casos, e estejam seguros em caso de emergências como essa”.
A Operação Sol Nascente, como foi denominada, começou às 6h30min de domingo, com a reunião das equipes ao pé do Morro da Turquia, atrás do Pavilhão de Eventos de Pomerode. As jornalistas Mariana Rudek e Tatiane Hansen, do Jornal de Pomerode, acompanharam as equipes Gavião e Falcão, respectivamente, enquanto Edenílson dos Santos seguia todos os passos da base Ninho da Águia. Na base, o Cmte. passou as diretrizes e iniciou a trilha com os bombeiros. Acompanhando todos os passos das equipes, analisava o comando, organização e ordem de prioridades de cada um.
Cada grupo vasculhava um lado da trilha – Gaviões, o esquerdo, e Falcão, o direito. A primeira vítima foi encontrada a pouco mais de 100m de altura (em relação ao nível do mar), pela equipe Falcão, mas como estava do lado esquerdo da trilha, rapidamente a equipe Gavião assumiu e iniciou o resgate de Jacson, com suspeita de fratura na perna, consciente, porém desorientado.
A equipe Falcão subiu em busca da segunda vítima. E há apenas 30 do topo do morro (quase 300m de altura, com relação ao nível do mar) encontraram Julien, inconsciente, traumatismo craniano, fratura exposta no fêmur e fratura de patela. Rapidamente realizaram os primeiros atendimentos e desceram morro abaixo com a vítima.
Três horas e meia depois (10h30min), as equipes reuniram-se novamente na base do treinamento. O Cmte. da equipe Gavião, Valmir Fischer, disse que o acesso era difícil, a posição da vítima também era complexa, mas que o treinamento contribuiu, principalmente, na administração das sensações. “Saber controlar o emocional, aprimorar os conhecimentos e estar preparado para comandar situações reais”.
O Cmte. da equipe Falcão, Carmo Zeplin, destacou que essa atividade serviu como uma grande aula e proporciona aos bombeiros a prática no local, conhecer a trilha e os acessos ao morro. Para ele, as maiores dificuldades estavam na descida do morro com a vítima e o terreno escorregadio, que agravou ainda mais a situação.
Responsável pelo preparo da situação, o Chefe de Sessão e instrutor, Rogério de Oliveira, disse que ao menos uma vez ao ano, são realizados treinamentos como esse que visam aprimorar o conhecimento dos bombeiros e ensinar a lidar com situações como essa, tanto emocional como fisicamente. “Todos são treinamentos com situações muito próximas do real”.
As “vítimas”, Juarez Azevedo da Silva e José Ferreira (nomes reais), relataram que para eles, a parte mais difícil foi descer presos na maca. Ambos relataram que apesar de presos, a sensação de não poder se segurar, quando estavam nas macas, foi difícil controlar.
Equipes: Relato equipe JP
Um desafio! Acompanhar as equipes mata adentro deixou a ansiedade a mil. A noite foi curta, mas a animação tomou conta logo cedo. Chegamos antes dos demais bombeiros e enquanto isso, tirávamos as dúvidas com o Cmte. Volkmann.
Quando entramos na trilha, uma mistura de medo, adrenalina e curiosidade corriam junto ao sangue e nos moviam morro acima. Atenção nos detalhes, flagrantes para as fotos, nós éramos integrantes da equipe de salvamento naquele momento, estávamos ali para registrar e sentir, mas também estávamos para ajudar. Sentíamos certa responsabilidade, como todos que estavam ali.
Junto a eles, entramos na mata fechada, procurando vestígios, comemoramos e nos preocupamos com o resgate das vítimas. Analisamos cada ponto, cada palavra.
Ao final, tivemos um pouco da sensação da responsabilidade que esses profissionais têm quando procuram por uma vida em meio à mata fechada, ignorando traumas com animais ou a possibilidade de cruzar com serpentes e aranhas enormes. Há responsabilidade de fazer com que essas pessoas voltem com segurança para a família, para o lar.
Apurando os ouvidos a qualquer ruído, sabíamos que um sinal de vida poderia vir da forma mais sutil – um suspiro, um rastro de mato amassado, um pedaço de tecido rasgado em uma árvore, um objeto esquecido… – sobre nós também pairava a vontade de que tudo acabasse bem, mesmo sabendo que se tratava de um treinamento.
Apesar de treinamento, todos os movimentos, regras e comandos foram executados com seriedade, levando em consideração que poderia ser um caso real. Ataduras, macas, tudo pensando no resgate ágil e eficiente.
Ali soubemos admirar ainda mais esses profissionais que dedicam a vida para salvar outra em perigo. Soubemos que preparo físico e emocional precisam andar em sintonia para controlar situações parecidas, mas também aprendemos que todo cansaço vai embora quando a missão termina e se tem a certeza de trabalho bem feito.