O último natal
De súbito, a expressão de Jonas Jantz, de 36 anos, se modificou ao recordar do último natal que passou com o pai, Hilário Jantz. O olhar foi pra muito longe, para outros tempos. Ele não falou sobre o último natal, não pôde falar.
De súbito, a expressão de Jonas Jantz, de 36 anos, se modificou ao recordar do último natal que passou com o pai, Hilário Jantz. O olhar foi pra muito longe, para outros tempos. Ele não falou sobre o último natal, não pôde falar. Mas certamente pôde escutar o riso do pai naquela mesma data, sentado à mesa enquanto conversava animadamente com algum amigo sobre a situação divertida que viveram dias ou meses antes. Ou opinando sobre o problema da segurança, da economia do trabalho…de coisas da vida.
De novo nos aproximamos do Dia dos Pais. A sociedade consumista nesse momento, preocupa-se em achar o presente que melhor represente a gratidão ao homem que os botou no mundo. É assim que a maioria comemora. Uns vão celebrar abraçando o pai querido. Outros não darão muita bola para a data, pois não concordam com os ideais e imposições do pai chato. Outros ainda ficarão melancólicos, tomados pela ausência involuntária de uma das pessoas mais importantes de sua vida, tirada de deles pela única certeza que temos nessa vida.
Em sua memória muito viva, Jonas lembra-se em detalhes do primeiro acampamento que fez em família, concertado pelo pai e o tio. Depois de terem comprado uma enorme barraca, num belo feriado, meteram-se, pai mãe, tio, tia, Jonas, que ainda era quase um bebe de colo, e o irmão mais velho num fusca, sentido à Praia de Gravatá. No meio do caminho, o carro não aguentou o tranco e pifou. Ficaram horas dentro de um posto de gasolina, mas nem isso tirou o bom humor do pai, que por sinal, era uma pessoa muito de bem com a vida. Tinha muitos amigos e era querido por todos. Maldade não existia em seu coração e a lição que deixou plantada ao descendente mais novo foi a importância de se ter caráter e respeito ao próximo, além da paixão por estar entre a natureza ao lado dos amigos e pessoas queridas, gerados por outros inúmeros acampamentos que fizeram juntos.
Certa vez, quando em Pomerode ainda perambulavam guardas de trânsito, Jonas, então criança, atropelou um deles enquanto andava de bicicleta pela calçada. Era um guarda muito mal humorado e o menino certamente nada tinha feito de muito grave. Mas o guarda, um homem já falecido, era de fato mal humorado e não gostou nada do incidente, sobretudo porque andar de bicicleta na calçada era proibido. Então, ele esvaziou os pneus da bicicleta de Jonas e o acompanhou a pé, até a pequena oficina mecânica que Hilário possuía. Um sermão foi dado pelo guarda ao pai do garoto, que ficou muito aborrecido. Já havia alertado ao filho, que não andasse de bicicleta na calçada, mas não manifestou agressividade. Jonas dava algum trabalho, mas o pai era um homem muito bom.
O tempo passou, os filhos cresceram e a vida tocava normalmente. Jonas estava trabalhando quando alguém lhe informou que seu pai tinha sofrido um AVC. Naquele momento, o pavor de ter perdido o pai tomou conta de seu consciente. Um gelo lhe correu pela espinha, foi correndo ao hospital. Para piorar a situação, o médico não foi nada otimista. O pai estava em coma e não havia mais chances.
Mesmo assim, a família assumiu a responsabilidade e decidiu tentar. Foram nove dias incosciente e quando finalmente acordou, havia perdido as memórias mais recentes. Lembrava-se da esposa, mas passou um período sem reconhecer os filhos. Contrariando o médico pessimista, que não deu muitas esperanças, o pai foi voltando aos poucos. Teve sequelas, o lado direito do corpo ficou paralisado. Nessa época os filhos se tornaram os cuidadores e sem querer, o trabalho que Jonas havia dado ao pai na juventude foi compensado pelo gesto de carinho e consideração.
Como se diz em uma canção só o amor vale tudo na vida, o pai, que segundo médico, não tinha como sobreviver, sobreviveu por mais de dez anos depois do AVC. Ele foi bem cuidado. Ali certamente, estaria a explicação.
Mas a vida chega ao fim para todos e chegou para o pai de Jonas, quando tinha 62 anos, pouco mais de um mês de seu aniversário. Ele havia feito uma cirurgia para desobstrução de uma veia e algum tempo depois, em casa, numa manhã acordou sentindo-se mal. Foi levado ao hospital e faleceu horas depois, ao lado do filho mais novo.
Isso foi há pouco mais de dois anos, bem antes da data do dia dos pais. A saudade ainda é viva, mas por ora, restam as lembranças deixadas pela casa, pelos cantos. Mesmo que o dia dos pais seja comemorado estrategicamente na segunda semana do mês, época em que os trabalhadores já receberam os seus salários e o comércio anuncia, a plenos pulmões, todas as utilidades de produtos diversos, a data reaviva momentos, como as festas, viagens, molecagens e perdas. Alegrias e tristezas que a vida trás para todos nós, sem olhar para cor, religião ou para quanto você vai gastar em um presente.