Geral

Casos de automutilação têm preocupado comunidade pomerodense

Casos de automutilação na adolescência têm sido registrados em Pomerode e alertam para a necessidade de se estar presente na vida dos jovens. O tema foi alvo de discussão na E.E.B. José Bonifácio, onde, somente neste ano, já se tem conhecimento de oito casos

16 de novembro de 2017

A automutilação ou cutting, para a maior parte das pessoas, é algo difícil de entender. Porque alguém iria machucar a si mesmo? As causas podem ser as mais diversas, mas todas geram o mesmo alerta: é preciso ser presença na vida de seus filhos. 

Em Pomerode, o tema foi alvo de discussão na E.E.B. José Bonifácio, onde, somente neste ano, já se tem conhecimento de oito casos, envolvendo adolescentes do ensino médio, em sua maioria, do primeiro ano. O número, porém, pode ser maior.

A reunião foi organizada pelo Projeto Lapidando Talentos e Emoções, coordenado pela Psicóloga Claudete S. Soethe (CRP 12/10942), juntamente com o advogado Geazi Viegas, a coordenação e direção da escola JB, que envolveu os pais/responsáveis legais e demais representantes de toda comunidade, além da Polícia Militar, Conselho Tutelar, Comed, Senai, Secretaria da Educação, Peal, Meuc, todas escolas da região, Acip e imprensa. O debate envolveu, ainda, assuntos como álcool, drogas e violência.

Um novo encontro está marcado para o dia 23 de novembro, às 21h, na E.E.B. José Bonifácio, onde o II Fórum Familiar será realizado.

A automutilação 

Pequenos cortes pelo corpo e a tentativa de escondê-los dos pais são os principais sintomas da automutilação, que é reconhecida como um transtorno mental desde 2013. No Brasil, não existem estudos epidemiológicos sobre ela, mas pesquisas feitas nos Estados Unidos mostram que a prática está ficando mais frequente na última década.

E para se ferir, itens como lâminas de apontador e de barbear, faca, tesoura e até vidro são utilizados, em locais como pulso, braços, pernas, barriga e até atrás do pescoço, sempre com o objetivo de ficar pouco visível.

Em sua maioria, os casos atingem adolescentes com idade entre 13 e 17 anos, que utilizam a automutilação como forma de trazer alívio. “Observamos alguns casos em nossa escola em que o transtorno acontece há mais tempo, quando ainda estavam no ensino fundamental. Embora tenhamos pais presentes na vida dos filhos, na grande maioria dos casos, os relatos trazem uma distância afetiva e presencial de pais e filhos. Reflexos de ausência e desinteresse afetam diretamente o psicológico do adolescente, que encontra no ato de se ferir o alívio que precisa para a dor emocional”, completa a psicóloga.

Parece contraditório, mas a verdade é que o cutting não tem como objetivo chamar a atenção, mas é usado como um escape para aliviar a tensão. Quem o pratica não quer que os pais saibam, porque quer continuar usando esse “analgésico” para dor emocional. 

Sinais como tristeza e isolamento, além do uso de vestimentas compridas em dias quentes para esconder o corpo são característicos da síndrome. 

O fator psicológico como causa da prática – A automutilação, muitas vezes, está relacionada a outros problemas psicológicos, como depressão, ansiedade, transtorno obsessivo compulsivo (TOC) e transtornos alimentares.

Em nosso município, os casos estão, em sua maioria, relacionados à família, onde há casos de divórcio, briga familiar e abandono afetivo.
Para atenuar os casos, não é preciso o uso de remédios. Ações como atenção, carinho, amor, afeto, compreensão e, uma simples conversa diária, já podem auxiliar o adolescente a deixar de efetuar esta prática. 

A influência também pode ser fator a ser observado, uma vez que a adolescência é uma fase de experimentação, de modo que ver alguém se cortando pode ser suficiente para fazer também, seguir como se fosse uma “moda”.

Nem todo adolescente que tenta o cutting uma vez vai continuar praticando. A pessoa só sente o alívio ao se cortar se já tem uma situação de estresse prévia; caso contrário, só sente dor. Se o paciente está em condição psicológica normal, ele não repete mais.

O papel da escola 

A escola precisa reagir ao observar qualquer processo de sofrimento com crianças e adolescentes. E, ao observar esses fatores, a instituição deve acolher afetivamente esse aluno, demostrar que está disponível para escutar e que pode compreender seus problemas. “O trabalho é realizado com conversa primeiro com o aluno, mostrando que a palavra da criança tem valor na escola. Essa conversa também deve servir para verificar se existe algum conflito familiar, e só depois a escola deve chamar a família para discutir o problema. Se o motivo está em um problema em casa, chamar os pais primeiro pode ser ainda mais prejudicial para a criança”, revela a psicóloga.

O papel da família 

A participação ativa da família no cotidiano da criança ou adolescente, é fundamental. A rotina corrida não é justificativa para o abandono dos filhos no lar, onde a conversa e a presença são inquestionáveis para que a vida familiar não entre em conflito. “Em uma era onde as pessoas conversam mais pelo celular do que pessoalmente, só tem a prejudicar as relações familiares, onde o diálogo é mais do que necessário. A criança e o adolescente, quando não se sentem amados ou parte integrante da família, podem registrar danos psicológicos para a vida inteira. Família é sinônimo de amor e participação, estar e ser presença é o diferencial para um bom relacionamento”, completa.

Estar atento a redes sociais e conversas em WhatsApp também é de suma importância. 

Notícias relacionadas