Clube de Caça e Tiro XV de Novembro celebra 60 anos de história, tradição e encontro comunitário em Pomerode
Fundado a partir do desejo de criar um espaço de convivência, clube atravessou gerações, dificuldades e transformações e hoje reúne cerca de 150 associados
Foto: Jornal de Pomerode
Há seis décadas, um grupo de moradores de Pomerode se reunia em torno de um desejo que ia além da construção de um salão. A ideia era criar um espaço de convivência, lazer e encontro para a comunidade. Dessa iniciativa nasceu o Clube de Caça e Tiro XV de Novembro, que chega aos 60 anos preservando histórias, tradições e vínculos construídos ao longo de diferentes gerações.
A trajetória do clube é marcada por personagens que ajudaram a construir sua história, desde os primeiros associados e fundadores até aqueles que, décadas depois, assumiram a responsabilidade de manter a entidade ativa. Entre eles estão Guido Tribess, Adair Töwe, ex-presidente, Magrid Milchert, filha do fundador Augusto Lindemann, e Adir Siewert, atual presidente.
Mais do que uma estrutura física, o clube se consolidou como um espaço de convivência comunitária. Ao longo dos anos, recebeu bailes, festas, atividades esportivas, encontros familiares, eventos de entidades e iniciativas da comunidade.
Para Guido Tribess, a relação com o clube começou por meio de amigos, que o convidaram a participar dos eventos realizados no espaço. O envolvimento aumentou gradualmente, até que ele passou a colaborar diretamente com as atividades da entidade e, posteriormente, integrou a diretoria.
“Eu entrei aqui com uns amigos. Eles me convidaram para participar da sede, dos eventos, desfile de tiro, essas coisas. E de lá foi a coisa, foi se engajando. Pediram também para ajudar nos afazeres da sede, quando tinha evento ou alguma coisa. Foi isso aí. Então já me associei e, de lá para frente, já fiz parte da diretoria e tudo mais. Tem muita história, muita coisa boa, mas também teve épocas difíceis. Foram muitos anos trabalhando com o pessoal e ajudando o clube a seguir em frente”.
Dos momentos difíceis à reconstrução
Uma das fases lembradas por Guido foi justamente um período de dificuldades enfrentado pela entidade. Segundo ele, uma nova diretoria assumiu o clube em uma época em que a estrutura era bastante precária, com construções de madeira e problemas de manutenção.
Foi nesse processo que Guido também se envolveu diretamente com o tiro esportivo, uma das atividades que ajudaram a fortalecer a identidade do clube.
Ele conta que retomou a modalidade praticamente do zero, mobilizando associados e criando uma estrutura que chegou a reunir cerca de 50 participantes, inclusive com a formação de duas equipes.
“Eu comecei a parte do tiro praticamente do zero. Existia, mas tinham deixado meio de lado e não havia mais aquele entusiasmo para manter o grupo. Comecei de novo. Nós fomos fazendo as coisas, organizando, e o grupo foi crescendo. Chegamos a ter em torno de 50 pessoas envolvidas, tanto que fizemos duas equipes no tiro. Tinha equipe A e equipe B, e a mulherada também participava. Foi uma coisa que cresceu bastante e que marcou muito a minha trajetória dentro do clube.”

Magrid, Guido, Adair e Adir (Foto: Jornal de Pomerode)
A presidência e o aprendizado com os mais experientes
Outro personagem importante dessa trajetória é Adair Töwe, que assumiu a presidência do clube em 2006, depois de passar pela vice-presidência. Ele conta que chegou à entidade incentivado por Augusto Lindemann e Alexandre, que o convidaram a participar da diretoria.
Uma das principais lições que recebeu de Augusto foi sobre a importância de equilibrar a tradição dos mais velhos com a participação dos jovens. A ideia, segundo Adair, era preservar aquilo que os antigos construíram, mas garantir que as novas gerações também encontrassem no clube um espaço para conviver.
Durante sua passagem pela presidência, Adair também viveu situações que ficaram marcadas na memória. Uma delas aconteceu durante uma enchente em Pomerode, quando um baile que seria realizado no clube chegou a ser ameaçado de cancelamento.
Mesmo diante das dificuldades, a festa foi mantida. O resultado surpreendeu: 1.224 pessoas pagaram ingresso naquela noite, transformando o evento em um dos maiores já realizados no local.
Um sonho que nasceu em família
A história do clube também está diretamente ligada à família Lindemann. Magrid Milchert, filha de Augusto Lindemann, recorda as histórias contadas pelo pai sobre a origem da sociedade.
Segundo ela, a ideia de criar um espaço de convivência surgiu inicialmente a partir de um desejo de sua irmã, Ingrid, que queria abrir um bar e um salão. A doença e posterior morte da jovem, aos 14 anos, fizeram Augusto desistir temporariamente do projeto. Mais tarde, familiares e amigos o incentivaram a retomar a ideia.
As primeiras conversas, conforme as lembranças da família, aconteceram sob árvores de jabuticaba, em um cenário ainda bastante diferente da Pomerode atual.
>>> Siga o canal do Jornal de Pomerode no WhatsApp
“Eu tinha 11 anos quando meu pai contou essa história. A minha irmã queria que ele abrisse um salão, queria um bar, e ele já estava com o fundamento praticamente pronto. Depois ela ficou doente e faleceu, e ele disse que não faria mais o salão. Com o tempo, vieram os familiares e os amigos, incentivaram novamente e disseram que era importante honrar aquele desejo. Então ele decidiu continuar e criar a sociedade. Foi assim que aquele sonho voltou a ganhar força.”
A criação do clube também esteve ligada à necessidade de oferecer um espaço de lazer para trabalhadores da região. Magrid lembra que funcionários da Porcelana Schmidt, que transitavam pela localidade, buscavam locais para se reunir e se divertir.
A lógica fazia parte de uma tradição trazida pelos imigrantes e mantida pelas comunidades de origem germânica: além da educação e da religião, os espaços de lazer tinham papel importante na vida social.

Clube de Caça e Tiro XV de Novembro (Foto: Reprodução)
Por que XV de Novembro?
A sociedade foi fundada em 23 de outubro, conforme lembrado pelos entrevistados. A escolha do nome XV de Novembro estaria relacionada à proximidade com o feriado da Proclamação da República, celebrado em 15 de novembro.
Adir Siewert, atual presidente, explica que, naquele período, as datas cívicas tinham grande presença na vida cotidiana e eram valorizadas também nas escolas.
A primeira estrutura também passou por transformações ao longo do tempo. O antigo salão era uma construção de madeira e, posteriormente, foi vendido e reconstruído em Blumenau. A atual estrutura do clube foi inaugurada em 1991, segundo os entrevistados.
Um clube que precisou se adaptar
Se os primeiros desafios estavam relacionados à construção e à manutenção da estrutura, atualmente a principal preocupação é garantir que o clube continue atraente para as novas gerações.
Para Adir Siewert, o cenário de lazer mudou significativamente nas últimas décadas. Os jovens têm hoje diversas alternativas, enquanto os clubes precisam oferecer conforto e estrutura para continuar sendo espaços de convivência.
“Hoje em dia a competição é cada vez maior. Se os clubes não se atualizarem, vão ficar para trás e dificilmente serão prestigiados pelos jovens. Precisamos buscar conforto, oferecer um ambiente agradável, climatização, móveis adequados e estrutura. As pessoas precisam chegar aqui e dizer que se sentiram bem e que querem voltar. Essa adaptação para os novos tempos é um desafio diário, porque as pessoas mudaram, as opções de lazer mudaram e nós também precisamos mudar.”
Atualmente, a entidade possui aproximadamente 150 associados e afirma estar aberta à chegada de novos integrantes. Além disso, a diretoria trabalha constantemente no planejamento de melhorias e na elaboração de projetos em prol de oferecer uma estrutura cada vez mais completa.
Espaço de toda a comunidade
Além das festas e atividades próprias, o Clube XV de Novembro também recebe iniciativas de outras entidades. Na entrevista, Adir cita eventos ligados à educação, igrejas, grupos e outras atividades comunitárias.
Para ele, essa utilização reforça uma das funções históricas dos clubes: promover encontros e fortalecer os vínculos entre moradores.
“O verdadeiro sentido desses clubes é o encontro comunitário, que enriquece a comunidade. Uma comunidade que anda junto é forte, e os clubes têm grande valor nisso. Aqui existe uma confraternização, um espaço onde as pessoas se encontram. Enquanto isso estiver vivo, nós teremos uma comunidade forte. Hoje estamos conseguindo manter isso da maneira como vinha lá de trás e esperamos que continue por muito tempo.”
Tradição que olha para o futuro
Ao completar 60 anos, o Clube de Caça e Tiro XV de Novembro reúne, portanto, uma história construída por diferentes gerações. As dificuldades enfrentadas no passado, as festas que entraram para a memória da comunidade, o tiro esportivo, o trabalho voluntário e a participação das famílias fazem parte de uma trajetória que continua sendo escrita.
Aos 60 anos, o XV de Novembro permanece, assim, como um espaço de encontro. Um lugar onde histórias de família se cruzam com novas experiências e onde o passado serve como referência para pensar os próximos anos.
Mais do que celebrar seis décadas, a data representa também um convite para que novas gerações ocupem o espaço, conheçam sua história e participem da construção do futuro do clube.