Mantendo tradições, com um toque feminino
Tanto no operacional, quanto na liderança, é clara a atual desconstrução da imagem de que certas profissões são, essencialmente, masculinas
A vida prega algumas surpresas ao longo de seu curso. Algumas boas, outras nem tanto. Os empreendimentos de Cide Pedrini, empresário pomerodense que faleceu em dezembro de 2015, sempre foram voltados a um mercado, até então, de certa forma, masculino.
Seja no ramo de pneus, transporte ou turismo, o patriarca sempre esteve à frente das negociações. Contudo, contava ao seu lado com o apoio das filhas e de sua esposa Adalgisa, que, definitivamente, após a perda do esposo e do pai, arregaçaram as mangas e passaram a administrar as empresas.
A qualificação profissional e a formação das três filhas de Cide, Camila, Leticcia e Juliete, foram o norte para que fosse possível começar a superar a dor do luto e desempenharem cargos de chefia, descobrindo, na profissão, que não há barreiras para o sexo feminino e que, mulheres, quando motivadas, vão adiante e executam qualquer tipo de trabalho.

( Foto: João Danilo Almeida / JP )
Dando cor a um ambiente de pneus
Camila Pedrini é responsável pela parte administrativa e financeira, mas para ela, viver entre borracheiros, pneus e caminhões sempre foi algo natural. “Na verdade, sempre trabalhei aqui. Ainda na escola, trabalhava ajudando em eventos ou em dias de muito movimento na loja de porcelanas da minha mãe, que funcionava no mesmo prédio. Nós moramos no andar superior, então participamos desde sempre da vida no comércio. Nunca me vi trabalhando em outro lugar, para mim foi natural que eu iria acompanhar meu pai na empresa”.
Porém, o desejo de se especializar para que desempenhasse da melhor forma possível suas atribuições acompanhava Camila, tanto que, aos 17 anos, começou a faculdade de Administração e a trabalhar integralmente na empresa do pai. “Neste meio tempo, fiz diversos serviços, comecei como auxiliar administrativo, fazendo serviços de banco, faturamento, cadastros e, aos poucos, fui assumindo mais funções, prestando contas com motoristas, folha de pagamento, contas a pagar e a receber. Fui fazendo outros cursos, MBA, paralelamente ao trabalho, para me preparar para assumir a parte financeira”.
E quando o assunto é o preconceito enfrentado, Camila é enfática: “Meu pai nunca duvidou da nossa capacidade e nunca deixou transparecer que, por sermos mulheres, não seríamos competentes para assumir a empresa. Ele sempre nos desafiou e acreditou em nosso trabalho”.
Por atuar na empresa há muitos anos, as lembranças que acompanham Camila são inúmeras. Porém, algumas mais especiais que outras. “Lembro de uma ocasião, há oito anos, em que haveria um show da Madonna, em São Paulo. Nessa época praticamente não tinham shows internacionais no Brasil e há anos a Madonna não vinha para cá. Como eu sou fã, vi a oportunidade de fazer uma viagem para este show. Meu pai me liberou a verba para comprar os 40 ingressos antecipados. Passei a noite em claro ao telefone ligando para a central para conseguir os ingressos, que só poderiam ser comprados por telefone, de seis em seis. E assim, lotei o ônibus. Abriu mais um show devido à procura, comprei mais ingressos e lotei o segundo ônibus. Foi uma sensação muito boa de vitória, de ele ter acreditado em mim. E assim foi sempre, mesmo as viagens não sendo a minha área, sempre acabei participando de diversos setores”.
Seguir os passos do pai também foi algo natural para Camila, seja profissionalmente ou em outras atividades. “Meu pai sempre foi envolvido com futebol. Fomos assistir a jogos em estádios, cheguei a treinar salão, íamos ao Floresta. Quando ele foi presidente, eu acabei sendo a secretária, fazia a parte financeira para ele, mesmo sendo uma área predominantemente masculina, ele sempre nos incentivava a participar”.
E não é por se trabalhar entre pneus, calotas, aros e chaves de roda, que o ambiente de trabalho tenha que ser cinza e monótono. Levar cor e vida à empresa, é um dos objetivos de Camila. “Iniciamos uma reforma na loja de pneus, e no próximo ano, iremos fazer uma reforma também na área da Rodocide, para deixar o escritório mais moderno e colorido. Pois a maioria dos homens não valorizam tanto essa parte estética, e meu pai realmente não dava muito valor para isso, ele foi uma pessoa simples que andava sempre de chinelo, para ele não tinha valor comprar escrivaninhas diferentes ou mudar a vitrine do escritório. Porém, percebemos que esta parte torna o ambiente mais humanizado e agradável para trabalhar, e valoriza os funcionários que estão neste ambiente”.
Camila destaca, ainda, que seu conhecimento profissional se deu, em grande maioria, à paciência de seu pai, que sempre estava disposto a esclarecer suas dúvidas, que eram inúmeras. “Sou uma pessoa muito curiosa e ele sempre me mostrava, me levava para um local para me ensinar como funcionava tal coisa que eu queria saber, ou fazia um desenho, contava uma história para ilustrar. Eu tenho uma filha e ela é muito parecida comigo, me vejo nela, e às vezes, eu perco a paciência de tanta pergunta que ela me faz”.
A paixão pelo turismo
A exemplo de sua irmã Camila, Leticcia Pedrini Krahn também começou a trabalhar nas empresas do pai aos 17 anos. Hoje, turismóloga e pós-graduada em Gestão Empresarial, relembra os primeiros passos de sua trajetória.
“No início fazia serviços de digitação, organização de papéis, atendimento ao telefone e e-mail marketing. Comecei a organizar e montar roteiros para vendê-los. A pedido do meu pai, em 2006, migrei para loja de pneus, onde tive a oportunidade de conhecer tudo: medidas, marcas, modelos e, também, a parte administrativa da loja, financeiro, análise cadastral, entre outros serviços. Implantei o sistema de informática para estoque, vendas e cadastro de clientes, que até então era manual. Em 2012, após o nascimento da minha 2ª filha, decidi me dedicar de novo à área de turismo, que é minha grande paixão. Criamos a agência de viagens da Turismo Rodocide, com venda de pacotes aéreos e também cruzeiros, focada em grupos. Nunca fiz apenas uma coisa, sempre tivemos diversos serviços diferentes para realizar na empresa, aprendemos a trabalhar assim com meu pai, que sempre foi um empresário com multi-funções, nunca se negou a fazer nenhum tipo de serviço. Depois que meu pai faleceu, assumi mais ainda o compromisso de administrar a loja, já que antes, eu e ele dividíamos essa tarefa”.
Questionada sobre como foi assumir o desafio de atuar em um mercado onde existe certo preconceito quando algumas tarefas e funções são desempenhadas por mulheres, Leticcia explica sua postura. “Uma mulher tem que fazer muito melhor do que um homem para provar que consegue, devido ao preconceito. Mas mesmo assim, me sinto 100% capaz de administrar a loja de pneus hoje, porque, já trabalhei no atendimento, o que me deu conhecimento sobre os produtos. Tenho acesso à informação e, também, porque sou comprometida e dedicada. Se você se dedicar, estudar o assunto, se realmente quiser, você pode fazer tarefas que, perante à sociedade, são vistas como masculinas. Basta querer realmente, do fundo do seu coração”, relata.
Para Leticcia, gerir as empresas do pai ao lado de suas irmãs e mãe, ou seja, entre mulheres, é dar continuidade a tudo que aprenderam com Cide, porém, trazendo um colorido para a empresa. “Um toque de cor, organização e também um espírito mais amoroso e paciente. Porém, o que aprendi com ele, entre tantas outras coisas, é que trabalhar honestamente para manter uma empresa é uma tarefa árdua e cansativa, mas rende muitos frutos se você persistir e se dedicar”.
Reforçando o time
Juliete PedrinI, a caçula da família, é formada em Comércio Exterior e atuou em outros segmentos, como o ramo de cosméticos. Porém, quando seu pai faleceu, juntou-se às irmãs e a mãe para assumir o desafio de gerir as empresas da família. “Trabalho com a parte de vendas/comercial no ramo do turismo. Minha experiência profissional foi principalmente na indústria, área de Comércio Exterior (importação) durante alguns anos. No ano passado passei a trabalhar com vendas em uma multinacional, no setor de cosméticos, e me identifiquei muito com o trabalho, por isso, escolhi assumir esse departamento”.
Mesmo tendo traçado, a princípio, outros planos para sua vida, Juliete, assim como as irmãs, sempre foi encorajada por seu pai a assumir todos os tipos de funções. “Quando completei 18 anos e fiz a carteira de motorista, meu pai me pedia para ir todos os dias fazer o trabalho de banco para praticar a direção, assim aprendi a dirigir e estacionar sem medo. Não quero dizer com isso que os desafios serão fáceis de enfrentar, mas pela nossa criação, tenho certeza que terei força e coragem para enfrentar as dificuldades que aparecerem, sejam elas quais forem”.
A decisão de abraçar a gestão das empresas ao lado de sua família foi tida por Juliete como algo natural, já que, para ela, este foi o maior ensinamento deixado por seu pai, a união entre eles, independente das diferenças, o que faz com que possam contar uns com os outros em momentos bons e ruins. “Acredito que posso acrescentar muito à empresa, tanto pela minha experiência profissional em outras empresas como pelo amor que eu sinto pela minha família. Estamos reestruturando a empresa em vários sentidos, mas, na minha opinião, informatizar alguns dos processos internos, proporcionar um ambiente de trabalho mais gostoso para os nossos funcionários e focar na excelência em qualidade dos nossos ônibus e dos nossos serviços são prioridades. Esses são detalhes que eu, como mulher, considero especialmente importantes”.
Cide Pedrini
Valcides Pedrini, mais conhecido como “Cide”, falecido em dezembro/2015, teve uma brilhante história. Sempre disposto a auxiliar a comunidade e as pessoas. Mesmo que de
semblante carregado, jamais titubeava em ajudar ao próximo. Disposto a, pacientemente, passar suas experiências e ensinamentos, fazendo questão de transportar histórias e frases ditas por seu pai, Geraldo.
Nos negócios empreendeu diversas atividades e, humildemente, teve sucesso em todas. Com seu jeito simples, não ficou sequer um dia sem acordar cedo e trabalhar. Com sua bermuda “meia canela” tratava todos igualmente e auxiliava, desde as tarefas mais simples, como endireitar pregos, até complexas equações negociais de cunho administrativo.
Socialmente, sempre esteve rodeado de amigos, de todos os cantos e clãs dessa cidade. Participava ativamente de rodas de carteado, bocha, futebol, igreja, escola e grupo de casais. Anualmente, organizava sua famosa feijoada no Morro Azul, onde facilmente se reuniam mais de uma centena de pessoas.
No futebol, foi jogador, treinador, presidente, mentor, torcedor e patrocinador do Floresta, sendo protagonista de diversas vitórias, construções, títulos e alegrias ao clube. Sempre participou ativamente das disputas e das agendas dos jogos, comparecendo assiduamente com sua cadeira de praia, radinho de pilha e guarda-chuva, se necessário.
Conciliava suas inúmeras atividades com uma intensa presença familiar. A todo tempo queria todos pertinho. Dizia: “minha casa só tem tramela”, sugerindo que familiares e amigos íntimos entrassem e saíssem como bem entendessem. Várias eram as cadeiras que se exprimiam à mesa e compartilhavam das frequentes refeições, que eram de sua especialidade, preparadas com cuidado e temperos impossíveis de se imitar. Em passeios, fazia questão que todos se amontoassem no mesmo carro para aproveitarem juntos a viagem.
“Honrado, honesto, corajoso e de um grande caráter. Vamos sentir falta de sua sabedoria, amizade e amor pela vida. Tinha o poder de animar e reunir as pessoas. Não suportava ficar sozinho. Pomerode deve absoluta gratidão por aqui ter passado, por ser alguém que deixou sua marca, feitos e histórias, várias sem sequer ter aparecido ou contado. Há inúmeras razões para sentir saudade. Dia a dia, é necessário mais força para superar sua ausência. Porém, hoje sua torcida certamente é forte e presente. E esteja onde estiver, o seu sorriso estará sempre vivo em nossa memória, e estará sempre guardado em nossos corações”, finalizam Camila, Leticcia e Juliete.
( Foto: Divulgação )