Instrumento de Deus
O pomerodense Lucas Schumacher foi ordenado Diácono pela Igreja Anglicana no Brasil e conta sua história de luta, fé
e amor pela Palavra
Para pintar um quadro, o pintor precisa de instrumentos: pinceis, tintas, tela, entre outros. Somente os instrumentos não fazem nada, certo? Eles precisam de alguém para manuseá-los , aproveitar suas funções únicas e, por fim, realizar sua obra de arte. Do mesmo modo, Deus utiliza cada um de nós para realizar sua obra ao nosso redor. O dom de ser instrumento de Deus na terra é um privilégio e, muitas vezes, o despertar do dom ocorre ainda na infância.
Foi assim com o pomerodense Lucas Schumacher que, aos seis anos de idade, viu na fé o seu dom. “Lembro que achei um livro em alemão no armário da minha avó, Erna Schumacher. Mas não sabia ler em alemão. O livro era o tradicional “Haus Buch” (Livro de Casa), no qual havia orações e o Catecismo Protestante. Minha avó e eu sentávamos todas as noites na varanda de casa, líamos a Bíblia em alemão e cantávamos belos hinos tradicionais. Em 2005 ela faleceu, mas, mesmo assim, o dom e a vocação de servir a Deus e ao próximo já haviam despertado o meu coração. Nunca desisti, mesmo sofrendo muito com a sua perda. Continuava celebrando nos ranchos. Tinha ‘mini” capelas. Os sinos feitos de velhos bules de leite, e como público, estavam lá o Mobi, Ringo e o Preto, três cachorros pontuais. Assim que puxava os sinos, os três vinham correndo, sentavam no chão e saíam apenas na hora que os sinos batiam novamente no final”, conta.
Desde muito jovem, Lucas tinha como maior entretenimento celebrar a Deus e, para isso, pedalava até 25km para participar de celebrações em cidades vizinhas. “Ingressei no Culto Infantil pela Igreja Luterana, a qual era membro e que muito me ajudou no crescimento espiritual. Muitas vezes, pela paixão de visitar Igrejas e conversar com pastores, pegava minha bicicleta e chegava a pedalar mais de 25 km até a cidade vizinha de Jaraguá do Sul, onde gostava muito de participar dos cultos. O tempo escuro, a chuva ou o frio foram as provas de que, na escuridão, Deus sempre foi a minha luz. Na chuva, Deus foi o sol e no frio, Deus foi o calor. Em todos os momentos, Ele estava comigo”, revela.
No ano de 2011, o jovem teve a oportunidade de cursar o ensino médio e o magistério no Rio Grande do Sul em uma instituição vinculada à Igreja Luterana. Porém, após quatro meses no estado, por motivos de saúde, retornou a Pomerode. “Foi durante o tempo de doença, que pude novamente, me dedicar mais à leitura e à meditação. Foi então que conheci o Curso de Teologia à distância de Ituiutaba (MG). Um curso aberto, básico para adquirir conhecimentos referente às Escrituras e à interpretação. Após concluir o curso, em dois anos e meio, recebi a certificação e o histórico. Durante todo tempo de tratamento e estudo, sempre quando pude, reuni minha família e amigos para cantar, ler as Escrituras e meditar. Seguia o mesmo sistema ao qual, anos atrás, minha avó me ensinava. Muitos acabaram não gostando da minha decisão de fazer um curso de Teologia à distância. Outros deixaram de dialogar comigo. Isso me machucava muito”, lamenta.
Durante o curso, Lucas conheceu e estudou sobre outras denominações cristãs e foi aí que conheceu a Igreja Anglicana. “Deparei-me com a ‘Igreja Anglicana”, desconhecida pelo nome, e comecei a pesquisar mais sobre ela. Vi que em Curitiba havia uma catedral e outras paróquias e, de forma geral, pelo Brasil inteiro. Busquei mais contatos, vi que era uma igreja histórica, que renasceu na Inglaterra pelo Rei Henrique VIII, no século 16″, explica.
Lucas conta que recebeu a ordem de Ministro Leigo pela Igreja Anglicana Tradicional no dia 19 de março de 2016 e, após a avaliação Teológica com o bispo diocesano, recebeu a autorização para pregar o Evangelho e distribuir a sagrada comunhão. “No anglicanismo existem três ordens. A primeira de Ministro Leigo, a segunda de Diácono e a terceira, de Presbítero (Sacerdote/Reverendo). No anglicanismo, os Padres e bispos podem casar e constituir família”, explica.
Na vida do jovem, a sua vocação sempre esteve ligada ao cuidado com o próximo, não apenas dentro de uma igreja. “Trabalhei por seis meses no Centro de Convivência Pommernhein e, em seguida, me mudei para Timbó, onde curso o Técnico de Enfermagem. Trabalho atualmente como cuidador de idoso particular e, como ordenado, celebro cultos aos domingos, a cada 14 dias, no Lar de Idosos Elza Benz”.
No último domingo, 14 de maio, Lucas foi ordenado Diácono em celebração que reuniu familiares, amigos e religiosos, além do Coral Pommernsänger, que entoou hinos durante a celebração no Clube Botafogo. Ele revela a emoção de estar recebendo essa segunda ordem e poder levar o Evangelho a mais pessoas. “Sempre fui um Diácono, creio eu. Nunca tive medo de seguir o meu caminho. Dificuldades tive, e muitas. Mas se Deus é por nós, quem será contra nós? Como Diácono, caberá a mim a celebração do Culto, distribuição da Santa Ceia, batizar, benzer, realizar casamentos, visitar doentes e idosos, bem como auxiliar ou presidir sepultamentos. Ou seja, Diácono é aquele que serve a Deus e ao próximo. É um privilégio, mas ao mesmo tempo, um desafio. É aceitar o caminho da cruz, aceitar o caminho dos espinhos”, conta.
Lucas é o único Diácono Anglicano no Vale do Itajaí. Sobre os desafios, ele revela que, com Deus ao lado, nada poderá lhe abalar. “Estou confiante. Hoje sou muito grato a Deus. Todas as vezes que olho para trás, vendo tudo que passei, pela dor da doença, pelas críticas, pelos amigos que perdi, não posso dizer que não me emociono. Muitas vezes choro ainda, mas ao mesmo tempo, sinto algo que parece ser um abraço. Sinto algo dizendo suavemente: ‘Não temas, Eu estou contigo!”Eu prometo enxugar todas as suas lágrimas…” Sou muito grato a Deus por tudo que passei, mesmo nos momentos difíceis. Grato a Deus por cada pessoa que me ajudou, tanto na doença, quanto na preparação para a Ordenação Diaconal. Se hoje ainda choro, não é por tristeza, mas por gratidão. Muito obrigado a todos”.