Geral

Juntos numa mesma profissão

Apaixonado pelo que faz, casal de Médicos Veterinários conta
um pouco da sua história e sobre a profissão que escolheu

5 de maio de 2016

Dentre tantas profissões, fica difícil escolher qual queremos seguir, como iremos trabalhar todos os dias. Rafael Pagani e Renata F. Ardanaz são formados em Medicina Veterinária e, atualmente, trabalham no Zoológico de Pomerode. O casal nos contou um pouco sobre as alegrias e dificuldades do seu trabalho.

Rafael tem 29 anos e é natural de Registro – SP. Ele lembra que sempre gostou e teve muito contato com animais quando era criança, por isso sua escolha por Medicina Veterinária. “Desde criança sempre gostei de animais, minha família é de uma parte rural da região. Então, sempre tive muito contato com animais domésticos e, por ser uma área com bastante vegetação, tive bastante contato com animais silvestres”.

A companheira de Rafael, Renata F. Ardanaz, de 28 anos, natural de Cascavel, também optou por esta profissão, já que desde muito pequena sempre gostou de bichos e sempre dizia que seria veterinária. “Nunca passou outra profissão pela cabeça. Cheguei a prestar vestibular para biologia, mas, por falta de opção na minha cidade, que não tinha veterinária. Sempre queria trabalhar com bichos, desde muito pequena sempre gostei de animais e nunca mudei de ideia”.

Rafael já está há quatro anos no Zoo Pomerode e Renata quase três. São parceiros em tudo que fazem, na vida pessoal e profissional. Estão juntos há 11 anos, se conheceram ainda na Universidade Federal do Paraná, no campus de Palotina, eram vizinhos e estudavam na mesma turma. Rafael sempre trabalhou com animais silvestres, já Renata teve experiência em uma clínica de animais de pequeno porte, antes de conseguir trabalhar no ramo. “Sempre quis fazer estágio, trabalhar na área de animais selvagens, mas as oportunidades são poucas, temos 127 zoos no Brasil inteiro. Mas, me complementou muito a experiência que eu tive na clínica, porque o que aprendi lá, hoje consigo aplicar aqui dentro. A clínica destes animais pequenos é muito mais complicada do que animais selvagens”.

Muitos acreditam que trabalhar junto com o companheiro pode trazer problemas e brigas, tanto no trabalho como em casa. Mas, Rafael e Renata acreditam que é melhor assim. “Para o nosso trabalho, nossa função, eu acho bom trabalharmos juntos, muita gente pergunta se a gente não enjoa um do outro. Mas é porque nós não temos uma rotina, se eu trabalhasse aqui e ele em outra área e não no mesmo lugar, não iria dar tão certo, porque ninguém imagina o quanto isso aqui toma do nosso tempo”, ressalta Renata.

Rafael ainda complementa com o seguinte, “no nosso trabalho somos profissionais, que conversam, discutem os casos clínicos e decidem em conjunto o que é melhor para o animal. Um veterinário também não segue uma rotina, em alguns casos é chamado na madrugada ou no final de semana, caso o animal apresente algum problema e até mesmo para auxiliar em parto. Desta forma, somamos esforços, somos dois profissionais que acreditam nesse trabalho e queremos o melhor para os animais e que o Zoo continue crescendo”.

A grande preocupação deles no trabalho, é com o bem-estar dos animais, é uma área nova e que está crescendo. “Estamos dando um grande foco no condicionamento e saúde mental, com técnicas na qualidade de vida dos animais, é o que mais estamos desenvolvendo com eles. Nossa medicina também busca trabalhar na prevenção, evitando que os animais adoeçam”.
Com esta preocupação, os veterinários iniciaram, com os elefantes um trabalho de condicionamento e treinamento para que permitam que os médicos façam suas unhas, coletem sangue, que mexam em suas bocas. “São vários os procedimentos para que o animal colabore com a gente, e esse é o nosso grande esforço no trabalho. Isso tem dado destaque em nível nacional e é nisso que temos nos dedicado. Não basta o animal estar bem fisicamente, ele precisa ter uma saúde mental boa, por isso trabalhamos também com enriquecimento ambiental”. Com este trabalho, já foram premiados dois anos consecutivos como melhor produção científica no Congresso da Sociedade de Zoológicos e Aquários do Brasil. No ano de 2015, foi pelo trabalho “Condicionamento de elefante-asiático para intervenções podais” e, no ano de 2016, pelo trabalho “Condicionamento de elefante-asiático para coleta de sangue”.

Outra preocupação que o casal possui, dentro da profissão que exerce, é de se tornar referência na área. “Queremos nos tornar referência na área, tanto é que recebemos essas duas premiações recentes, também somos convidados frequentemente para dar palestras em universidades, não só aqui da região. Aos poucos estamos conseguindo cumprir o objetivo e também auxiliar os profissionais da área, os acadêmicos. Quanto mais pessoas trabalharem em prol disso, mais pessoas estarão trabalhando em favor da conservação, do bem-estar dos animais e melhorando a instituição. Esse é um projeto pessoal, eu não tenho ambições de ser professor universitário, ou rico. Queremos ser respeitados na área, ser referência. E sabemos que se crescermos , o Zoo cresce junto e vice versa. Vamos crescendo lado a lado, é uma parceria que está dando certo e estamos colhendo bons frutos”, comenta Rafael.

Trabalhar com animais selvagens nem sempre é fácil, requer muito cuidado ao mexer com eles, pois o risco é grande. Renata conta uma das dificuldades em se trabalhar com os animais de um zoológico. “Eu posso falar por quem já atendeu cachorros e gatos, conseguimos pegar e medicar a hora que precisar. E aqui, no zoológico, a maior dificuldade é que os animais são selvagens, o potencial de risco deles é altíssimo. Então, eu não posso pegá-los de seis em seis horas para fazer um curativo. Também não posso sedar toda vez que for fazer isso, precisamos criar meios de medicar o animal sem que ele perceba, conseguir avaliar à distância. Para mim, foi essa a maior dificuldade. Eu já sabia, entendia essa realidade, a dificuldade de não poder ter o contato direto com os animais. Aqui nós atendemos desde um sapo até um elefante, a disparidade de espécies é muito grande, a diferença fisiológica e biológica de cada um, também é uma grande dificuldade, porque você precisa entender bem de todos, isso é bem difícil dentro de um zoológico”. Para isso, os Médicos Veterinários nunca param de pesquisar e se atualizar, segundo Rafael, “isso requer uma atualização constante para nós, sempre estão surgindo novas técnicas, novos medicamentos, novos procedimentos a serem adotados. E, tudo isso envolve muito a questão do bem-estar do animal, de poder medicá-lo sem que ele perceba, fazer um curativo minimamente invasivo, fazer com que o animal ofereça o local da ferida para ser medicado. Este é um trabalho gradativo e que a gente está conseguindo fazer aqui no Zoo, sendo o nosso maior esforço e grande destaque aqui dentro”.

Para eles, outra grande questão é a importância de respeitar e saber os limites de onde o médico pode ir com o animal. “Nós sabemos do risco e trabalhamos até um certo limite. Em dez anos, trabalhando com animais selvagens, nunca corri risco ou tive algum problema, porque sei do perigo, de seu potencial e respeito o animal. Não temos medo mas, precisamos respeitar, o dia que ultrapassar o respeito ou agir com autoconfiança, aí sim pode acontecer um acidente”, ressalta Rafael. Renata ainda complementa “o dia que você for confiante demais, pode sair do zoológico, porque você não serve mais para trabalhar aqui”.

Para quem quer ser um Médico Veterinário, as portas estão abertas, as áreas de atuação são amplas. Já para trabalhar com animais silvestres, é preciso um pouco mais de esforço e dedicação. “A medicina de animais selvagens vem avançando muito hoje em dia, algumas pessoas até têm animais exóticos nas residências, tem uma serpente, um papagaio, uma calopsita e que precisam de atendimento. Este mundo PET está crescendo, precisando de médicos veterinários para atender estes animas. Mas, para quem quer trabalhar em zoológico, o mercado ainda é muito fechado, porque existem apenas 127 zoológicos no Brasil e cada um deles é obrigado a ter pelo menos um Veterinário, então seria, no mínimo, 127 profissionais contratados, muito pouco para o Brasil inteiro”. Mas, para quem realmente deseja seguir a profissão deve, acima de tudo, gostar do que faz. “A primeira coisa é você trabalhar com paixão, porque na grande maioria das vezes você não fica rico com a Medicina Veterinária, é algo que você vai trabalhar muito, dia e noite, então, o mínimo que você pode fazer é gostar da sua profissão, é o início”, comenta Renata.

Dentro da Medicina Veterinária, são diversas as possiblidades de atuação. “É uma área bastante ampla, em que você pode trabalhar numa inspeção de alimentos, por exemplo. É uma área que dá boas opções para quem vai se formar e entrar no mercado de trabalho. Mas é também uma área que requer uma atualização constante, gostar muito do que faz, vai precisar continuar estudando, pesquisando e se atualizando com cursos. E, fazer uma coisa que você gosta é algo que não tem preço. A gente vem pro trabalho, porque é prazeroso, nós queremos vir. Eu ficaria muito mal de vir aqui e pensar que é mais um dia nesse trabalho, só para cumprir o horário. Existe uma frase que diz, ‘Escolhe um trabalho de que gostes, e não terás que trabalhar nem um dia na tua vida”, então você precisa acima de tudo gostar e se sentir bem com o que faz”.

Rafael e Renata também deixaram uma mensagem a todos os trabalhadores, independente da sua profissão. “Que as pessoas quando se propõem a fazer algo, que elas façam da melhor maneira possível, com dedicação e tentem ser o melhor profissional possível, independente da profissão e, com o tempo, o sucesso e o reconhecimento virão”.

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