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Da solidão ao amor

Conheça o Sítio Dona Lúcia, na Vila Itoupava, que abriga cerca de 700 animais vítimas de abandono e maus-tratos

8 de abril de 2016

Desde sempre ouvimos falar que o “cão é o melhor amigo do homem”, mas será que o homem tem retribuído essa amizade? Pelo jeito não. A Organização Mundial da Saúde estima que só no Brasil existam mais de 30 milhões de animais abandonados, entre 10 milhões de gatos e 20 milhões de cães.

A realidade está em todos os lugares. Em todas as cidades os animais precisam de corações generosos e, acima de tudo, de amor e carinho. E é isso que Dona Lúcia, de 56 anos, faz há mais de 30 anos. Retira das ruas e de situações de maus-tratos os pequenos e indefesos e os leva ao seu sítio para que encontrem uma nova família ou vivam por lá até o final de suas vidas.

“Comecei há 32 anos, resgatei um e logo já tinha mais quatro. Depois foi aumentando, quando vi já tinha mais de 100. As pessoas passaram a me procurar para fazer resgate de maus-tratos e situação de abandono, atropelamento, entre outros. A partir do momento que abracei a causa os números só foram aumentando e hoje estou com uma média de 700 animais, entre cães, gatos e, esporadicamente, até cavalos”, explica.

Mas nem sempre foi assim. Dona Lúcia conta que na sua infância seus pais não gostavam de animais de estimação, então ela adorava passar o dia na casa dos avós, onde havia uma grande quantia de animais. “Na casa dos meus avós tinha vários animais. Cães, gatos, cavalos, porém meus pais nunca me deixaram ter um animal de estimação. Logo que casei comecei a ter os meus e nunca mais parei”, brinca.

Quando perguntada do sentimento que ela tem por ser anjo na vida de milhares de animais no decorrer desses 30 anos, ela não esconde a felicidade. “Me sinto muito bem, é uma alegria enorme viver com eles, poder ajudar esses animais, porém é triste ver que quem não tem salvação são os humanos, que a cada dia maltratam e abandonam mais animais a mercê da própria sorte”.

As situações em que os animais são resgatados são diversas. Dona Lúcia recorda cada caso, mas conta que sempre tem aqueles que marcam pela crueldade e falta de amor. “O fato que mais me marcou foi quando fui fazer o resgate de um animal de grande porte. O dono amarrou uma cachorrinha numa árvore e tentou matar com uma machadada. Com a dor ela se soltou e saiu correndo e eu consegui resgatá-la e levar até um veterinário. Ela foi anestesiada e retiramos a ‘machadinha” que estava na cabeça dela, mas infelizmente ela veio a óbito. Eu a enterrei e dei o nome de pintada, essa história ficou marcada”, conta emocionada.

Infelizmente a impunidade para crimes contra a fauna faz com que a crueldade só aumente e muitas vezes a prática é feita pela pessoa como se estivesse fazendo algo “normal” ou para saciar um desejo incansável de ver o animal sofrer. Casos como esse são frequentes na rotina de Dona Lúcia. “É assim sempre. Já atendi casos que tirei cachorros de dentro de tachos de água quente. Um caso recente que também me marcou, foi que deixaram uma caixa com uma mãe e dois filhotes aqui no portão do Sítio. Os filhotes estavam grampeados, um ao outro, com grampos para forro de pvc, e a mãe botaram argolas de trilho de cortina na boca para não latir. Como já estavam há tempo nessa situação, a mãe acabou morrendo por tétano, e os filhotes por desnutrição aguda”.

Apesar de estar acostumada a encontrar animais em situação de maus-tratos, Dona Lúcia revela que a crueldade choca cada dia mais. “São muitos os casos, e por mais que eu veja isso todos os dias, toda semana, todo caso choca pela crueldade. E tem pessoas que parecem levar isso como hobby, ateiam fogo em cachorros por divertimento, para ver o animal agonizar até a morte. É muito triste e desumano tudo que a gente vê por aí. Os fatos são marcantes, porque tu lida com a dor do animal e a gente acaba sofrendo junto.Tem cachorros que parecem que já me conhecem. Muitas vezes, na primeira troca de carinho, no primeiro olhar com eles, chega a escorrer lágrimas dos meus e dos olhos deles”, explica emocionada.

Os muitos voluntários do Sítio fazem também esse trabalho de resgate. Todos eles são cuidadosamente registrados a próprio punho por Dona Lúcia. “Todos os resgates que eu faço eu escrevo, de qual situação ele veio, de onde veio, cidade e etc. Um dia, na posterioridade, espero que uma das voluntárias do Sítio acabe catalogando tudo isso para que sirva de acervo histórico. Eu recebo vários animais durante o mês, mas tem épocas em que o número de abandono é maior. É o caso de novembro e dezembro. Muitas pessoas saem de férias, deixam os animais sozinhos, o que leva a fuga e aí aumenta os maus-tratos, atropelamentos e abandono”, conta.

Além dos maus-tratos, Dona Lúcia revela que já encontrou vários animais sendo usados em rituais de magia negra. “Gatos pretos dificilmente eu dou em adoção, porque são usados em rituais. Já retirei gato preto crucificado, mutilado, em diversos trabalhos de macumba, então prefiro mantê-los aqui ou doar para pessoas que conheço”, explica.

Para manter os cerca de 700 animais, a instituição conta com vários voluntários nas cidades onde faz resgate. E para manter-se financeiramente, Dona Lúcia explica que há diversas formas. “As formas de ajudar são os cofrinhos que estão em Blumenau, Pomerode, e em breve em Gaspar, Timbó e Indaial, que são cidades onde faço resgate sempre que solicitado, por mim ou através de voluntários. Ou através das contas bancárias disponibilizadas em nosso site (Banco 085 – VIACREDI – Conta 388.269-1 – Agência 0101). Recebo ajuda de diversas cidades, inclusive do litoral, de onde de vez em quando recebo cavalos, e também animais de pequeno porte. Já recebi bichos até de Curitiba, não importa de onde vem, o que importa é que ele seja tratado com dignidade, tenha um lugar para dormir, alimento todos os dias e que tenham a chance de habitar um lar de alguma família, o que é nossa maior luta”, reitera.

Dona Lúcia ainda reforça que para manter a entidade alguns eventos são realizados durante o ano, pois os custos são elevados. “A gente trabalha com eventos e ações para poder manter os gastos do Sítio, que são bem altos. Somente de ração são cerca de quatro toneladas por mês, e em torno de R$ 3 mil com medicamentos, valor esse que é variável, quando tem vacina, por exemplo, esse valor chega a dobrar. Tenho funcionários que mantém os canis limpos e distribuem alimentação também”.

O Sítio fica localizado no Bairro Vila Itoupava, em Blumenau, e atende cidades da redondeza. Somente em Pomerode, no último mês, o casal voluntário, Jacqueline Baehr e Márcio Riffel, resgataram dezenas de animais e encaminharam ao Sítio ou a um novo lar.

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