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O tabu sobre diálise

Apenas portadores de doenças renais crônicas com menos de 10% da funcionalidade do rim necessitam efetuar diálise. Roland Dorn é um dos pomerodenses que efetua o procedimento três vezes por semana

1 de junho de 2015

A rotina de Roland Dorn passou por mudanças no ano de 2005 quando descobriu que seus rins não estavam mais funcionando de forma adequada. A descoberta ocorreu após diversas internações devido ao seu pulmão estar sempre com água. Depois de algumas internações e retornos médicos, finalmente descobri que meu problema não estava relacionado aos meus pulmões, mas sim aos meus rins que não estavam mais filtrando água e este acúmulo causava outros problemas, explica.

Roland, 73 anos, foi fiscal da prefeitura durante muito tempo, mas aposentou-se em 1991 e seguia trabalhando durante os cinco anos seguintes. Hoje ele não trabalha mais. E quando questionado sobre a razão pelo qual o problema apareceu, ele responde que a pressão alta pode ter sido a principal causa.

Efetuando hemodiálise há quase nove anos, Roland passa três dias da semana no Centro de Hemodiálise de Timbó, em frente ao Hospital Oase, durante quatro horas e meia, sentado em uma cadeira junto a uma máquina que efetua o trabalho que seu rim não é mais capaz de fazer. Todo meu tratamento é efetuado pelo SUS e, por conta disso, tenho também o auxílio da Secretaria de Saúde da cidade, que me busca em casa e me traz de volta. Como o procedimento é demorado, saio de casa ainda de madrugada e volto perto do horário do almoço, revela. Antes seu Roland ia sozinho efetuar a hemodiálise, mas a praticidade falou mais alto.

 

O procedimento consiste na utilização do próprio sangue que passa por uma máquina, onde é filtrado e que depois retorna ao corpo. Como retemos muito líquido a cada sessão perdemos, em média, dois quilos. Por isso somos pesados e nossa pressão é verificada antes e depois do procedimento, explica.

Ao contrário do que muitos pensam o procedimento não dói. Depois que faço a hemodiálise me sinto mais forte. Já conhecia o procedimento e em nenhum momento fiquei com medo de realizá-lo, pois sempre perguntei como seria. Ele não dói, não machuca e é seguro, pois sempre é acompanhado por profissionais, conta.

Hoje em dia, a opção do transplante também auxilia quem possui problemas. No caso de Roland, a possibilidade foi cogitada, mas outros problemas o impediram de realizá-lo. Eu até efetuei os exames para o transplante, mas para isso é preciso achar alguém compatível. No meu caso, a possibilidade foi descartada devido a outros problemas de saúde, mas a opção é uma alternativa para quem faz o procedimento, explica.

Além da deficiência renal, seu Roland passou por outros sustos em sua vida. Isso porque há seis ele teve que efetuar uma cirurgia no coração. Faz seis anos que fiquei 55 dias internados. Eu tenho três pontes de safena e uma mamária. E durante o período que fiquei no hospital eu tive uma úlcera que me levou a ficar 19 dias e meio internado na UTI e outros oito no quarto. Durante este período a hemodiálise era realizada em Blumenau, lembra.

A cirurgia, a UTI, os remédios e as injeções foram todas custeadas pelo SUS. Na época, se fosse para pagar particular, eu iria gastar R$54 mil, além de mais de R$1.350,00 por dia na UTI, afirma.

Além disso, Roland também já efetuou dois cateterismos. Os médicos disseram que foi um milagre eu ter sobrevivido a tantas ocorrências nesse período. Mas estou aqui, firme e forte, ressalta.

O último susto de Roland aconteceu quando ele teve que efetuar 37 radioterapias por conta de seu problema de próstata. Tenho que voltar de quatro em quatro meses para verificar essa situação, explica.

Apesar das adversidades que a vida lhe apresentou, em nenhum momento Roland deixou-se abater e a garra, força e vontade que carrega todos os dias também lhe dão o necessário para seguir uma vida sem mais percalços e com muita disposição. A hemodiálise não tem idade e não escolhe perfil. Eu aconselho a todos que efetuem exames regularmente e que, caso precisem efetuar o procedimento, o façam sem receio algum. Sigo minha vida normalmente e não tenho medo, finaliza.

 

O procedimento – Doutor Ian Robert Rehfeldt é o responsável pela Clínica Médica de Nefrologia e também pelos 64 pacientes que efetuam a diálise em Timbó. O médico explica mais sobre o procedimento e esclarece algumas dúvidas sobre o tema.

Ao contrário do que se imagina, a diálise é efetuada apenas em pacientes onde os rins deixam de funcionar completamente ou que possuem menos de 10% de funcionamento. Em casos onde há um rim em funcionamento, também não é preciso efetuar o procedimento, frisa.

A insuficiência renal acontece, normalmente, em pessoas de risco. Pessoas que possuem diabetes, hipertensão, histórico familiar, além de obesos e tabagistas estão sob risco de desenvolver doenças renais, explica o médico.

As doenças renais não tem idade e por isso, exames periódicos se fazem necessários. É muito importante frisar que o rim também envelhece, assim como nós. Então, normalmente, pessoas mais idosas podem ter que efetuar o procedimento em número maior aos mais jovens. No entanto, isso não é regra. Fazer os exames é fundamental, enaltece.

O desconforto acontece por conta das agulhas, ao inseri-las, mas a dor cessa durante o tratamento. A diálise efetua a filtragem. E, com isso, o acúmulo de substâncias tóxicas no corpo é retirado através do procedimento, efetuando a função do rim, explica.

A qualidade de vida de quem faz a diálise não é modificada. Pelo contrário, efetuar a diálise melhora a qualidade de vida de quem possui alguma doença crônica renal e que necessite do tratamento. A falta dele pode, inclusive, acarretar em falecimento do paciente, conta.

Para que o paciente tenha todo o acompanhamento necessário durante o procedimento, a clínica de Timbó possui uma equipe multidisciplinar, que conta com psicólogo, nutricionista e enfermeiros. Além da equipe temos um protocolo a ser seguido, que inclui, também, a limpeza dos equipamentos. Cada equipamento é individual e identificado. O capilar, que efetua a função do rim, é único do paciente e utilizado 12 vezes antes de sua troca. Ou, caso necessário, em período menor, conta.

Na clínica em Timbó, 64 pacientes são atendidos, sendo 87% do SUS, 10% Convênio e apenas um é particular.

À população, o médico enaltece a importância da prevenção. As medidas preventivas sempre se fazem necessárias, uma vez que dificultam a perda da função do rim. Pois, depois que a doença crônica é detectada em fase de perda do rim, apenas medidas terapêuticas podem ser efetuadas, completa.

No entanto, para quem possui uma doença renal crônica, a diálise é apenas uma das medidas, sendo o transplante a outra. O transplante pode ser efetuado, mas há uma série de quesitos que devem ser preenchidos para que isso ocorra. Fora isso, a diálise torna-se eterna e fundamental para a continuidade da vida, afirma.

 

Os dois tipos de diálise – Os pacientes que, por qualquer motivo, perderam a função renal e necessitam de auxílio, possuem três métodos de tratamento, que substituem as funções do rim: a diálise peritoneal, a hemodiálise e o transplante renal.

A diálise nada mais é do um processo artificial que serve para retirar, por filtração, todas as substâncias indesejáveis acumuladas pela insuficiência renal crônica. Isto pode ser feito usando a membrana filtrante do rim artificial e/ou da membrana peritoneal.

Existem, portanto, dois tipos de diálise: a peritoneal e a hemodiálise.

 

Diálise Peritoneal – Este tipo de diálise aproveita a membrana peritoneal que reveste toda a cavidade abdominal do nosso corpo, para filtrar o sangue. Essa membrana se fosse totalmente estendida, teria uma superfície de dois metros quadrados, área de filtração suficiente para cumprir a função de limpeza das substâncias retidas pela insuficiência renal.

Para realizar a diálise peritoneal, deve-se introduzir um cateter especial dentro da cavidade abdominal e, através dele, fazer passar uma solução aquosa semelhante ao plasma. A solução permanece por um período necessário para que se realizem as trocas. Cada vez que uma solução nova é colocada dentro do abdômen e entra em contato com o peritônio, ele passa para a solução todos os tóxicos que devem ser retirados do organismo, realizando a função de filtração, equivalente ao rim. Para realizar a mesma função de um rim normal é preciso efetuar este procedimento quatro vezes por dia, com duração de cerca de uma hora cada, explica o médico.

A diálise peritoneal realizada no hospital é planejada segundo as necessidades do paciente, tendo em vista a situação da insuficiência renal.

A diálise também pode ser realizada no domicílio do paciente, em local limpo e bem iluminado. Neste caso é conhecida como DPAC (diálise peritoneal ambulatorial crônica). Caso o paciente consiga realizar sozinho pode fazê-lo em casa, sendo uma escolha dele. No entanto, é preciso observar sempre as condições de higiene, fundamental para que não haja problemas, frisa.

Neste caso, é introduzida a solução na cavidade abdominal, fazendo quatro trocas diárias e, depois de drenada, a nova solução é introduzida e assim por diante. Dependendo do caso, pode permanecer filtrando durante a noite. A DPAC permite todas as atividades comuns do dia a dia, viagens, exercícios, trabalho.

A diálise peritoneal pode ser usada cronicamente por anos, exigindo do paciente somente visitas médicas periódicas.

 

Hemodiálise – Na hemodiálise, é usada uma membrana dialisadora, formada por um conjunto de tubos finos, chamados de filtros capilares.

Para realizar a hemodiálise, é necessário fazer passar o sangue pelo filtro capilar. Para isso, é fundamental ter um vaso resistente e suficientemente acessível que permita ser puncionado três vezes por semana com agulhas especiais.

O vaso sanguíneo com essas características é obtido através de uma fístula artéria venosa (FAV). Normalmente esta fístula está localizada no braço, mas também pode ser coloca em outros locais, como no pescoço.

A FAV é feita por um cirurgião vascular unindo uma veia e uma artéria superficial do braço de modo a permitir um fluxo de sangue superior a 250 ml/minuto.

Esse fluxo de sangue abundante passa pelo filtro capilar, retirando tudo o que é indesejável. O rim artificial é uma máquina que controla a pressão do filtro, a velocidade e o volume de sangue que passam pelo capilar e o volume e a qualidade do líquido que banha o filtro.

Para realizar uma hemodiálise de bom padrão é necessário uma fístula artério-venosa com bom fluxo, um local com condições hospitalares; maquinário adequado e assistência médica permanente.

Tendo essas condições, o paciente poderá realizar hemodiálise por muitos anos.

A hemodiálise tem a capacidade de filtração igual ao rim humano, dessa forma, uma hora de hemodiálise equivale a uma hora de funcionamento do rim normal.

A diferença entre a diálise e o rim normal é que na diálise realizamos três sessões de pouco mais de quatro horas. Um rim normal trabalha na limpeza do organismo 24 horas por dia, sete dias da semana

Apesar de realizar somente algumas horas semanais de diálise, já está provado que uma pessoa pode viver bem, com boa qualidade de vida e trabalhar sem problemas.

O número de pacientes que fazem diálise peritoneal é da ordem de 2 a 5 % dos renais crônicos e o restante faz hemodiálise. No Brasil, atualmente, existem 35.000 pacientes fazendo hemodiálise e somente 10% são transplantados anualmente, por isso a lista de espera é muito grande.

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