Geral

Desenvolvimento infantil em pauta

O crescimento das crianças deve ser acompanhado e casos de puberdade precoce devem ter acompanhamento
especializado. Pediatra com área de atuação em Endocrinologia Pediátrica explica mais sobre o tema

6 de maio de 2015

Não é incomum ouvir explicações para casos em que crianças tenham um desenvolvimento precoce. Elas variam de genética a alimentos que aumentem a produção hormonal.

Independente da explicação, é importante frisar que a alimentação tem sim muita relação com o crescimento e, por isso, o Jornal de Pomerode conversou com o Dr. Jean Carlos Sievert, Pediatra com Área de Atuação em Endocrinologia Pediátrica.

Dr. Jean explica que a alimentação saudável é de suma importância, principalmente para crianças. “Para a criança, indivíduo em constante modificação, a alimentação tem ainda maior significado, pois além de manter a vida, garante substratos para o crescimento e aquisição de novas habilidades. As diversas etapas do desenvolvimento da criança, dependentes da integridade do sistema nervoso e dos estímulos ambientais, requerem uma alimentação adequada. Além de permitir um crescimento e desenvolvimento adequados, é por meio de uma alimentação saudável que podemos prevenir doenças ligadas a escassez de nutrientes (desnutrição) ou aquelas causadas pelo excesso de nutrientes (obesidade). Também não podemos esquecer da prevenção nutricional das doenças degenerativas que irão aparecer na vida adulta, como as doenças cardiovasculares (infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral, hipertensão arterial sistêmica), diabetes melito, osteoporose e até mesmo alguns tipos de câncer (como o câncer de cólon/intestino grosso), dentre outras”, esclarece.

E então outra questão surge. O que pode ser considerado ideal quando o assunto é alimentação? “É indiscutível o papel do aleitamento materno nos primeiros meses de vida. O leite humano, por suas características, é considerado um alimento “vivo”, que desempenha além da função nutritiva, papéis de proteção, imunomodulação (regulando o sistema imunológico e reforçando as defesas naturais do organismo) e prevenção de doenças degenerativas do adulto. O leite materno garante a totalidade das necessidades nutricionais das crianças até os seis meses de vida. A partir de então, o aleitamento materno deve ser complementado com alimentos (as famosas “papinhas”, evoluindo gradativamente para a “comida da família”) que garantam as necessidades nutricionais, conforme a faixa etária, até os 2 anos de idade. Após o segundo ano, a orientação dietética pode ser realizada conforme a pirâmide nutricional, sempre adequando-a a idade, sexo e nível de atividade física da criança. Basicamente, podemos agrupar os alimentos em três grandes grupos, os quais devem fazer parte do cardápio da criança de forma equilibrada com alimentos construtores: (fontes de proteínas) carnes, leite, ovos, leguminosas (feijão, lentilha, grão-de-bico, vagem); alimentos energéticos: (fontes de carboidratos) açúcar, farinhas, cereais, mel, raízes e tubérculos; (fontes de lipídios) produtos de origem animal e óleos vegetais, ricos em gordura; alimentos reguladores: (fontes de vitaminas e sais minerais) frutas e verduras /vegetais”, frisa Dr. Jean.

Há ainda a questão, muito mais falada do que comprovada, de que alguns alimentos possam antecipar a questão hormonal tanto em meninas, quanto em meninos. “Existem substâncias presentes no meio ambiente que têm ação sobre o sistema endócrino e que podem desequilibrar este sistema, causando doenças. Essas substâncias são chamadas de desreguladores endócrinos e podem ser de origem sintética ou natural. Faz parte do grupo dos desreguladores endócrinos de origem natural, os fitoestrógenos, que são hormônios naturais encontrados em algumas plantas e que podem imitar os efeitos do hormônio feminino. Dentre os fitoestrógenos, as isoflavonas são encontradas em legumes e especialmente na soja e produtos derivados. Há relatos de precocidade sexual em meninas e meninos, bem como de telarca precoce (que é o aparecimento do botão mamário na menina) associado ao consumo excessivo de fitoestrógenos, contudo mais estudos ainda são necessários para se estabelecer a dose e o tempo de exposição a estas substâncias, bem como a sensibilidade individual de cada organismo. Vale aqui o bom senso: tudo que é consumido em excesso pode ser prejudicial. O uso de fórmulas lácteas à base de soja, quando necessário, sempre deve ser orientado e acompanhado pelo médico e/ou nutricionista”, revela.

Os fitoestrógenos são substâncias ambientais naturais (produzidas pelas plantas), que apresentam uma estrutura química diferente dos estrógenos, mas que atuam da mesma maneira. São encontrados principalmente em leguminosas como: Soja, feijões, grãos e brotos. Já as isoflavonas são substâncias presentes principalmente na soja e seus derivados.

 
E como reconhecer esses sinais de precocidade? “A precocidade sexual é definida para crianças pelo surgimento dos caracteres sexuais secundários antes de uma determinada idade: o aparecimento de pelos pubianos ou do botão mamário antes dos oito anos na menina e o aparecimento de pelos pubianos ou aumento dos testículos antes dos 9 anos no menino.

Faz parte desse processo o surgimento de acne e de odor axilar característico, acompanhados de um aumento na velocidade de crescimento dessa criança. Antes de mais nada, o acompanhamento pediátrico de rotina é fundamental para a detecção precoce de qualquer sinal puberal antecipado. O pediatra é o profissional mais habilitado a conduzir tais casos, sabendo ele quando se deve pedir auxílio do especialista (no caso, um endocrinologista clínico/pediátrico). A telarca precoce idiopática (aparecimento precoce do botão mamário nas meninas, sem causa definida) é um quadro benigno, relativamente comum em bebês do sexo feminino, que muitas vezes não carece do especialista, já que é um quadro que costuma involuir espontaneamente. Já a puberdade precoce “verdadeira”, essa sim, precisa de um acompanhamento mais aprofundado, já que exames complementares para investigação são necessários e, muitas vezes, requer um tratamento específico (cirúrgico ou medicamentoso)”, relata.

E quando os casos são confirmados, é preciso procurar ajuda. “Nos casos de puberdade precoce central idiopática (causa mais comum de puberdade precoce em meninas e menos comum em meninos), ocorre a “ativação” do comando central da hipófise (nossa glândula “mestre”, na base do cérebro) sobre os ovários ou testículos, sem uma causa orgânica definida.

Esses casos são tratados com injeções (intramuscular) mensais ou trimestrais de análogos do GnRH, que nada mais fazem que bloquear esse comando central e interromper a progressão dessa puberdade. Geralmente são utilizados por 2 ou mais anos, até que a criança esteja em idade cronológica compatível para deixar a puberdade evoluir naturalmente. Quero aqui frisar que essa medicação não está indicada para o simples fato de “atrasar” a menstruação numa menina que tem o curso de sua puberdade normal, sem esta estar acelerada ou precoce. O uso inadequado pode limitar o estirão puberal (período em que a criança acelera o crescimento durante a puberdade) e prejudicar a formação de uma massa óssea adequada. Seu uso é seguro e bem indicado nos casos de puberdade precoce central idiopática e casos de puberdade rapidamente progressiva (de evolução muito rápida)”, finaliza.

Dez passos para a alimentação infantil saudável

O Ministério da Saúde/OPAS e a Sociedade Brasileira de Pediatria estabeleceram normas de alimentação para crianças menores de 2 anos:

Passo 1) Dar somente leite materno até os 6 meses, sem oferecer água, chás ou nenhum outro alimento.

Passo 2) A partir dos 6 meses, introduzir de forma lenta e gradual outros alimentos, mantendo o leite materno até os dois anos de idade ou mais.

Passo 3) Após os 6 meses, dar alimentos complementares (cereais, tubérculos, carnes, leguminosas, frutas, legumes), três vezes ao dia se a criança receber leite materno, e cinco vezes ao dia, se não estiver em aleitamento materno.

Passo 4) A alimentação complementar deverá ser oferecida sem rigidez de horários, respeitando-se sempre a vontade da criança.

Passo 5) A alimentação complementar deverá ser espessa desde o início e oferecida com colher; começar com consistência pastosa (papas/purês) e, gradativamente, aumentar a consistência até chegar à alimentação da família.

Passo 6) Oferecer à criança diferentes alimentos ao dia. Uma alimentação variada é uma alimentação colorida.

Passo 7) Estimular o consumo diário de frutas, verduras e legumes nas refeições.

Passo 8) Evitar açúcar, café, enlatados, frituras, refrigerantes, balas, salgadinhos e outras guloseimas nos primeiros anos de vida. Usar sal com moderação.

Passo 9) Cuidar da higiene no preparo e no manuseio dos alimentos; garantir o armazenamento e a conservação adequados.

Passo 10) Estimular a criança doente e convalescente a se alimentar, oferecendo sua alimentação habitual e seus alimentos preferidos, respeitando a sua aceitação.

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