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A luta contra o desamor

O desejo de ser mãe é quase unânime. No entanto, quando esse momento chega alguns medos e angústias são inevitáveis, mas o amor incondicional é inegável, mesmo que o filho seja proveniente de uma surpresa.
Mas o que pode acontecer, e realmente acontece, após o nascimento de uma criança é o que os médicos chamam de depressão pós-parto.

1 de junho de 2015

O desejo de ser mãe é quase unânime. No entanto, quando esse momento chega alguns medos e angústias são inevitáveis, mas o amor incondicional é inegável, mesmo que o filho seja proveniente de uma surpresa.Mas o que pode acontecer, e realmente acontece, após o nascimento de uma criança é o que os médicos chamam de depressão pós-parto. E, nestes casos, o carinho, afeto e amor transformam-se em negligência, abandono e negação. E superar esse momento é uma luta diária e precisa do apoio da família, principalmente.
Para Joice Tatiana Velz Thurow, foram três anos para, enfim, conseguir superar a doença. A gravidez foi planejada e muito aguardada. No entanto, quando Julia tinha seis meses eu não mais podia vê-la, fiz cesárea, não tinha leite, não tinha bico e tudo isso me influenciou a renegá-la, conta Joice.
Todas as dificuldades apontadas por Joice influenciaram em seu diagnóstico, mas um motivo específico a fez entrar para as estatísticas da doença: o fato de sua primeira gravidez não ter resultado no nascimento de um menino. Sempre imaginei ter um menino moreno e com a cara do pai. E quando a Julia nasceu foi totalmente o oposto do que eu aguardava e, com as minhas complicações, dores e sofrimento, o meu sentimento por ela era apenas de negação, afirma.
E desde o dia em que não conseguiu mais pegar Julia no colo, a história da família começou a mudar. Todos os planos, sonhos e anseios do casal transformaram-se em uma luta contra a doença e a favor da vida.
Isso porque não foi apenas uma vez que Joice tentou tirar sua vida e foi impedida pelo marido, Jackson Cristiano Thurow. Eu acordava algumas vezes durante a noite e a via se machucando ao lado da cama. Joice não podia ficar sozinha em casa e muito menos com Julia, explica o marido.
O transtorno bipolar também fez parte da rotina de Joice por muito tempo e a internação e um instituto psiquiátrico, em São José, também foi inevitável. Após várias tentativas de suicídio e, também, a tentativa de matar a filha, essa foi uma solução que encontramos para que ela fosse tratada e melhorasse, afirma Jackson.
E não apenas Joice teve acompanhamento médico durante os três anos da doença. Jackson também procurou uma psicóloga para compreender a doença e, com isso, poder lutar contra ela. Eu não compreendia e achava que era coisa dela. Não fosse a ajuda que eu procurei, teria desistido há muito tempo de Joice. Pensei, inúmeras vezes, em levar a Julia embora e deixar esse barco, revela Jackson.
Tomando oito tipos diferentes de remédios por dia, Joice passava de 18 a 20 horas dormindo, diariamente. Tudo isso era para o bem dela. Para que, acordada, ela não lhe causasse nenhum mal, explica o marido.
O marido, durante esse período, se via sendo pai e mãe. Não foram poucas às vezes as quais eu fui chamado na escola da Julia, pois ela estava chorando. E eu sabia que ela compreendia o que estava acontecendo, que sabia que a mãe não lhe amava, conta Jackson.
A certeza da compreensão de Julia sobre a situação aconteceu dentro do carro, em um passeio, quando a mãe falava sobre o desejo de ter um menino e a filha respondeu: mas eu estou aqui.
Apesar da depressão, após pouco mais de um ano, Joice voltou a trabalhar, pois obteve sinais de melhora. No entanto, tive uma recaída, afirma Joice.
E com a recaída, uma nova luta pela recuperação. E, com ela, o apoio da família, do marido e dos amigos. Nunca julguei quem tinha depressão, mas hoje eu sei que ela existe e deve sim ser tratada como doença. Não é algo que se deseja, mas como não é visível aos olhos das pessoas, ainda há a falsa ideia de que seja uma justificativa para ficar em casa e não trabalhar. Mas isso não existe, é real e precisa de ajuda para recuperar-se, conta Joice.
E essa ajuda veio de diversos lugares. Com especialistas do CAPS de Pomerode, psicólogos, psiquiatras. Com isso, aprendi a ouvir os profissionais e hoje me escuto também. Sei que sou mais forte, ressalta.
A recuperação plena começou a dar sinais em novembro de 2012 quando Joice sentia-se inútil e decidiu lutar com ainda mais afinco contra a doença. E indo para uma consulta em Blumenau eu decidi que era a minha vez de voltar a amar a vida, a família e, claro, minha filha, revela.
E voltar a rotina foi um dos primeiros passos para a recuperação. No dia 02 de abril, Joice voltou a trabalhar e teve a certeza de que, desta vez, a depressão será apenas uma lembrança em sua vida. Eu sempre digo para as pessoas que elas precisam se agarrar em alguma coisa para se recuperar. E, para isso, muitas pessoas me estenderam a mão, ressalta Joice.
Hoje, a pequena Julia, que completa seis anos em agosto, é tudo para Joice. Quando soube que ia ser mãe, jamais pensei que pudesse negar um filho. Hoje a Julia é tudo para mim e tento recuperar o tempo perdido dando o que existe de mais verdadeiro em mim: o amor de mãe, fala.
E se o amor demorou para brotar, hoje ele é evidente. Tão evidente que pai, mãe e filha vivem em uma perfeita sintonia e harmonia, resultado da esperança, busca e luta pela melhora.
Para Joice, os momentos ruins são parte do passado e, a partir de agora, somente o futuro importa. E o agradecimento, com certeza, faz parte dele. Tenho que agradecer, em primeiro lugar, a Deus. Meu marido que foi meu grande apoio, minha família e meus amigos que estavam ao meu lado. Aos médicos, psicólogas e enfermeiras que com dedicação cuidaram de mim. Quero agradecer, do fundo do meu coração, à minha filha que hoje, com quase seis anos, conseguiu me entender e, do jeito dela, me perdoar, finaliza Joice.

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