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Um povo que não se deixa abater

Os olhos puxados, o grande poder de recuperação perante às tragédias, facilidade de desenvolver tecnologias, a inteligência.

1 de junho de 2015

Os olhos puxados, o grande poder de recuperação perante às tragédias, a facilidade de desenvolver tecnologias, a inteligência. Essas características, conhecidas no mundo todo, fazem parte de uma importante nação no mundo: o Japão. Presentes principalmente no sul e sudeste brasileiros, o povo oriental comemorou, no dia 18 de junho, 105 anos de imigração no Brasil. A vinda dos japoneses para cá começou no início do século XX, como um acordo entre o governo japonês e o brasileiro, uma vez que o Japão vivia uma crise, enquanto que o Brasil necessitava de mão de obra para a lavoura do café.
A data é comemorada porque foi o dia em que o primeiro navio chegou ao Brasil com imigrantes japoneses, no Porto de Santos. O navio trouxe 165 famílias que vieram para trabalhar nos cafezais, outros na exploração de borracha na Amazônia ou nas plantações de pimenta no Pará, que eles próprios trouxeram. A maior parte dos japoneses eram camponeses pobres, oriundos das províncias do Sul e do Norte do Japão. Atualmente, o Brasil abriga a maior população japonesa fora do Japão com cerca de 1,5 milhão de pessoas.

Dificuldades – O começo da imigração foi um período difícil, pois os japoneses se depararam com uma cultura totalmente diferente, como a língua, os costumes, a religião, o clima e a alimentação. Estes fatores, aliados ao preconceito tornaram-se barreiras à integração dos nipônicos aqui no Brasil. Muitas famílias tentavam retornar ao país de origem, porém, eram impedidas pelos fazendeiros, que as obrigavam a cumprir o contrato de trabalho, que geralmente era desfavorável aos japoneses. Mesmo assim, eles venceram estes problemas e prosperaram. Embora a ideia inicial da maioria fosse retornar para a terra natal, muitos optaram por fazer a vida em solo brasileiro obtendo grande sucesso.
Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), os japoneses enfrentaram muitos problemas em território brasileiro. O Brasil entrou no conflito ao lado dos aliados, declarando guerra aos países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão). Durante os anos da guerra a imigração de japoneses para o Brasil foi proibida e vários atos do governo brasileiro prejudicaram o povo e seus descendentes. O presidente Getúlio Vargas proibiu o uso da língua japonesa e as manifestações culturais nipônicas foram consideradas atitudes criminosas.
Com o término do conflito, as leis contrárias à imigração japonesa foram canceladas e o fluxo de imigrantes para o Brasil voltou a crescer. Neste período, além das lavouras, muitos japoneses buscavam as grandes cidades para trabalharem na indústria, no comércio e no setor de serviços.

Orgulho – Um dos representantes orientais em nosso município é o cirurgião-dentista Ronaldo Ortiz Fugihara, de 46 anos, que há quase 25 mora em Pomerode. Neto de imigrante japonês por parte de pai, ou seja, sansei, este paulista da cidade de Sabino (SP) diz se sentir orgulhoso em ter como ascendência a cultura nipônica. O povo japonês é um povo extremamente trabalhador, que arregaça as mangas perante às dificuldades. Mesmo com as opressões sofridas em solo brasileiro, os imigrantes conseguiram firmar-se e hoje, conquistaram o seu espaço.
Seu avô, Fugihara Kazumi, veio para o Brasil e estabeleceu-se na cidade de Promissão (SP), quando gerou Shizuo Fugihara, pai de Ronaldo. Mais tarde, eles foi para Sabino, também em São Paulo, onde montou uma marcenaria, pois Fugihara (avô) exercia essa profissão em terras orientais. Mais tarde, a marcenaria virou uma loja de ferragens e, na sequência, de materiais de construção.
Tudo o que minha família conseguiu foi por meio do fruto do trabalho, o que é uma característica do povo japonês, valorizando a cultura da economia. Além disso, valores morais como respeitar e aceitar conselhos dos mais velhos eu procuro passar para os meus filhos, pois sei que são muito importantes para eles, ressalta.
Sentindo na pele – Vivenciar a experiência de viver no Japão não é para qualquer um, ainda mais em se tratando de um descendente nipônico. Por isso, o bombeiro voluntário Ricardo Akira Shoji, de 40 anos, pode se considerar um privilegiado. Nissei, por parte de pai, e sansei, por parte de mãe, ele viveu a experiência de morar em solo japonês, por sete anos.
Eu tinha 19 anos e um amigo, certo dia, me convidou para esta experiência. Como era jovem, resolvi encarar o desafio. Em novembro de 1990, pedi demissão da multinacional onde eu trabalhava e, no dia 05 de janeiro de 1991, já estava embarcando para o outro lado do mundo, relata. Apesar da descendência oriental, Ricardo nunca havia se interessado muito por isso, até o dia em que foi viver no Japão. Foi uma experiência muito proveitosa, pois pude conhecer a cultura dos meus antepassados. Além disso, pude vivenciar coisas que no Brasil não tinha vivido, como terremotos, furacões e um acidente, que me deixou internado por alguns meses. Isso me fez crescer, pois tive que me ‘virar sozinho em uma terra desconhecida, diz, acrescentando que um dos seus objetivos era construir uma casa para sua mãe, o que conseguiu um ano e dois meses depois.
Ricardo conta que naquela época, pelo fato de ser brasileiro, teve que se adaptar aos costumes daquela terra. Não posso falar que não sofri certo preconceito, sim. O povo japonês é muito fechado, assim como os germânicos, eles precisam adquirir a confiança em uma pessoa para que possam aceitá-la. Entretanto, como fui lá para trabalhar e sempre zelei pelos valores corretos, consegui me adaptar e ser aceito.
Vivendo em cidades como Kobe, Nagoia e Guma, o bombeiro voluntário trabalhou com trefilação de aço, montagem de bombas e injetoras de borracha. Sua família é proveniente da região de Kumakoto. Meu avô, Saburo Kuwae, juntamente com minha avó, Tsueko, foram uns dos primeiros imigrantes japoneses no Brasil. Já meu pai, Mario Shoji, possuía dupla nacionalidade. O povo japonês é fantástico, pois eles não se apegam a valores materiais, mas preservam o valor da palavra e do nome da família, que deve ser honrado acima de tudo, ressalta.
Casado e pai de dois filhos, Ricardo conta que sua família tem muita vontade de conhecer o Japão. Inclusive, meu filho que seguir os meus passos e ir viver por lá quando completar 18 anos. Eu apoio e assino embaixo, pois sei que será uma experiência fantástica para ele, assim como foi para mim, finaliza.

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