Ponto a Ponto
por Karol Pinto
Nem os animais foram poupados
Os homens não foram os únicos que sofreram com a enchente. Animaizinhos perdidos, abandonados, ilhados em lama e cercados por água, agonizavam, pediam socorro com seus latidos e gemidos. Uma senhora e sua filha, de Jaraguá do Sul, tiveram parte de sua residência destruída por um desmoronamento, e neste local estava a pequena Mel, uma cachorrinha de apenas dois meses. Por cerca de oito horas, a pincher ficou soterrada entre os escombros. “Quase não acreditei quando o bombeiro a retirou com vida. Nós amamos muito essa cachorrinha”, disse a senhora.
Nada como a pureza de uma criança
Gustavo Henrique Morelli, de nove anos, não admitiu perder seus dois cachorrinhos na enchente. Simba e Pink foram salvos pelo corajoso herói, que pegou um bote para resgatá-los na casa onde mora, que ficou isolada em um dos bairros de Itajaí. Os animais estavam no segundo andar da casa e a rua estava totalmente alagada. Acompanhado por seu pai e avô, Gustavo só sossegou quando estava com seus amigos em seus braços e teve sua atitude reconhecida, após várias lambidas e abanos de rabo.
Atitude medíocre
A população do Vale do Itajaí novamente sentiu as consequências da força da natureza. Casas submersas pelas águas, escolas, delegacias, hospitais, tudo destruído em meio a um mar de lama, de proporções assustadoras. Escutei de uma cliente do Jornal de Pomerode, com a qual conversei rapidamente na recepção, enquanto ela aguardava para ser atendida, algo que me fez refletir bastante. Disse ela: “Não gosto, Karol, quando as pessoas agradecem a Deus por não ter acontecido nada aqui em Pomerode. A dor do próximo não é diferente da minha. Não é pelo fato de estarmos relativamente resguardados desta enchente, que não temos que nos sensibilizar com as pessoas que tudo perderam”. E ela tem razão. Dentro de nós, muitas vezes, existe um universo limitado, que infelizmente reduzimos ao mundo insignificante de nossos interesses mesquinhos. E por falar em mesquinharia, muitos internautas tiveram acesso a um comentário feito por Ygor Leite, no Facebook. Não tenho muitas informações sobre ele e na verdade, nem quero tê-las. Faltam-me palavras para atribuir a um ser tão egoísta e ridículo como esse. Ele comentou: “Bem feito o que está acontecendo em Blumenau. Povo arrogante e metido a besta. Muitos nem se consideram brasileiros. Vão pedir ajuda para a Alemanha ou Itália, talvez eles os ajudem. Se de pender de mim, que os rios sigam subindo”. Após quatro horas da postagem feita por Ygor Leite, mais de 750 pessoas já tinham respondido a ele, que se viu obrigado a apagar seu perfil da rede social. Não consigo entender como uma pessoa pensa desta maneira. É um absurdo. Deve ser uma infelicidade muito grande, ficar feliz com a dor de um povo batalhador, ordeiro, que tira forças sabe-se lá de onde, para se reerguer. Tive a oportunidade de ir à Blumenau na manhã de sábado e pude constatar um verdadeiro cenário de destruição. Famílias inteiras limpando suas casas, tentando salvar o máximo possível. Nas calçadas, o que antes eram móveis, não passavam naquele dia, de entulhos. O que muitos demoraram uma vida inteira para adquirir, com muito suor e trabalho, agora se resumia a ferro velho, a lixo. Documentos e fotografias, lembranças de um passado, perdidas entre escombros. Ao mesmo tempo em que a tristeza imperava no rosto destas pessoas, do outro lado, em pontos de coletas de doações, o suor molhava os rostos dos voluntários, que recebiam centenas de pessoas caridosas, diferentes do vagabundo do Ygor Leite, que comovidas com tanto sofrimento, tentavam amenizar a tragédia através de gestos puros e nobres de solidariedade. Felizmente, Ygor Leite é uma minoria, mas não está sozinho em seus pensamentos levianos. E essa gente egoísta, não merece nosso respeito. E nem a mínima consideração.
E em meio à dor, surge uma nova vida!
Uma mulher deu à luz dentro de um caminhão do Exército no meio de uma estrada alagada, na cidade de Itajaí, na madrugada de sábado. Os bombeiros comunitários de Ilhota não conseguiram ultrapassar a rodovia Jorge Lacerda, devido ao nível de água na pista de rolamento. O bebê, um menino, veio ao mundo logo depois que foi feita a transferência da gestante da viatura dos bombeiros voluntários para o caminhão do exército.
Mercenários picaretas
Teve gente que tirou literalmente proveito da desgraça alheia. Como pode querer se dar bem e lucrar desonestamente em um momento de desespero, de caos social. Alguns comerciantes, principalmente de Blumenau, aumentaram em mais de 50% os valores de galões de água. O PROCON orienta que os consumidores guardem os comprovantes fiscais e que acionem as empresas. Cobrar valores abusivos em situações adversas como esta, é crime. Denuncie.
Concurso de fotografia
Amantes da fotografia – profissionais ou amadores – podem participar do Concurso Fotográfico do Vale Europeu edição 2011. O concurso tem o tema “Turismo na região do Vale Europeu” e abrange as áreas de gastronomia, aventura, natureza, arquitetura, religião, festas, artesanato, folclore e rural.
O mais interessante neste concurso, é que o fotógrafo deve também apreciar os belos passeios pela região: as fotos devem ser feitas nos nove municípios participantes do CIMVI [Consórcio Intermunicipal do Médio Vale do Itajaí], responsável pelo edital.
As inscrições vão até o dia 11 de novembro. A premiação até o quinto lugar é em dinheiro. Quem tiver dúvidas pode consultar a organização, no telefone (47) 3382 6811 ou pelo e-mail consorciotur@cimvi.sc.gov.br. O regulamento está disponível para download no site www.cimvi.sc.gov.br.
Dá série “Eu quero mudar o mundo”
Não conheço pessoalmente Ryan Hreljac, mas gostaria muito de conhecê-lo. Li um pouco sobre ele após receber de um amigo um e-mail que falava de um nobre gesto feito por este homem. Na época da ação, ele só tinha seis anos. Estava na primeira série e escutou sua professora falando sobre o triste destino de crianças que viviam na África empobrecida e devastada por doenças. Profundamente comovido ao saber que algumas até morrem de sede, que não há poços de onde tirar água, e pensar que a ele bastavam alguns passos para que a água saísse da torneira durante horas… Ryan perguntou quanto custaria para levar água a eles. A professora pensou um pouco, e se lembrou de uma organização chamada WaterCan, dedicada ao tema e lhe disse que um pequeno poço poderia custar cerca de 70 dólares. Quando chegou em casa, foi direto a sua mãe Susan e lhe disse que necessitava de 70 dólares para comprar um poço para as crianças africanas. Sua mãe disse-lhe que ele deveria consegui-los e foi-lhe dando tarefas em casa com as quais Ryan ganhava alguns dólares por semana. Finalmente reuniu os 70 dólares e pediu à sua mãe que o acompanhasse à sede da WaterCan para comprar seu poço, para os meninos da África. Quando o atenderam, disseram-lhe que o custo real da perfuração de um poço era de 2.000 dólares. Susan deixou claro que ela não poderia lhe dar 2.000 dólares, por mais que limpasse cristais durante toda a vida, porém Ryan não se rendeu. Prometeu àquele homem que voltaria e o fez. Contagiados por seu entusiasmo, todos se puseram a trabalhar: seus irmãos, vizinhos e amigos. Entre todo o bairro conseguiram reunir 2.000 dólares, trabalhando e fazendo mandados e Ryan voltou triunfante a WaterCan para pedir seu poço. Em janeiro de 1999 foi perfurado um poço em uma vila ao norte de Uganda. A partir daí, começa a lenda. Ryan não parou de arrecadar fundos e de viajar por meio mundo buscando apoios. Quando o poço de Angola estava pronto, o colégio começou uma correspondência com as crianças do colégio que ficava ao lado do poço, na África. Assim Ryan conheceu Akana: um jovem que havia escapado das garras dos exércitos de meninos e que lutava para estudar a cada dia. Ryan sentiu-se cativado por seu novo amigo e pediu a seus pais para ir vê-lo. Com um grande esforço econômico de sua parte, os pais pagaram sua viagem à Uganda e Ryan, em 2000, chegou ao povoado onde havia sido perfurado seu poço. Centenas de meninos dos arredores formavam um corredor e gritavam seu nome. – Sabem meu nome? – Ryan perguntou a seu guia. – Todo mundo que vive 100 quilômetros ao redor sabe, ele respondeu. Hoje em dia, Ryan – com 20 anos- tem sua própria fundação e conseguiu levar mais de 400 poços à África. Encarrega-se também de proporcionar educação e de ensinar aos nativos a cuidar dos poços e da água. Recolhe doações de todo o mundo e estuda para ser engenheiro hidráulico. Ryan tem-se empenhado em acabar com a sede na África.
Pense nisso! A fraternidade não conhece fronteiras e o amor desconhece limites. Que tenhamos com o próximo atingido pelas enchentes, um pouquinho da nobreza de Ryan. Quem imaginaria que um menino de seis anos poderia fazer tanto? Alguém consegue imaginar o que então, juntos, podemos fazer?