Pessoas e atletas especiais campeões da vida
Entre bolas coloridas, o preto e branco do preconceito perdeu espaço para a força de vontade e determinação dos atletas especiais
O Ginásio Ralf Knaesel, localizado no Pavilhão de Eventos da Festa Pomerana, se encheu de vida, de luz, de determinação, de garra e principalmente, de exemplos de superação. Jovens e adultos, homens e mulheres, portadores de deficiências físicas ou intelectuais, atletas e verdadeiros campeões. No dia 28/07, quinta-feira, o 2º Festival de Bocha Paraolímpica de Pomerode, acabou sendo um pouco ofuscado pelas milhares de pessoas que circulavam no complexo municipal para prestigiar a tradicional Festa do Colono, contudo, quem prestigiou os jogos não se arrependeu, pelo contrário, saiu de lá tendo desfrutado de uma verdadeira lição de vida e após testemunhar cenas que ficam guardas na memória e no coração de cada um que lá esteve, seja por horas ou por apenas alguns minutos.
Com seu uniforme azul e branco, em sua cadeira de rodas, com um largo sorriso no rosto, o único representante do município na competição, Charles Fehrmann, aluno da APAE de Pomerode, parecia que recepcionava com toda sua simpatia o público que chegava. Questionado pela equipe de redação do Jornal de Pomerode se já havia jogado e se tinha ganhado a partida, ele respondeu: “Joguei, mas hoje não ganhei. Mas tudo certo, não é sempre que se ganha. Quem compete tem duas possibilidades, ganhar ou perder. Para um ganhar o outro tem que perder, e hoje eu perdi. Mas tudo bem, na próxima vez vou me esforçar mais ainda”.
A dificuldade com que ele dizia estas palavras e comentava que as aulas retornariam na próxima semana e que ele havia visto na edição anterior uma foto sua no jornal, dava-se em decorrência de sua deficiência física. Porém, para quem se dispõe a escutar com atenção, com o coração e mente abertos, o diálogo acaba fluindo com toda naturalidade, e se descobre atrás de um corpo físico totalmente limitado, uma pessoa extremamente inteligente, maravilhosamente linda, com um coração do tamanho do mundo.
Charles teve a oportunidade de interagir com 27 atletas paradesportivos dos municípios de São José, Itajaí, Joinville, Timbó e Balneário Camboriú. Os atletas estavam acompanhados por seus técnicos e familiares, formando um grupo de 80 pessoas envolvidas diretamente no Festival.
Voluntários de causas nobres
Outro fato que chamou a atenção e que foi enaltecido por Selvino Anderson Júnior, Gerente de Esportes da FUNPEEL, é que todos os árbitros responsáveis pelo comando das partidas trabalharam voluntariamente, tendo inclusive vindo de outras regiões, somando ao grupo de profissionais de educação física da rede municipal de educação. “Podes ver que, quando um dos atletas quer analisar mais de perto como está a partida, o próprio árbitro o leva, em sua cadeira de rodas, próximo às bolas. O trabalho por eles desenvolvido é maravilhoso. Quem se envolve com estes atletas não consegue ser indiferente e auxilia sempre que necessário, em eventos como o caso do Festival”.
O presidente da Fundação Promotora de Eventos, Esportes e Lazer, Arlindo Ewald, complementa dizendo que embora a FUNPEEL não tenha coordenado diretamente o Festival, é impossível não se dedicar e participar da organização do mesmo. “Conhecemos cada um destes atletas e interagimos com eles em competições regionais e estaduais. Eles são cativantes e contagiam todos que estão próximos a eles. Gostaria que todas as pessoas que reclamam da vida, que se sentem inferiores aos demais, que parem para analisar, que percebam que existem várias pessoas com deficiências muito mais complexas e que são alegres, cheias de vida”.
Para André, o limite é o mundo
Cada um dos atletas possui uma história de vida marcada por vários obstáculos, mas, principalmente, por muita força de vontade e superação. Uma destas pessoas é o adolescente de 14 anos, André de Moura Uhlmann, de Balneário Camboriú, que estava acompanhado por sua grande amiga e mãe, Débora, que orgulhosa acompanhava a entrevista concedida por seu filho. “Estou há um ano e meio jogando bocha. Tentei praticar o atletismo, mas não deu muito certo, não tive uma boa adaptação. Já participei de várias competições e me saí muito bem em todas elas. Já fui medalha de ouro e de prata nos Jogos Paraescolares. Poderia participar de um Mundial, que será na Colômbia, mas não tenho condições financeiras para ir. Teria que pagar mais de R$ 3 mil e ainda todos os custos adicionais, pois esse valor só cobre passagem e a hospedagem”, explica, com um notório descontentamento em seu rosto.
André foi entrevistado poucos minutos antes de iniciar a partida em que ele competiria. Perguntamos a ele quais eram suas perspectivas e ele respondeu: “Não importa ganhar, o importante não é o resultado. Claro que não gosto de perder e encaro qualquer competição com muita dedicação e empenho, mas se perder, paciência”.
O adolescente está cursando o 9º ano e se formará no final de 2011. Engana-se aquele que pensa que ele ainda não sabe o que quer para o seu futuro, que não tem sonhos. André quer cursar a Escola Técnica e se especializar no setor de Hotelaria. “Tenho vários amigos na minha escola e todos eles me ajudam muito nas minhas atividades”.
Como lição por participar destas competições André acredita que todos eles acabem fazendo no final de integrações como esta uma reflexão. “Fico pensando como é a rotina destas pessoas. Penso se suas vidas são difíceis, se elas convivem com pessoas maravilhosas e queridas como eu, que sempre me ajudam, que me fazem superar todas as minhas limitações”.
Adrenalina e diversão: tudo em uma cadeira de rodas
Sabe aquelas pessoas que demonstram quem são pelo seu rosto? Que têm em seu semblante todos os traços de quem apronta? Assim é Gabriel Rodrigues, de 12 anos, também de Balneário Camboriú, amigo de André. Com o sorriso sempre no rosto, ele se diverte em sua cadeira de rodas motorizada, acompanhado de perto por seus pais. “Eu treino junto com o André, mas ele sempre me ganha, é melhor que eu. Mas tem que ver que faz só seis meses que eu estou jogando bocha. Participei do PARAJASC desse ano e fiquei em segundo lugar. Adivinha quem ficou em primeiro? O André”, diz aos risos Gabriel, que demonstra ser grande fã e apoiador de seu amigo.
Gabriel conta que eles adoram jogar videogame e ficar no computador. Na escola, diz que tem vários amigos e, às gargalhadas, conta que foge em sua cadeira motorizada para o pátio da escola. “Mas eu não vou sozinho não. Levo dois amigos comigo na cadeira, um na frente e outro atrás. Ela tem o turbo e eu deixo sempre na velocidade máxima. Às vezes levamos uns tombos maneiros, é bem divertido”.
A paixão pela velocidade não para por aí. Gabriel ganhou de seu pai uma espécie de motocicleta motorizada, adaptada para ele. “É a minha paixão. Meu pai fica sempre comigo quando estou andando, principalmente para que eu não corra muito”.
Gabriel conta que também pratica a natação e que não tem nada que ele deixe de fazer por ter necessidades especiais. “Posso não conseguir na primeira, na segunda, na décima vez. Mas nós não somos burros, somos espertos, sabemos como agir, o que é mais fácil. De uma forma ou de outra tudo o que realmente queremos fazer acabamos conseguindo. Indiferente do que temos diagnosticado, da nossa patologia, somos importantes para a sociedade”.
Do Jornal de Pomerode para os jornais de Pequim
Jogando só há dois meses, Luan Patrick Kannenberg disse no início da entrevista: “Hoje eu estou aqui dando a entrevista para vocês. Amanhã, não se espantem se vocês me virem em Pequim, representando o Brasil, com minha foto lá nos jornais”.
Pose de campeão, fisionomia de campeão e toda a simpatia de um grande nome do esporte mundial Luan já tem. O atleta foi apresentado pelo presidente da FUNPEEL à vice-prefeita Gladys Sievert e contou que tem como meta participar da próxima paraolimpíada em Londres, fazendo uma pequena confusão com a edição passada, realizada em Pequim.
Ele está no 5º ano e mora na cidade vizinha de Timbó. Adora as disciplinas de educação artística e educação física, mas concorda com a equipe de redação do Jornal de Pomerode que matemática já é mais complicado. “É verdade, não sou muito fã de matemática, me perco um pouco nos números, mas quando o papo é videogame e computador, aí mando muito bem”.
Acompanhado por sua mãe e professora e sendo fotografado enquanto concedia a entrevista, Luan aconselha: “Nunca devemos desistir de nossos sonhos, por mais impossíveis que eles possam parecer. Temos sempre que ir em busca daquilo que queremos que se concretize”.
Divisão e classificação
A competição foi dividida em quatro categorias. BC1, BC2, BC3 e BC4. O Festival foi organizado pela Associação Pomerodense de Deficientes Físicos – APODEF, em parceria com a Fundação Promotora de Eventos, Esportes e Lazer – FUNPEEL, com apoio da Prefeitura Municipal de Pomerode. O projeto é coordenado pela professora Ilsani Kroenig Baptista.
Os jogadores foram divididos em quatro classes:
• BC1: Tanto para arremessadores CP1 como para jogadores CP2. Atletas podem competir com o auxílio de ajudantes, que devem permanecer fora da área de jogo do atleta. O assistente pode apenas estabilizar ou ajustar a cadeira do jogador e entregar a bola a pedido.
• BC2: Para todos os arremessadores CP2. Os jogadores não podem receber assistência.
• BC3: Para jogadores com deficiências muito severas. Os jogadores usam um dispositivo auxiliar e podem ser ajudados por uma pessoa, que deve permanecer na área de jogo do atleta, mas deve se manter de costas para os juízes e evitar olhar para o jogo.
• BC4: Para jogadores com outras deficiências severas, mas que não podem receber auxílio.
A classificação final nas categorias foi a seguinte:
BC1
1º lugar – Julia Pereira Marcelino, de São José
2º lugar – Hemerson Filipe Pereira, de Itajaí
3º lugar – Silvino Allan Vargas, de Itajaí
BC2
1º lugar – André Ulhmann, de Bal. Camboriú
2º lugar – Nivaldo Jorge da Silva, de Itajaí
3º lugar – Gabriel Rodrigues, de Bal. Camboriú
BC3
1º lugar – Fernando Bittencourt Wolfram, de Itajaí
2º lugar – Paulo Roberto Perão de Lima, de São José
3º lugar – Renato Dolçan, de Joinville
BC4
1º lugar – Carlos E. dos Reis, de Itajaí
2º lugar – Luan Patrick Kannenberg, de Timbó
3º lugar – Felipe Amorim, de São José