Geral

Ponto a Ponto

por Karol Pinto

19 de maio de 2011

Escravatura e greve. Qual a relação?
Roselaine. Foi assim que ela se apresentou formalmente aos alunos da primeira série no primeiro dia de aula. Dona de um sorriso encantador. Sabe aquelas mulheres que quando sorriem irradiam vida no ambiente em que estão? Pois é, assim era ela. Durante um ano jamais foi vista gritando. Ela se fazia respeitar naturalmente. Para todos, Roselaine. Para mim, tia Rose.
Vocês devem estar se perguntando de quem estou falando. Respondo. Esta mulher negra foi há 23 anos minha professora, minha alfabetizadora, mas principalmente, alguém que marcou a minha vida, tanto no que diz respeito às coisas boas quanto ruins. Sempre gostei de estudar. No pré, esperava na porta de minha casa a topique passar. Ia sozinha para escola, sem choro, sem drama. Com minha mochila amarela nas costas, presilha no cabelo e uma grande ansiedade para saber logo o que aprenderia naquele dia. Cresci e mesmo que tenha sido apenas um ano, já me sentia mais madura e preparada para a tão sonhada primeira série.
Mudamos de cidade ainda nas férias e após nos estabelecermos em uma nova casa, chegou a hora de escolher a escola e fazer a matrícula. Foi então que Deus e o destino conspiraram ao meu favor e me colocaram nas mãos da tia Rose. Minha mãe negociava a parte burocrática, apresentava a documentação necessária e quase morria do coração com os preços tabelados abusivamente na planilha de uma tradicional escola particular de Pelotas, construída em pilares religiosos. Tudo acertado.
Eu estava nervosa para que minha mãe lesse o que dizia na lista de materiais, sonhava com o estojo novo, lápis de cor e canetinha, preferencialmente de 36 cores. Minha mãe morria um pouco mais, pensando como pagaria aquela fortuna. As épocas não eram as melhores. Antes de nos levantarmos, a senhora que nos atendia disse em um tom de cochicho, quase como se estivesse contando uma fofoca, segurando o braço de minha mãe: “Só tem um pequeno probleminha mãe. Se a senhora se importar podemos colocar sua filha em outra turma, é que a professora que dará aula a ela é escurinha”. Eu não entendi muito bem o que ela queria dizer, mas minha mãe sim. Dentro de sua simplicidade e timidez, que se diga de passagem eu em nada herdei, respondeu sem titubear: “Quando a senhora diz escurinha quer dizer negra, não é verdade? Não tenho problema algum com o fato da professora de minha filha ser negra. Teria sim, se ela fosse preconceituosa”.
E foi assim que tia Rose entrou na minha vida. Vocês devem estar se perguntando qual a razão que me fez compartilhar esta história tão pessoal nesta coluna, com vocês leitores. Então, respondo. Foi ela e aquela senhora que atendeu a minha mãe, que me deram a primeira aula sobre racismo, sobre preconceito, sobre a importância da cor da pele e quando a mesma pode representar um problema para o contratante, seja um diretor, um comerciante, um empresário.
Não lembro o nome das minhas outras professoras. Nem da segunda série, nem da terceira, nem da quarta, e assim sucessivamente. Lembro-me de alguns outros professores, isoladamente, mas que igualmente significaram muito para mim.
Aprendi na escola, com estes professores, que Princesa Isabel assinou a Lei Áurea em 13 de maio de 1888. Aprendi que preconceito é crime. Aprendi que todos são iguais perante a lei. Aprendi o quão importante é a figura de um professor, o quão significativos são seus ensinamentos, façam parte da grade curricular ou os que são baseados em seus valores e princípios.
Comentei aqui neste espaço a imagem da tia Rose por dois motivos. Primeiro, por termos comemorado no dia 13 de maio 123 anos da libertação dos escravos, em sua grande maioria, quase que totalitária negra. Falei também sobre este assunto, pois fomos procurados no jornal por um grupo de professores da rede estadual que aderiu a greve nesta semana. Conversamos com eles por quase uma hora e fomos bombardeados com informações que às vezes a sociedade desconhece e que são absurdas.
Um professor passa quatro anos em uma universidade, depois busca especialização, alguns chegam a receber o título de mestres. Tem em seu sangue a vontade de lecionar. A missão de suas vidas é formar cidadãos de bem. Trabalham o dia todo e em casa, durante a noite, pensam na aula do dia seguinte, corrigem provas, leem, buscam novas dinâmicas de ensino. Passado um mês, quando chega o contracheque, não desmerecendo nenhuma profissão, recebem consideravelmente menos do que muitos trabalhadores semianalfabetos, que cursaram somente os primeiros anos do Ensino Fundamental.
Concordo com estes professores quando é feita uma manifestação pública para que exponham suas necessidades, suas reivindicações e assim, façam a população pensar a respeito. Concordo quando eles dizem que se não fosse a mobilização de APP’s, de Grêmios Estudantis e de segmentos sociais, a própria estrutura das escolas seria muito mais precária do que atualmente é. Concordo plenamente quando eles relatam que o salário pago aos professores catarinenses é um dos mais baixos do Brasil, enquanto que, ao mesmo tempo, de forma contraditória, Santa Catarina é um dos primeiros estados em arrecadação. Aplaudo quando eles questionam a forma atual de avaliação dos alunos, dizendo que hoje os mesmos passam por média imposta pela estrutura e não por mérito como outrora. E me entristeço quando tomo conhecimento que Pomerode já enfrenta a falta de professores qualificados ou não para compor o quatro de funcionários do estado e que quando os alunos não tem aula de determinada matéria, por não ter funcionário na escola, são liberados para o pátio ou para casa, ficando soltos e ociosos, totalmente a mercê de práticas e condutas duvidosas.
Enfim, somente concluindo o motivo que me levou a falar paralelamente sobre estes dois assuntos, gostaria de pedir que nenhum, repito, nenhum cidadão em pleno juízo mental, afirme que não existe mais racismo em nossa Pátria e que os professores são uma cambada de vagabundos por estarem em greve. Coloque-se primeiramente no pele de um negro que nos dias de hoje ainda é vítima do preconceito racial, seja por perder uma vaga de trabalho no momento em que concorre com alguém igualmente qualificado, mas que acaba sendo escolhido sem aparente explicação. Coloque-se no lugar de um professor que buscando aperfeiçoar-se se matricula em uma pós-graduação e gasta mais por mês em mensalidade, livros, lanche e transporte do que recebe do Estado para lecionar 40h por semana e formar nossas crianças. Depois de fazermos este exercício mental, ai sim podemos falar no fim de práticas racistas e na malandragem de professores.

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