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Paranauê, paranauê, paraná…

Ao som agitado de berimbau, mais de 200 capoeiristas de todas as idades deram um show no II Campeonato Catarinense de Capoeira, mostrando que esta é uma ginga que merece espaço no Estado.

22 de outubro de 2010

Do mais novo ao mais velho, a empolgação que toma conta de uma roda de capoeira é singular. Seja uma disputa em conjunto, dupla ou individual, o amor pelo esporte é transparente. Isso pode-se perceber no II Campeonato Catarinense de Capoeira, que ocorreu no Ginásio Gabriel Colares, em Itajaí, no mês de agosto. Reunindo grupos de todo o Estado, esta foi uma etapa classificatória para o Campeonato Brasileiro, que ocorreu em setembro, em Campo Grande (MS).

O diretor técnico e de arbitragem da Federação Catarinense de Capoeira, Paulo Ricardo Damasceno Leal, conhecido como Instrutor Dourado, explica que em se tratando de capoeira desportiva, a competição não gira em torno de pontos corridos. ?Os árbitros fazem uma avaliação global de certos quesitos, como técnica, postura, uniforme, formação de bateria, tradição, harmonia, volume de jogo e número de atletas?, explica.

Dourado também complementa que a regra é única nas competições. ?Sabemos que cada entidade participante tem tradições e costumes diferentes, mas quando se trata de campeonatos, todos seguem uma regra padrão?, comenta.

As categorias participantes foram conjunto, com dez a 15 atletas por equipe, dupla e individual, onde foram apresentados os principais estilos da capoeira, que são o angolano e o regional.

Apesar de seguirem a mesma filosofia, possuem peculiaridades e maneiras diferentes de jogar. As principais características do estilo angolano são: ritmo musical lento, golpes jogados mais baixos (próximos ao solo) e muita malícia. Já o regional caracteriza-se pela mistura da malícia da capoeira angolana com o jogo rápido de movimentos, ao som do berimbau.

 

Lazer, cultura, esporte

Surgindo como arte marcial disfarçada de dança, a capoeira assume diversos papéis: a competição, o lazer, além de ser um traço forte na cultura brasileira. ?A capoeira permite que você jogue, se divirta, sem ser vencido ou vencedor. Isso também é observado nos campeonatos, onde se preserva a integridade do atleta, sem contato físico e moral?, explica Instrutor Dourado.

Reforçar a autoestima é um dos atributos da modalidade. ?Há uma sociabilização natural durante o jogo, onde todos tocam, cantam, dançam e dependem uns dos outros. E assim, o aluno descobre o potencial e a força que possui, além de poder extravazar toda sua criatividade?, comenta.

Independente de regras desportivas, preservar certas tradições é um traço inabalável. Ao contrário de outras lutas, na capoeira não se usam faixas, mas cordas, pois com elas que os escravos eram amarrados no tronco. Outra tradição preservada é jogar descalço, caracterizando mais uma vez a forma como andavam os escravos no Brasil.
O que se percebe é que a paixão começa desde cedo.

Para Humberto Duwe Júnior, o Mestre Júnior, que há 19 anos preside a Associação Bimbas do Sul, em Balneário Camboriú, isso se deve ao trabalho realizado nas escolas. ?Tempos atrás, a capoeira era marginalizada e sofria muito preconceito. Com a evolução da qualidade de ensino, o esporte foi inserido na educação e isso faz com que as crianças descubram a importância da capoeira?, explica.

Mestre Júnior desenvolve um trabalho em parceria com a Prefeitura Municipal de Balneário Camboriú, no Projeto Oficinas, onde ministra noções básicas de capoeira há 13 anos para uma média de 80 alunos. A Associação também conta com professor que ministra aulas no CIEP para 300 alunos.

A faixa etária com maior número de participantes é de sete a 14 anos. Para ele, um dos principais benefícios que o esporte traz é a disciplina. ?Há um grau de respeito pelos mestres e também de amizade com os colegas, porque você não joga contra alguém, mas com alguém?, ressalta.

Carol, de oito anos, começou a praticar o esporte no Projeto Oficinas e hoje já participa de competições representando o Bimbas do Sul. Ela diz que recebeu incentivo da avó para praticar o esporte e não pretende largar tão cedo. ?Eu gosto de tudo, não penso em fazer outra coisa, nem balé. Meu pai e minha mãe dão apoio?, comenta.

Carol aproveitou para mostrar que o mais difícil de aprender foram movimentos como macaquinho e parafuso. ?Estou treinando há bastante tempo, porque é difícil?, explica.


Capoeira nas Olimpíadas

Uma possível novidade para as próximas Olimpíadas, em 2012, é a inclusão da capoeira desportiva. O presidente da Federação Catarinense de Capoeira (Fecaesc), Gian Carlos Rios dos Santos, explica que o Comitê Olímpico Internacional considera atualmente como um esporte em observação por dois anos, até 2011. ?Este é o período em que os dirigentes terão que fazer uma série de adaptações a algumas regras de competições olímpicas?, explica.

Segundo Santos, a capoeira se faz presente em 40 países além do Brasil, o que desmistifica a ideia que esta é uma cultura exclusivamente brasileira. ?O estrangeiro ainda valoriza mais do que o próprio povo brasileiro?, lamenta o presidente.

Caso consiga chegar ao patamar de esporte olímpico, Santos não tem dúvidas da participação de catarinenses. ?Em pouco tempo, mostramos o potencial de atletas do Estado. Se será um grande número ou não, ainda é cedo para falar. Mas os atletas só poderão chegar a uma Olimpíada através das Federações, então é importante unirmos forças nesse sentido?, ressalta.

Para o árbitro internacional e membro do Conselho Superior de Mestres, que também faz parte dos calendários da Confederação Brasileira de Capoeira (CBC) e da Federação Internacional de Capoeira (Fica), Gideoni Silveira, a capoeira já deveria estar nos Jogos Olímpicos. ?Parte disso também se deve aos capoeiristas, pois todos deveriam lutar por esse objetivo comum?, ressalta.

Mesmo com este desafio, Mestre Silveira está confiante e acredita que a inclusão da capoeira nas Olimpíadas não tardará a acontecer. ?Existem dezenas de pessoas que acreditam nesse sonho e eu sou um deles.

Estamos lutando desde 1992 para que, em todas as esferas, desde organização até federações internacionais, cheguem a um padrão comum para finalmente apresentar ao Comitê Olímpico Internacional, que felizmente nos observa. Em toda sua história, a capoeira superou todos os obstáculos e acredito que vencerá mais este?, comenta.

 

Desafios da jovem Fecaesc

E se tratando de organização, o movimento de capoeira no Estado é recente. A Federação Catarinense de Capoeira (Fecaesc), que encabeçou a segunda edição do campeonato, surgiu há dois anos com um único objetivo: unir forças em prol da capoeira no Estado. O presidente, Gian Carlos Rios dos Santos, afirma que o surgimento da Federação veio em decorrência dos atletas catarinenses competirem por outros Estados, como Paraná. ?Os próprios dirigentes nacionais, vendo o nível dos atletas, incentivaram que Santa Catarina tivesse uma organização, a exemplo de outros Estados?, comenta.

Desde 1998, quando a última organização foi destituída, Santa Catarina não conta com um órgão representante da categoria. E como todo início, nada foi fácil. ?Conseguimos reunir com esforço cerca de cinco grupos, onde realizamos assembleias e reuniões para estruturar a federação. Porém, ainda sofremos resistências por parte de alguns capoeiristas, por acharem que essa estrutura beneficiará determinados grupos. Então estamos buscando quebrar este paradigma e mostrar que trabalhamos exclusivamente em prol da capoeira?, ressalta.

Na visão de Santos, a falta de organização da categoria resultou num ?atraso? em relação aos outros Estados na capoeira desportiva. ?Também sou árbitro e percebo em competições, o nível de atletas de outros Estados, como Paraná, que para mim, é uma referência?, comenta.

Afim de recuperar o tempo perdido, a Fecaesc está buscando novas iniciativas afim de aprimorar profissionais e atletas. Uma das próximas metas é realizar um curso de primeiros socorros para os instrutores. O presidente explica que todos os docentes de capoeira registrados na federação precisam ter um curso de tal especialidade.

?Entramos em contato com profissionais da Cruz Vermelha, para que assim nossos docentes fossem certificados internacionalmente?, comenta.

Santos também ressalta a importância desse procedimento. ?Trabalhamos com a parte física do aluno, e é fundamental ter esse embasamento em qualquer adversidade?, explica.

Os planos futuros também envolvem os atletas. ?Queremos organizar cursos de arbitragem em que os atletas também possam participar, pois é importante que eles saibam e entendam todo o funcionamento desse processo?, explica.

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