Um amor que supera dificuldades
Disciplina, companheirismo, perseverança. Palavras que resumem a equipe de bicicross de Balneário Camboriú que, em pouco mais de três anos, conseguiu a liderança no ranking brasileiro e estadual.
A tarde estava perfeita em Balneário Camboriú. Céu azul, sem chuva, pista seca. Olhando ao redor, o grupo logo se prepara. Hora de colocar uniforme, capacete, luva, verificar o equipamento. Ninguém nega a ansiedade de começar a treinar. Tudo isso, fruto de uma paixão que os 16 pilotos, entre sete e 31 anos, nutrem pelo bicicross. Paixão essa que rende para a equipe de Balneário Camboriú, a liderança do ranking brasileiro em 2010. O resultado foi obtido durante o mês de maio, quando nove pilotos foram a Minas Gerais disputar a terceira e quarta etapas do Brasileiro.
O técnico Márcio Eleutério mora há quatro anos em Balneário Camboriú e treina o atual grupo há três. Inicialmente, todos eram adversários, mas a ideia de se unir veio de um único propósito: superar as dificuldades. “Percebia que alguns pilotos enfrentavam dificuldades, desde o pagamento para inscrições do campeonato até alimentação. E foi assim que propus que a gente se unisse e montasse um clube para ir atrás de patrocínio,” conta Márcio.
A união está dando ótimos resultados. Além da liderança do Brasileiro, a equipe também é líder estadual.
Disciplina na pista e na escola
A modalidade não é tão simples quanto parece. Os treinos duram, em média, três a quatro horas e desde que não chova, são realizados diariamente. Próximos aos campeonatos, que geralmente ocorrem nos finais de semana, o técnico adota o sistema de intensificar até quinta-feira, para que na sexta ocorra um treino leve, evitando o desgaste. A maioria dos integrantes mora em localidades próximas, como bairro Vila Real e Municípios. Dois deles são de Rio do Sul, mas disputam por Balneário Camboriú.
É preciso ter vontade de aprender. “A partir do momento que entra na pista, precisa levar a atividade a sério, com profissionalismo, seriedade e disciplina, que são cobrados desde os mais novos”, comenta o técnico.
Porém, não basta dar um show na pista, mas, principalmente, dentro da sala de aula. “Com o bicicross ainda não é possível tirar o próprio sustento. Por isso, eu cobro bastante o rendimento escolar de cada um, fazendo um acompanhamento, porque é a formação que garantirá o futuro deles. Um depende do outro”, explica.
E qual a manobra mais difícil? O limite, que foi conquistado com muita amizade e companheirismo. “Procuro regrá-los com bastante educação, e isso não foi um processo fácil. Cobro muito respeito um do outro, horários, até porque temos os alunos menores que se espelham nos mais velhos, o que faz aumentar a responsabilidade. Os pais sabem o quanto é difícil dar limites, mas hoje sou respeitado por todos no grupo”, orgulha-se Márcio.
Superando dificuldades
Desde 2009, a equipe conta com o apoio da Prefeitura Municipal, mas ainda assim há muitas barreiras a serem enfrentadas. E a financeira é a principal delas. “O custo das bikes e manutenções são caros e até hoje não conseguimos um patrocínio. Então, estamos nos empenhando em trazer bons resultados, para que isto seja divulgado e sensibilize alguma empresa para nos dar esse suporte”, conta Márcio.
Enquanto o patrocínio não vem, também não dá para parar e o jeito é se virar como pode. Algumas empresas, que conhecem o histórico da equipe, colaboram com a manutenção, como a Bicicletaria Aquarius, de Balneário Camboriú e Bike Mania, de Rio do Sul.
Para o técnico, a falta de apoio do bicicross como um todo vem um único fator: a pouca divulgação do esporte. “É uma modalidade que não chama tanto a atenção e não tem muito espaço na mídia. Mesmo com a Lei de Incentivo à Cultura e Esporte, muitas empresas preferem apoiar modalidades como o futebol, ou aqueles em que a marca aparecerá na televisão. Há pilotos que já podemos considerar em um nível internacional, mas poucos ainda sabem disso”, explica.
No exterior, a situação, segundo ele, é um pouco melhor, pois há mais incentivo para a prática esportiva. “As crianças recebem bolsa de estudos, auxílio na formação para praticarem o esporte. E aí sim, são cobrados resultados, seja representando o país numa Olimpíada ou campeonato.”
Paixão de pai para filha
Márcio, que durante o dia treina a equipe e à noite trabalha como zelador, conta que está no bicicross há 11 anos. “Era um sonho de infância, mas meus pais não tinham condições de comprar os equipamentos. Consegui levar meu cunhado para as pistas e depois que comprei minha bike, comecei a treinar em Rio do Sul e desde então, não parei mais.”
E parece que não é só o pai que nutre amor sob duas rodas. A filha, Júlia Eleutério, de apenas sete anos, está no mesmo caminho. Pequena só na idade e na altura, porque já demonstrou que leva o esporte a sério. E os resultados não negam: tricampeã sul-brasileira e quatro vezes campeã estadual são alguns dos títulos já conquistados.
Júlia, segundo o pai, nasceu dentro da pista. “Desde pequena, ela mostrou interesse, e quando tinha dois anos, pediu para eu montar uma bike para ela. Aprendeu a andar em linha reta na primeira semana, e logo, já estava correndo, não parando mais.”
Mesmo apresentando bons resultados, a escola é a prioridade número um: “Cobramos o estudo e, muitas vezes, temos que brigar para ela sair da pista porque tem hora para entrar, mas não quer ter hora para sair. Priorizamos também a liberdade para que ela brinque e se divirta, pois é uma criança, acima de tudo”, ressalta.
A equipe de reportagem da Blitz Esportiva esperou a pequena terminar a sua volta na pista para conversar com ela. Tímida, nos falou simplesmente que ama a sua bike e que não quer fazer outra coisa.
Longe das pistas: jamais
Mas algo é incontestável: os atletas que se identificam com a modalidade não conseguem mais largar dela. Luiz Alfredo Lima Sobrinho, 22 anos, é mecânico e define o bicicross em uma única palavra: amor.
“Nenhum outro esporte faz minha cabeça como o bicicross. Assisti a uma corrida há 12 anos e depois disso, comecei a treinar, levei a sério e não larguei mais.”
Luiz conta que uma das coisas mais difíceis na prática da modalidade é a questão da força, pois exige muito do atleta. E lamenta a falta de patrocínio para a modalidade. “Tirando isso, o atleta precisa ter apenas uma cabeça boa e levar o esporte a sério”, conta.
A adolescente Caroline Finardi Coelho, 15 anos, é de Rio do Sul e, no dia da reportagem, estava treinando em Balneário. Ela treina já faz quatro anos e também começou a ter interesse depois que assistiu a uma corrida em Rio do Sul. E a afinidade foi única. “Por um tempo até treinei futebol, mas não cheguei a gostar da forma como gostei do bicicross. Hoje não me vejo longe das pistas”, comenta.
Para aqueles que têm interesse em participar dos treinos, basta comparecer à pista municipal, localizada no fim da Rua Angelina, no bairro dos Municípios, com sua bike, capacete e acessórios. “Estamos sempre abertos a ajudar à comunidade. Os pilotos que têm mais experiência estão aqui para dar todo o apoio aos que querem iniciar na modalidade”, finaliza Márcio.