Volei sentado: a nova aposta do paradesporto catarinense
Semelhante aos fundamentos do vôlei convencional, a modalidade já é sucesso no Brasil e no mundo, e agora chega a Santa Catarina.
O paradesporto atravessa fronteiras e não é de agora. A cada dia, novas modalidades se destacam e fazem sua história, trazendo consigo atletas que viram referência e exemplo de dinamismo e persistência. Investir e aprimorar o que já existe é de suma importância, mas buscar o novo é um desafio ainda maior. Arremessar numa partida de handebol, fazer uma cesta no basquete, utilizar técnicas certeiras na bocha e no atletismo não são um bicho de sete cabeças para a grande maioria dos paratletas. Agora, quem imaginou realizar um saque, fazer um passe com uma manchete ou um bloqueio no adversário? O vôlei sentado quebra mais uma barreira, se transformando em nova possibilidade de superação para deficientes. A modalidade mistura o vôlei convencional e o Sitzbal, esporte alemão que não tem rede e é praticado por pessoas com dificuldades para se locomover e que, por isso, jogam sentadas.
O esporte está em ascensão não só mundialmente. O Brasil, que teve os movimentos precursores da modalidade no final de 2002, saiu de quatro para 12 equipes masculinas e três femininas participantes no último Campeonato Brasileiro.
Santa Catarina, embora tenha sua marca expressiva no paradesporto, ainda tinha o vôlei como uma lacuna. E foi pensando nisso que a Coordenação de Esporte Adaptado da Fundação Municipal de Esportes de Itajaí se empenhou para reunir paratletas da região e realizar a Clínica de Vôlei Sentado, cujo objetivo é formar a primeira equipe da modalidade no Estado.
As primeiras articulações
Segundo o coordenador do Esporte Adaptado Marcos José Tomaz, a ideia surgiu ao acaso. O primeiro contato foi com a Associação Catarinense de Esporte Adaptado (ACESA), onde foi cogitada a possibilidade de trazer a clínica para a região. Uma vez decidido levar adiante, as articulações começaram. “No mês de dezembro, procuramos o Comitê Paraolímpico Brasileiro, e através dele, fomos encaminhados para a Associação Brasileira de Vôlei Paraolímpico (ABVP), que mostrou interesse em realizar uma clínica no Sul,” explica o coordenador.
O segundo passo foi buscar paratletas para conhecer a modalidade e participar da equipe. Assim, iniciaram os contatos com municípios não só da região, mas de todo o Estado.
A Clínica reuniu 35 pessoas, entre professores e paratletas no mês de fevereiro, e foi ministrada pelo ex-jogador da Seleção Brasileira de Voleibol e presidente da ABVP, Amauri Ribeiro. O encontro se dividiu em duas partes. A primeira, de cunho mais teórico, abordou o histórico da modalidade no Brasil e no mundo, os praticantes do esporte e regras, ressaltando posicionamentos e técnicas. A segunda foi mais prática, colocando os participantes em jogo tático. A Revista Blitz Esportiva tentou contato via e-mail e telefone com Amauri, mas devido a compromissos externos, até o fechamento desta edição, não havia retornado.
Atualmente, Tomaz explica que estão se preparando para reunir novamente os paratletas e realizar o primeiro treino, ainda sem data definida. “Nosso objetivo é participar do Campeonato Regional Sul, que tem a previsão de ocorrer entre junho e julho deste ano, no Estado do Paraná.”
Ponto-chave é a locomoção
O vôlei sentado possui aspectos semelhantes ao vôlei convencional. Trabalha-se com os mesmos fundamentos, como saque, recepção, levantamento, ataque, bloqueio e defesa. Possui quatro sets de 25 pontos corridos e o 5º set (tie-break) de 15 pontos corridos. O desafio está diretamente ligado ao deslocamento. Por isso, têm mais facilidade os praticantes amputados de algum dos membros, principalmente inferiores. Também jogam atletas com má formações e sequelas de doenças diversas, como a poliomielite.
Flávio Reitz, 23 anos, que o diga. Amputado de uma perna, se surpreendeu com a própria capacidade de locomoção ao solo. “Eu mesmo não me imaginava com essa facilidade. Durante o jogo, o nosso movimento inclui caminhar com as mãos, se arrastando no chão, e realmente um amputado tem mais agilidade para desenvolver. Se não há tanta desenvoltura de locomoção ao solo, há o risco inclusive de se machucar,” explica.
Paratleta há dois anos e meio, passando por modalidades, como handebol, basquete e atletismo, Flávio foi incentivado por Tomaz a participar da clínica e, até então, não tinha conhecimento da modalidade. Mas acha importante passar por essa nova vivência. “Isso possibilita desenvolver o paradesporto de um modo geral,” complementa.
A professora de Educação Física Marisa Ferreira, 38 anos, também desconhecia o vôlei sentado. Integrante do quadro de atletas do paradesporto de Itajaí também há dois anos e meio, praticando atletismo e handebol, a professora destaca que esta não é uma modalidade das mais fáceis. “É muito técnico, e para aqueles que pouco tiveram contato com o vôlei convencional, a dificuldade com certeza será maior,” comenta.
Mas nesse quesito, Marisa conseguiu tirar de letra. Antes de sofrer uma neuropatia tibial (paralisia do nervo tibial), em 2004, a professora já tinha contato com o vôlei convencional, e isso acabou facilitando a sua dinâmica do jogo. Para ela, o ponto mais complicado foi a locomoção. “Você vê a bola caindo, e tem aquela pressa de se deslocar. Como possuo uma deficiência mínima na perna, isso acaba dificultando um pouco. Você tem todo o peso do corpo pra carregar, então o movimento para chegar até a bola fica mais lento,” comenta.
O paratleta Willian Saulo de Andrade, 17 anos, também teve essa percepção. Treinando há três meses na FME, Willian não pode participar do jogo tático, pois a paralisia súbita sofrida há um ano e meio, não possibilita o equilíbrio na coluna para permanecer sentado. Em virtude disso, participou da primeira parte da clínica, com os conhecimentos teóricos e ficou como expectador do treino. “Dá para perceber que os atletas amputados realmente tiveram uma facilidade de deslocamento, se comparado àqueles que possuem outras deficiências,” ressaltou.
Mesmo, assim, teve a impressão de ser um esporte mais fácil. “Depende apenas da gente. Já outras modalidades requerem um trabalho em equipe, exigindo mais força do atleta”, explica.
Lacunas no paradesporto
A ACESA, de Florianópolis, também enviou representantes para conhecer a modalidade. Para o presidente Roger Lima Scherer, a pouca divulgação do vôlei sentado é uma lacuna que não se restringe apenas à modalidade, mas ao paradesporto em geral. “Nós ainda estamos engatinhando no esporte adaptado, conquistando espaços aos poucos. Mesmo assim, seguimos na busca em capacitar professores e incluir uma semente para despertar uma vontade futura da prática desportiva,” explica.
As dificuldades podem ser superadas, desde que se invista em capacitação, divulgação e conscientização. “Isso precisa acontecer não apenas entre os praticantes, mas entre os profissionais de Educação Física escolar, que, muitas vezes, excluem os alunos com deficiência, que necessitam de estímulo e incentivo,” explica.
Scherer, que não esteve presente no dia da Clínica, também pouco conhecia o vôlei sentado. Mas é otimista quanto à ascensão da modalidade no Estado. “O primeiro passo já foi dado, mostrando aos paratletas o que é a modalidade. O desejo pela prática é consequência e, com certeza, haverá maior incentivo,” finaliza.
A sexta edição do PARAJASC já está se aproximando. E pode ser uma grande porta para apresentar a modalidade a todos os paratletas e ser o grande início do desenvolvimento do vôlei no Estado.
A história do Volei sentado no Brasil
Foi no final do ano de 2002, através do professor Ronaldo Gonçalves de Oliveira, que iniciaram os primeiros movimentos precursores da modalidade. Na ocasião, foi realizado um torneio de voleibol sentado com três equipes, na cidade de Mogi das Cruzes (SP).
Já em 2003, a modalidade desencadeou como prática de desporto paraolímpico, através da Associação Brasileira de Voleibol Paraolímpico (ABVP), por parte de um conjunto de associações paradesportivas. A ABVP tem a filiação internacional com a WOVD, entidade responsável pela administração do voleibol sentado a âmbito internacional.
2004 – O II Campeonato Brasileiro de Voleibol Sentado é realizado na cidade de Niterói, Rio de Janeiro e reúne nove equipes masculinas e três femininas, que tiveram primeira participação em campeonato nacional;
2005 – Realização do III Campeonato Brasileiro de Voleibol Sentado. Conta com 12 equipes masculinas e três femininas. O Brasil tem a segunda participação em competições internacionais, na cidade de Kaminik, Slovênia, pelo I Campeonato Mundial Júnior de Voleibol Sentado, com uma seleção jovem sub 23, e conquista medalha de bronze;
2006 – Realização da Clínica Internacional de Voleibol Sentado, do Curso Internacional de Arbitragem e da Copa Brasil de Seleções de Voleibol Sentado, com a presença de instrutores técnicos e diretores do comitê de árbitros da WOVD. O IV Campeonato Brasileiro de Voleibol Sentado conta com 14 equipes masculinas e quatro femininas. Obtém classificação as Seleções Brasileira Masculina e Feminina de Voleibol Sentado para o Campeonato Mundial de Voleibol Sentado em Roermond/Holanda, pré-classificatório para Jogos Paraolímpicos de Pequim/China;
2007- II Campeonato Mundial Júnior de Voleibol Sentado no Rio de Janeiro/Brasil. Conquista a medalha de ouro nos Jogos Parapanamericanos no Rio de Janeiro/Brasil;
2008- VI Campeonato Brasileiro de Voleibol Sentado masculino é subdivido em série A e B, com oito equipes e o feminino permanece com quatro equipes. A Seleção Brasileira Masculina de Voleibol Sentado fica com o 6º lugar nos Jogos Paraolímpicos de Pequim/China;
2009 – Atualmente, o Brasil conta com 12 entidades filiadas, distribuídas por oito estados brasileiros, como Alagoas, Distrito Federal, Goiás, Pará, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo.
Fonte: Apostila
Clínica Voleibol Parolímpico-ABVP