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Um peruano com sotaque baiano

25 de março de 2010

 

 Neste domingo, um dos maiores escritores de língua espanhola, o peruano Mario Vargas Llosa, completa 74 anos.

 Assim como vários intelectuais de sua geração, Vargas Llosa sofreu forte influência do existencialismo de Jean Paul Sartre. Daí o engajamento de sua obra seja na crítica à hierarquia de castas sociais e raciais vigente na América Latina, seja na luta pela liberdade individual na realidade opressiva que imperava no continente. Em meados dos anos 70, fascinado pela obra-prima “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, e preocupado em mostrar os equívocos de uma esquerda violenta e destrutiva, como a do Sendero Luminoso, que brutalizava seu país na época, Vargas Llosa, “cheio de temor mas também de emoção”, começa a pesquisa que geraria o romance intitulado “A Guerra do Fim do Mundo”, baseado na epopéia de Canudos, onde foram mortas 25.000 pessoas! Ele resgata uma guerra ocorrida em 1897, para, alegoricamente, condenar os fanatismos de esquerda e de direita, as muitas ditaduras, comunistas ou militares, que tomaram de assalto a América Latina dos anos 60 a 80. Em “Os Sertões” os interessados no conflito são tantos que às vezes se perde o fio da meada: há monarquistas que mudam seus apoios conforme os ventos, há o povo nordestino que tinha Antônio Conselheiro por santo, há os jagunços convertidos, há os republicanos que acabarão por realizar o massacre, há socialistas que viam na ação do Santo Conselheiro uma espécie de vanguarda intuitiva de suas idéias etc. Mas o que desejavam os amotinados de Canudos? Livrar-se do Anticristo representado pela República e seus “avanços”. 

 O juramento que faziam dá bem a medida das suas motivações: “Juro que não sou republicano, não aceito a expulsão do Imperador nem sua substituição pelo Anticristo. Não aceito o matrimônio civil, nem a separação da Igreja do Estado, nem o sistema métrico decimal. Não responderei às perguntas do censo. Nunca mais roubarei, nem fumarei, nem me embriagarei, nem apostarei, nem fornicarei por vício. E darei a vida por minha religião e o Bom Jesus”. 

 Canudos era monarquista mas contra a escravidão. A ojeriza ao censo pode ser explicada da seguinte maneira: por que pretendia a República saber a raça e a cor das pessoas senão para, outra vez, escravizar os negros? E por que interessava-se ela pela religião da população, senão para identificar os crentes antes da matança? A rejeição ao sistema métrico decimal tinha motivação ainda mais disparatada: as medidas inglesas seriam mais monarquistas. “A Guerra do Fim do Mundo” é uma obra de ficção, ao contrário de “Os Sertões”, que Euclides da Cunha escreveu depois de participar da guerra, in loco, como correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo”. Além da prosa sofisticada, o que mais se destaca em “Os Sertões” é o rigor científico, especialmente nas duas primeiras partes – “A Terra” e “O Homem”. Já o ficcionista Vargas Llosa, ainda que tenha se baseado em uma grande massa de documentos para escrever “A Guerra do Fim do Mundo”, fabulou para produzir seu enredo, arriscando-se a inventar situações e personagens caricatos. 

 Vargas Liosa afirma que “nunca teria conseguido percorrer o sertão baiano e penetrar nos labirintos de Salvador sem a ajuda do amigo Jorge Amado, que dedicou muito tempo e energia dando-me conselhos e apresentando-me amigos”. Ambas as obras merecem ser lidas. 

 

 

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