Contra-Ataque
Contra-Ataque
Por que o Brasil não ganha mais de ninguém? Problemas temos muitos. Presidente da CBF incompetente, técnico fraco e jogadores não fortes como outrora. Mas mesmo assim, será que não dá para ganhar de uma Bolívia, pior time da competição, com um jogador a mais no segundo tempo todo e jogando em casa? Claro que dá. Galvão Bueno definiu como um dos piores jogos que já viu. Isto vem ocorrendo seguidamente, há um bom tempo. Mas então, onde está o problema? Estamos acompanhando o futebol. Em função disto, estamos vendo gols. Muitas vezes, belos e importantíssimos gols. Agora, que comemorações são essas? Estão vendo as comemorações de gols do Robinho? Apesar de sua indiscutível qualidade, o pior momento da partida é quando o Robinho faz o gol. Com uma jogada brilhante, empurra a peteca para dentro do retângulo. Maravilha! Na seqüência da comemoração, dois passinhos para o lado e começa a chupar o dedo. O que é isso? Para piorar de vez, vem ao seu encontro, dois pernas-de-pau, unindo-se num balanço realizando uma requebradinha bem em slow motion (câmera lenta). Algo totalmente desfocado da realidade da essência do futebol. Sinceramente, ver um jogador profissional chupando dedo daquela forma, na comemoração de um gol, produz em mim um profundo sentimento de vergonha alheia. Analise só, o seu ídolo domina a bola no peito, dá uma letra, um calcanhar, corre no meio de quatro jogadores, dribla todos e finaliza no ângulo. Provavelmente, o torcedor apaixonado, vai sentir uma sensação de êxtase profundo. Na seqüência, o cara dá dois passinhos para o lado e começa a chupar o dedo. Admito que em mim, a sensação seria a mesma de alguém ligar para sua casa afirmando que você ganhou na loteria, logo após o responsável pelo trote dá um grito: “Pegadinha do Malandro!”. Broxante. Aliás, por que diabos os brasileiros vêm se esmerando em transformar o momento mais catártico e sublime do futebol numa pantomima infantilóide? Posso pensar em inúmeras respostas pseudo-antropológicas, mas aqui só gostaria de ressaltar os efeitos negativos disso para a república brasileira, que é o que nos interessa. Vamos voltar um pouco no tempo e relembrar como eram extravagantes as comemorações dos gols. Como era alucinante, o momento mais esperado, o momento único, sublime, épico. Podem até pensar que identificar um problema, na comemoração, possa ser exagero. Mas não é. O problema do Brasil começa onde termina, que é nas comemorações. Afinal, quando você quer ver a intensidade de alguma coisa, basta olhar a reação. Isto é fato. Olhar a reação dos jogadores brasileiros em suas atitudes e especialmente no maior momento, nas comemorações de gols, é decepcionante e só comprova a insignificância que dão para a nossa seleção. Falta vestir a camisa, essa que é a verdade. Jogadores como Robinho, Ronaldinho Gaúcho e outros, estão mais preocupados com seus respectivos times nos quais são deuses, do que com a seleção. Esse é um dos fatores, que faz com que essa seleção acumule tantos fracassos. Quando faz gol, vemos um jogador que nunca ganhou nada pela seleção, meramente chupar o dedo. Como se estivesse fazendo algo muito simples para ele, insignificante. Como se isso fosse algo bem natural em sua carreira. Natural coisa nenhuma. Robinho não é nada na representatividade da seleção brasileira para tratar como simplicidade gol em Eliminatória de Copa do Mundo. Comemoração de coração era aquela do Pelé, correndo na velocidade da luz e com uma força única, proferindo ao ar, fortes socos, esbravejando toda sua fúria, toda sua força, toda sua vontade, todo seu suor na defesa das cores verde e amarela. Comemoração bonita e visceral era aquela do Zico, correndo feito louco pelo verde do Maracanã ao encontro do mar da torcida. Era como se o gol só pudesse ser completado depois de o jogador submergir na massa das arquibancadas, como num ritual que enfatizasse a comunhão mística entre o um e o Todo. Penso também na comemoração de Júnior depois daquele belo gol de falta na final do Brasileiro de 1992, quando vi um sujeito de cabelos grisalhos pulando enlouquecidamente e girando os braços de forma desordenada. Ali não havia nada de infantil ou ridículo, pois não era ensaiado ou repetido. Era uma simples explosão anárquica de felicidade. Ou mesmo o famoso desmaio de Pet depois do gol de falta de 2001, pelo Flamengo. Ali não havia dancinha programada, mas simplesmente a entrega após o “orgasmo”, como se o gringo estivesse se aninhando à relva e se cobrindo com o manto sonoro do Maracanã. O genial Sócrates, nos seus lindos gols, correndo de braços abertos para a galera. Assim como Neto, outro eterno ídolo corintiano. Aí está a deficiência dessa seleção. Até acho engraçado uma ou outra dancinha coreograda, mas me incomoda a mesmice, a padronização e a espetacularização disso tudo. É aí que está o problema: a seleção vem se distanciando do povo. O jogador não faz gol para a torcida, não corre mais para a galera. O que ele faz? Chupa o dedo para a câmera, para a família em casa, para o patrocinador ou para o mercado publicitário. Inclusive, não me espantaria se num dia qualquer após um gol, um Robinho da vida corre para a câmera e solte: “Utilize o novo Rexona, 24 horas de conforto e refrescância”. É como se estivessem roubando uma parte fundamental do futebol, que é esse “encontro” entre time e torcida na comemoração, que é a razão da paixão do brasileiro e do torcedor. Essa comunhão é a grande força do futebol e da seleção, é a chama que garante a condição cósmica do clube e da seleção, é o ritual “sagrado” que dá sentido a nossa república ou ao nosso Império, como queiram. Resultado disso tudo? O povo brasileiro está se distanciando da seleção por culpa do próprio mórbido desinteresse dos pseudos-craques, como se intitulam. Tanto é verdade que nunca na história do Brasil, um jogo da seleção esteve com o estádio completamente vazio, como foi contra a Bolívia. Continuem chupando dedo na comemoração, quando representam 190 milhões de brasileiros. Continuem o divórcio com o povo brasileiro. Cadê a união entre time e torcida? Esqueçam as dancinhas, as rodinhas com palminhas, os corinhos em círculos, os beijinhos para câmeras. Vocês não são crianças, mas homens que têm o privilégio de representar o Brasil, honrando o povo brasileiro. Não percam a oportunidade de se sentirem imortais, ao menos por alguns segundos depois de um gol. Corram para a arquibancada, façam uma pirâmide em frente às cadeiras, soquem o ar, gritem impropérios e fiquem ensurdecidos com a muralha sonora feita por nós. Pouca gente no mundo tem a possibilidade de transcender a vida mundana e tocar o divino. Parem de chupar dedos quando representam o ápice máximo de 190 milhões de pessoas, não continuem se divorciando da multidão. Esse não é o Brasil. Demonstrem luta, suor, sangue e não uma legião estrangeira que, mecanicamente, canta o hino antes do jogo. Aproxima-se uma opaca Copa América, os jogadores a desprezam e a torcida, com razão, também não está nem aí. Qualquer competição envolvendo o Atlético, o Floresta, o Arapiraca ou o Botucatu, será mais emocionante, se um desses for o nosso time de coração. A camisa precisa estar perto do peito, perto do coração, precisa bater, precisa pulsar. E a do Brasil não está nem sendo vestida.