Geral

Crianças negligenciadas

quando a família não quer e o Município não faz

1 de junho de 2015

Família. Uma palavra tão simples, com apenas sete letras, mas que significa tanto. Segurança, conforto, lar, estabilidade… e outras tantas palavras que estão vinculadas ao que representa uma boa estrutura familiar.
A realidade, no entanto, nem sempre é tão bela e confortável quanto aparenta ou desejamos que seja. Pomerode, por exemplo, nossa pequena cidade no interior de Santa Catarina, também registra ocorrências de cidade grande.

Abandono, abuso, agressão… esses e outros crimes contra a família também acontecem em nosso município, mas, muita vezes, são esquecidos com o tempo ou nem chegam a conhecimento público.

A época em que amor, consideração e respeito reinavam em qualquer canto já acabou. Agora, a busca é por pessoas que saibam, através de pequenos, mas importantes gestos, transformar as atuais realidades em parte do passado para iniciar uma nova vida.

Toda essa introdução tem um por quê. Na realidade, tem até nome, mas será preservado, pois o objetivo não é divulgar pessoas, mas sim, ações.

Mulher pomerodense, de garra, de histórias, de lutas. Pessoa de boa índole que abre as portas de sua casa para receber crianças, cujos destinos estão na mão da Justiça. Crianças estas que, mesmo pequenas ou nem tão pequenas assim, já passaram por momentos difíceis, e hoje aguardam ou a adoção ou algum parente vir buscá-las, pois não podem mais contar com seus pais.

Nessa casa pomerodense, algumas crianças já estiveram durante horas e até mesmo dias. E, nesses casos, a pergunta que não quer calar é: onde está a estrutura governamental para suprir essa necessidade?

Atualmente, os pais perdem a guarda dos filhos e essas crianças são encaminhadas a abrigos da região, uma vez que Pomerode não conta com um local de tal finalidade.

É aqui que, em alguns casos, essa mulher pomerodense entra em cena para realizar um trabalho que não sua função, mas o faz de corpo e alma. Não é o meu dever, mas atendo ao pedido primeiro, pela emoção, depois pelo bem-estar dessas crianças; Sei que o abrigo não é o melhor lugar, frisa.

A facilidade em lidar com todas as pessoas, o carisma contagiante, a seriedade de suas ações e o coração de mãe, são outros motivos pelos quais a moradora pomerodense é exemplo a ser seguido.

As histórias com as quais as crianças que passam pela sua casa lidaram não lhe fazem diferença, o que importa, a partir do momento em que estão lá, é a forma como foram tratadas nesse desligamento e como será o seu futuro. Nunca vi como as crianças são retiradas de suas casas ou o trabalho que é feito com elas enquanto ainda estão lá. Também não pergunto sobre o que aconteceu, mas, inevitavelmente, algumas situações vêm à tona, só agradeço a Deus pela facilidade que tenho em lidar bem com as pessoas e saber sair de momentos como esses, explica.

Chegar a um local desconhecido, com pessoas desconhecidas não é fácil para ninguém, imagine para crianças. No entanto, a timidez inicial transforma-se em carinho e segurança. Quando recebo crianças aqui, dormimos no mesmo quarto para que elas não se sintam sozinhas. Também nunca as faço sentir mal ou que estejam atrapalhando. Meu maior desejo é de que fiquem bem, ressalta.

A moradora ressalta que é adepta do agir, ao invés do apenas orar. Sou fiel e acredito em Deus e seu que Ele me guia sempre. Mas também acredito que não basta orar e não agir, é preciso fazer a sua parte e é isso que tento fazer, revela.

A doação de sentimentos também é um ato fundamental para a mudança de realidades. Por conta disso, a pomerodense se questiona sobre o envolvimento real da sociedade em assunto pertinente a todos. A realidade pomerodense é desconhecida para muitos e a lacuna que existe entre o problema e a solução é o que deve ser buscado. Nossas crianças são nosso futuro e como as estamos preparando?, completa.

De quem é o papel de abrigar, acolher e cuidar das crianças e adolescentes de nosso município que não mais vivem com seus pais? O questionamento é efetuado tendo em vista que Pomerode não possui nenhum abrigo ou projeto de família acolhedora que, possa dar um suporte local para eles.

Desta forma, as crianças são retiradas de sua casa, em caso de violação de direito comprovada e ordem judicial, e são encaminhadas a abrigos da região. Raras exceções, como a da vivida pela pomerodense, onde, também com parecer jurídico, crianças ficam em casas de famílias até que algum parente com vínculos afetivos busque-os.

 

Voltando à experiência, é preciso ressaltar que toda e qualquer ação envolvendo menores de idade tem acompanhamento de uma grande rede municipal, que envolve desde ministério público até assistência social e conselheiros tutelares.

A estrutura familiar é uma prioridade para o crescimento infantil, uma vez que família bem estrutura luta junta pelos seus direitos, deveres e superações.

Com as mudanças nesse conceito, o que se vê por aí não condiz com o que legislação solicita. Mesmo assim, sem pedir nada em troca, há quem ajude da maneira que pode.

No caso da pomerodense, o medo e o receio nesse abrigamento provisório não fazem parte da sua rotina. Em nenhum momento eu tive medo. No primeiro caso que auxiliei, a criança vem me visitar até hoje. Não sabia o que fazer, mas sempre fui guiada em meus passos, então fui sem medo de errar, apesar de saber a imensa responsabilidade que carrego nesse período, ressalta.

A família da pomerodense também é o alicerce que a apoia em todas as suas decisões e, nesses casos, não faz diferente e transforma a realidade dessas crianças em dias felizes. Nós passeamos, vamos ao parque, brincamos. Quero, nesses momentos, mostrar tudo de bom e útil que posso, desde educação até ensinamentos para a vida toda. Sempre me pergunto se posso fazer mais, se soubesse mais sobre eles talvez poderia ajudá-los mais também, mas sempre faço o que posso, conta com os olhos cheios de lágrimas.

A confiança depositada na moradora é a mesma que ela recebe das crianças após a convivência, mesmo que curta. O apego que gero é referente ao futuro e a preocupação que isso me causa. A orientação futura que terão. Preciso saber que eles vão ficar aqui, mas também vão embora, completa.

Paz, amor e amparo são o que lhe dão força para conhecer as dificuldades e lutar por melhorias. Sempre considerei útil a criação das famílias acolhedoras em Pomerode e acredito que isso ajudaria e muito. No mais, eu sei que tenho uma missão, mesmo não sabendo qual seja, sei que tenho. E a cada nova experiência, um novo contato, uma nova vivência. Dou todos meus passos com segurança, pois sei que Deus me guia, me conforta, me ampara em todos os momentos, finaliza.

 

O funcionamento da rede – O atendimento a crianças e adolescentes em Pomerode acontece em rede, ou seja, assistentes sociais, Ministério Público, conselheiros tutelares, CREAS, CRAS, saúde, educação e demais entidades envolvem-se pelo bem-estar infantil.

Atualmente, Pomerode conta com cerca de 10 crianças e adolescentes em entidades de acolhimento em outros municípios. A Promotora de Justiça de Pomerode, Dra. Márcia Denise Kandler Bittencourt Massaro, explica que as crianças são encaminhadas a estas entidades em caso de suspensão ou perda da guarda dos pais.

No caso de suspensão de guarda, as famílias envolvidas trabalham para a reinserção das crianças e adolescentes no vínculo familiar e não estão disponíveis para adoção. Para a retirada de uma criança ou adolescente de seu lar, é preciso que haja ordem judicial.

Pomerode não conta com casa lar, sendo esta uma conquista que o MP deseja e pretende que seja comemorada em breve. Discutimos dois projetos de criação de Casa Lar que estão sendo avaliados pelo poder Executivo e devem ser finalizados, com previsão de quatro meses, explica a promotora.

Com essa entidade, a rede de trabalho poderá acolher as crianças pomerodenses no próprio município, o que facilita a reinserção delas, já que no momento são direcionadas a abrigos de outros municípios, como por exemplo, Itajaí. O objetivo da casa lar é tratar a criança e a família e com a proximidade fica ainda melhor. Além disso, a casa lar é um local normal, sem placas ou identificações e não tem nenhum tratamento diferenciado, pois as crianças continuam na rede municipal de ensino, utilizando o posto de saúde mais próximo e com o relacionamento social de antes, completa.

O encaminhamento a entidades de acolhimento em outros municípios, além de levar as crianças para um convívio completamente novo, também pode atrapalhar o trabalho a ser realizado.

O estatuto da criança e do adolescente também prevê que o atendimento seja efetuado no município de domicílio das crianças.

 

Conselho Tutelar – A redação do Jornal de Pomerode entrou em contato com representantes do Conselho Tutelar do Município, que alegou, por e-mail, não ter tido tempo de realizar uma reunião entre seus membros para responder os questionamentos sonhe o assunto. Até o fechamento da edição não foi realizado contato, sendo que, posteriormente, quando a resposta for encaminhada, será oportunizada a publicação da mesma, para complementação da reportagem.

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