488 km de ida…de caminhão
Há muitas milhas de casa vive o caminhoneiro. Do volante enxerga a estrada e a solidão. Os relógios caminham lentos quando está longe das pessoas que se quer bem. O sol nasce e morre no caminho, as paisagens são diferentes.
Há muitas milhas de casa vive o caminhoneiro. Do volante enxerga a estrada e a solidão. Os relógios caminham lentos quando está longe das pessoas que se quer bem. O sol nasce e morre no caminho, as paisagens são diferentes. Pontes, rios, buracos, pessoas, cidades e os dias vão ficando para trás. Nuvens de poeira delatam, sem querer quem passou por ali. Anda em meio as incertezas do caminho de norte ao sul e do sul ao norte. Nunca se sabe o que se pode encontrar nas curvas e serras de nosso país, mas uma coisa é certa, 30 de junho é o dia em que comemoramos a existência destes itinerantes por profissão, mas com comprovantes de residência.
Vinte e três dias foi o tempo máximo que o caminhoneiro pomerodense, Cleverlei de Lima Vaz, de 35 anos, passou na estrada, numa viagem que compreendeu as cidades de Teresina, Salvador e São Paulo. O caminhão é sua casa. É lá que passa a maior parte do tempo. Tem até cama. O veículo não é dele, presta serviço para uma empresa e roda praticamente o país inteiro.
É caminhoneiro há seis anos e já sabia o que queria desde criança, achava bonito. Ninguém da sua família exercia a profissão, a vontade partiu de dentro dele. Tem que gostar. Tenho uma rotina bastante puxada, os prazos precisam ser cumpridos, às vezes viro a noite. Já tive vontade de desistir, sinto saudade de casa, mas preciso trabalhar, conta.
Costuma acordar por volta de cinco da manhã para iniciar a jornada. Para por volta das 21h, quando encosta em um posto de gasolina para repousar no próprio caminhão. No dia seguinte a mesma coisa.
É uma vida solitária. Nunca foi assaltado, mas recentemente enquanto estava parado no trânsito em São Paulo recebeu pelo rádio, por outro caminhoneiro, a informação de que estavam abrindo a porta traseira do veículo. Olhou pelo retrovisor e viu oito homens mexendo no caminhão. Não pode fazer nada e como não havia carga valiosa, os assaltantes saíram de lá. Essa foi a única vez que algo do gênero lhe aconteceu.
Prefere viajar para o Mato Grosso, lá não tem tanta fila. Em São Paulo é pior, além do intenso trânsito, os riscos de assaltos são maiores.
É casado e, mesmo ligando cerca de três vezes ao dia para tentar atenuar a saudade da esposa, ela se queixa que o marido fica muito tempo fora. Mas as reclamações acontecem apenas na sua ausência. Logo que Cleverlei chega em casa, como ele mesmo diz é só alegria. Então é recebido no portão, com direito a muitas manifestações de carinho. E antes de voltar para a estrada, faz uma oração. Então liga a rádio, sintoniza numa FM, que sairá do ar no meio do caminho e recomeça sua jornada de caminhão.