Violência contra a mulher: Pomerode registra aumento de notificações e fortalecimento da rede de apoio
CREAS aponta crescimento de mais de 300% nas notificações e destaca importância do acolhimento e do grupo “Vozes que Com” no apoio às vítimas
Foto: Envato Elements
O número de notificações de violência contra a mulher em Pomerode cresceu mais de 300% em relação ao ano passado. O dado foi divulgado por Carla Beatriz de Castilhos, psicóloga e coordenadora do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS), que destaca o fortalecimento da rede de atendimento como o principal fator para esse aumento.
Segundo Carla, o crescimento não representa um aumento real de casos, mas sim uma maior visibilidade das situações de violência. “O que percebemos é que aumentaram as notificações. Hoje recebemos encaminhamentos do hospital, da saúde, do judiciário e da delegacia. Essas mulheres sempre existiram, mas antes não chegavam até nós”, explica.
Entre os tipos de violência mais frequentes no município, a psicológica é a mais comum, manifestando-se em forma de ameaças, perseguições ou agressões verbais. A violência física, embora mais grave, representa um número menor de casos, mas que exige procedimentos específicos, como exames e registro de marcas corporais. “A Lei Maria da Penha entende que uma ameaça, até mesmo por celular, já é considerada violência. É uma medida de prevenção para evitar que o agressor avance”, detalha a coordenadora.
Rede de apoio e encaminhamentos
O atendimento às vítimas é feito, em sua maioria, por encaminhamento da rede, e não de forma espontânea. Poucas mulheres ainda procuram o CREAS por iniciativa própria. “Nosso maior desafio é trazê-las para o atendimento. Depois que chegam, conseguimos fortalecer, orientar e encaminhar da melhor forma”, afirma Carla. A rede envolve delegacia, hospital, unidades de saúde, judiciário, Ministério Público, Conselho Tutelar, educação e cultura, criando um sistema integrado de proteção.
Além do atendimento individual, o município oferece o grupo “Vozes que Com”, voltado a mulheres em situação de violência. O grupo ocorre quinzenalmente, nas quartas-feiras à tarde, na CIP, e é aberto a todas as mulheres que vivenciam situações de ameaça, desrespeito ou violência. O espaço proporciona escuta, acolhimento, troca de experiências e fortalecimento emocional. “É ali que elas conseguem se reconhecer, refletir e se fortalecer”, explica Carla.
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As participantes do grupo também recebem orientações sobre direitos legais, proteção da família e medidas preventivas, além de informações sobre serviços complementares da rede de atendimento. A coordenadora do CREAS ressalta que, embora haja resistência inicial, a participação em grupo é fundamental para que a vítima identifique a violência que sofre e encontre apoio para romper ciclos de dependência emocional.
Proteção, medidas legais e acompanhamento
O CREAS também atua em parceria com o Grupo Nova Oportunidade, voltado a homens autores de violência, coordenado pelo Conselho da Comunidade e pelo Poder Judiciário. O objetivo é prevenir a reincidência e conscientizar sobre o impacto da violência, sempre respeitando medidas de afastamento e restrições de contato com as vítimas.
Carla Beatriz de Castilhos destaca ainda que o serviço acompanha toda a proteção da família, considerando crianças, adolescentes e idosos. “Às vezes, o agressor é afastado da mulher, mas não dos filhos. Precisamos garantir que eles estejam seguros e que a mulher tenha apoio para cuidar da família”, explica.
O trabalho do CREAS inclui a orientação sobre benefícios eventuais, auxílio em processos administrativos e encaminhamentos para atendimento psicológico, que é realizado pela rede de saúde. A assistência social foca em garantir direitos, proteção e suporte, enquanto o acompanhamento psicoterapêutico é oferecido por profissionais especializados fora do CREAS.

Carla Beatriz de Castilhos, psicóloga e coordenadora do CREAS. (Foto: Eliane Cristina / JP)
Desafios culturais e sociais
Apesar dos avanços, Carla reconhece que ainda há barreiras culturais e sociais a enfrentar. “Falta a sociedade entender o quão grave é a violência de gênero. Muitas mulheres ainda são culpabilizadas ou não têm uma rede de apoio fortalecida. Quando a família falha, a comunidade precisa abraçar essa mulher”, enfatiza.
A coordenadora explica que muitas mulheres não se reconhecem como vítimas, não denunciam e permanecem em situações de risco por medo, vergonha ou dependência emocional. “É dolorido e difícil encarar a situação, mas a rede está aqui para oferecer proteção, acolhimento e orientação”, reforça.
Segundo Carla, o objetivo é que a comunidade se envolva na proteção das mulheres e que a sociedade compreenda a importância de fortalecer redes de apoio. “Elas precisam de incentivo, potencialidade e apoio para conseguir sair dessa situação. Sozinhas, é muito mais difícil”, afirma.
Mensagem de incentivo
Ao encerrar, Carla deixa uma mensagem clara às mulheres em situação de violência: “Mesmo com medo, que elas nos procurem. A rede está aqui para acolher, orientar e proteger. Sozinhas, é muito mais difícil, mas com apoio, é possível sair dessa situação.”