Um projeto de sucesso, que dura mais de 30 anos
Iniciado na Escola Almirante Barroso, projeto esportivo transformou gerações de alunos em Pomerode
Foto: Raphael Carrasco
A trajetória do professor Luiz Carlos Xavier, conhecido como professor Lula, se mistura à história do esporte escolar em Pomerode.
Natural de Blumenau, Lula cursou Educação Física na FURB, onde também atuou como bolsista e teve professores que incentivaram o contato com a prática esportiva. “Eu morava no bairro da Velha e era bem perto da faculdade. Já jogava bola com alguns professores por lá”, relembra.
Em 1989, após prestar concurso para a Prefeitura de Blumenau, surgiu a oportunidade de atuar em Pomerode. Um professor que trabalhava na Escola José Bonifácio, localizada no bairro Centro, estava se transferindo para Blumenau, e Lula acabou sendo indicado para a vaga. “No outro dia já peguei o ônibus e fui até lá. Me apresentei ao diretor, que na época era o Lully, o Luiz Carlos Heydrich, junto com o China, o Eugênio Zimmer. Eles disseram que como o professor antigo saiu, eu já poderia começar como ACT”, conta.
Dois anos depois, decidiu fazer o concurso do município e escolheu a Escola Almirante Barroso, no bairro de Testo Rega. Foi ali que, em 1993, teve início uma das iniciativas mais significativas da educação física escolar em Santa Catarina: o projeto Moleque Bom de Bola (hoje também chamado de Moleca para incluir o feminino).

“O projeto surgiu porque a garotada não tinha muitas opções de atividade. E as que existiam eram só para meninos. Então, começamos a fazer um trabalho mais voltado à inclusão e ao esporte dentro da escola”, explica o professor.
O Moleque/Moleca Bom de Bola é um campeonato escolar promovido pela Fesporte, com o objetivo de incentivar a permanência dos alunos nas escolas por meio do futebol. Em Pomerode, o projeto encontrou terreno fértil e alunos dispostos a se dedicar. Segundo Lula, a realidade da época era desafiadora. Muitos estudantes de 13 ou 14 anos deixavam os estudos para trabalhar em casa ou na indústria. “Foi aí que a Secretaria de Educação, junto com a Fesporte, pensou em uma forma de manter esses alunos nas escolas. E deu certo”, afirma.
Com o passar dos anos, o campeonato cresceu em abrangência e estrutura. Inicialmente exclusivo para o naipe masculino, o torneio passou a incluir equipes femininas e, com patrocínios de empresas como a Paraty e o apoio da antiga RBS (hoje NSC), ganhou ainda mais visibilidade no cenário catarinense.
A cada fase superada — microrregional, regional, estadual — a motivação dos alunos aumentava. “O pessoal ficava muito feliz quando conseguia passar para uma nova fase. Eles amavam quando viajavam para outra cidade, comiam fora, conheciam lugares diferentes… Isso tudo incentivava, também, os estudos”, lembra Lula. Ele acredita que o projeto teve um papel direto na permanência dos alunos na escola, gerando um ambiente de pertencimento e empolgação.
Além da formação escolar e cidadã, o Moleque/Moleca Bom de Bola revelou talentos. Vários alunos que participaram do projeto seguiram carreira no futebol, chegando a integrar equipes como Grêmio e Internacional. Lula afirma que o maior legado do projeto, porém, não está apenas nas vitórias em campo. “Ver a alegria da molecada, o envolvimento das famílias, as amizades que se formam… isso não tem preço. O projeto é parte da educação deles”, destaca.
Hoje, após mais de 30 anos de dedicação ao projeto, Lula ainda não pensa em se aposentar. Mas já visualiza o futuro da iniciativa que ajudou a construir. “Quando eu largar as funções, espero que alguém continue esse trabalho. Esse projeto é uma história muito bonita e merece ter continuidade”, conclui.
Sobre o Moleque
O Campeonato Catarinense Escolar de Futebol, conhecido como “Moleque Bom de Bola”, é uma iniciativa promovida pela Fundação Catarinense de Esporte (Fesporte) desde 1992, com o objetivo de incentivar a prática esportiva entre estudantes do ensino fundamental. O projeto visa promover o esporte amador, a educação para a cidadania e o desenvolvimento humano, democrático e integral de crianças e jovens .
Inicialmente, o campeonato era voltado apenas para equipes masculinas, mas a partir de 2001 passou a incluir também equipes femininas, ampliando sua abrangência e promovendo a inclusão no esporte escolar. As competições são organizadas em etapas microrregionais, regionais e estaduais, envolvendo escolas públicas e privadas de todo o estado.
Ao longo dos anos, o Moleque Bom de Bola se consolidou como uma das maiores competições escolares do Brasil, revelando talentos que posteriormente se destacaram no cenário esportivo nacional. Além de fomentar o esporte, o projeto contribui significativamente para a formação cidadã dos estudantes, incentivando valores como disciplina, trabalho em equipe e respeito.
Com mais de três décadas de história, o Moleque Bom de Bola continua sendo uma referência em iniciativas que unem esporte e educação, impactando positivamente a vida de milhares de jovens catarinenses.