Um pequeno anjo, que ensinou sobre amor e gratidão
Mãe conta como foi enfrentar a dor da perda de um dos filhos gêmeos, sem perder um pouco da alegria pela família que possui
Foto: Arquivo pessoal
Olhar a vida com mais gratidão pelo que está ao nosso redor. Este foi um dos ensinamentos que o pequeno Enrico, que viveu apenas 22 dias, deixou para sua mãe, Martha Maas.
A professora universitária e mãe de dois meninos teve uma segunda gestação de gêmeos univitelinos, Gregório e Enrico, que acabou virando um anjo no céu. Ela revela que, inicialmente, nunca foi um sonho ser mãe, mas que, com o passar dos anos e à medida que vivenciava coisas novas, a maternidade passou a ser uma vontade em sua vida.
“Eu sou professora universitária, sempre amei estudar, fiz mestrado e, junto com meu marido, ainda na época do namoro, falávamos sobre não sermos pais, pois naquele momento tínhamos nossos afazeres e a vida a dois estava boa daquela forma. Porém, quando fiz 30 anos, comecei a pensar sobre isso, nos casamos, compramos um apartamento, e veio da dúvida sobre ser mãe. Pensei que a vida seria mais do que sermos nós dois, um pelo outro, que teria um sentido maior, de doação, então conversamos e decidimos ter filhos”, relembra.
O primogênito de Martha e do marido, Alan, foi Luigi, que nasceu em 2022. Pouco mais de um ano depois, em dezembro de 2023, Martha descobriu a gestação de Gregório e Enrico.
“Foi uma surpresa muito grande, mas fiquei muto feliz, pois senti que era uma chance de Deus, do universo, de ter uma gravidez diferente, porque na primeira me cobrava muito, exigia muito de mim. Em janeiro de 2024 fomos para o primeiro ultrassom e descobrimos que eram gêmeos, o que foi uma surpresa gigantesca. Fiquei emocionada e também com bastante medo, pois seriam duas crianças e o Luigi tinha pouco mais de um ano, precisaríamos dar conta de três crianças, até por isso, pensamos em voltar a morar em Blumenau, para ter ajuda da família”, conta.
Martha revela que, após a descoberta da gestação, teve episódios em que passou muito mal, tornando-se difícil até trabalhar, ou fazer qualquer coisa. Foi um momento desafiador, para a professora universitária, por exigir muito de seu corpo, fisicamente.
“Em abril fomos fazer o ultrassom morfológico, que é bem importante para verificar o desenvolvimento dos bebês. Foi quando descobrimos o diagnóstico de síndrome de transfusão feto-fetal. Com isso, descobrimos que Gregório e Enrico eram gêmeos idênticos, na mesma placenta, e significa que um deles ocupou espaço maior e estava se nutrindo melhor que o outro. Nossa vida virou de cabeça para baixo”.
Cinco dias depois da descoberta, Martha passou por uma cirurgia fetal para tentar melhorar a distribuição de nutrientes entre os gêmeos. Na semana seguinte, ela entrou em trabalho de parto, com apenas 24 semanas de gestação, e chegou a ficar internada, mas foi possível reverter o início do parto.
“Eles nasceram com 33 semanas de gestação, que foi um processo com muito acompanhamento. Fazíamos de três a quatro ultrassom por semana, inclusive em profissionais diferentes, para tentar acompanhar a situação da melhor forma. A partir do diagnóstico, sempre sabíamos do risco de vida para o Enrico, mesmo dentro da barriga, e junto com isso o Gregório também sofria risco de vida. Caso o Enrico falecesse dentro da barriga, havia o risco de Gregório também não sobreviver ou ficar com grandes sequelas, por isso o acompanhamento constante e bem de perto”, afirma Martha.
Os gêmeos nasceram em 23 de junho de 2024, em parto cesárea. Enrico tinha 780g, enquanto Gregório pesava 1,865kg. “O Enrico logo foi atendido pela equipe da UTI e não precisou ser entubado, inicialmente. Ele nasceu bem para o estado em que estava e ficou internado por 22 dias, até falecer”.
Com três dias de vida, Enrico precisou ser entubado, e recebia muita medicação por acessos. Por isso, ele esteve no colo de Martha apenas duas vezes, em 22 dias. A professora também conta que, ainda durante a gestação, souberam que Enrico tinha uma pequena falha no coração, que enviava um pouco de fluxo para o pulmão, e que prejudicou bastante o estado de saúde dele.
Dois dias antes do filho falecer, Martha e Alan tiveram uma consulta com o cirurgião que faria a cirurgia para tentar solucionar esta situação, mesmo como pouco peso. Mas estado de saúde de Enrico piorou e ele não resistiu.
“Foram dias longos, muito intensos, pois eu tinha o Luigi em casa, com um ano e 10 meses, e nos mudamos às pressas para Blumenau, devido ao acompanhamento necessário no hospital. Ainda havia o Gregório, recém-nascido, então eu me dividia entre os meus três filhos. Foi bem cansativo, a rotina da UTI é muito intensa, são muitas notícias, nunca sabíamos o que aconteceria, mas os médicos e enfermeiros do Santo Antônio foram ótimos neste processo”.
Um alento para os pais foi a saúde de Gregório, que logo pode ir para o colo assim que nasceu e ficou pouco tempo na UTI, apenas para ganhar peso. Gregório logo começou a mamar e se desenvolveu bem.
No entanto, o casal precisou enfrentar a dor da perda de um dos filhos e Martha descreve os sentimentos ambíguos que vinham em meio àquela vivência.
“Vivemos um processo um pouco ambíguo, de saber da história do Enrico, que é algo que nunca imaginamos que iríamos viver, de perder um filho, e ao mesmo tempo sermos gratos pela vida do Gregório. Como eles são gêmeos idênticos, olhamos para o Gregório e sabemos exatamente com o Enrico seria, isso resume a ambiguidade para nós, da vida e da morte lado a lado”, pondera.
Em meio ao luto da perda de um filho, descrita por Martha como a pior dor do mundo para uma mãe, havia a gratidão pela vida de Gregório, entendendo que o cenário poderia ter sido ainda pior, já que Gregório também correu riscos, na gestação.
“No culto de despedida, o pastor falou algo que resume um pouco, também, esta dualidade de sentimentos, que o Enrico cumpriu uma missão muito bonita, de proteger o seu irmão. Em um primeiro momento, é difícil assimilar o que houve, mas lembro de ter pensado que o sofrimento dele havia acabado, pois é muito complicado ver o seu filho, frágil daquela forma, tão pequeno, passando por tanta coisa em poucos dias de vida”, comenta.
Para Martha, hoje o sentimento é de gratidão pela vida de Gregório, acompanhada de uma sensação agridoce dos momentos que poderiam ter vivido, se a história fosse outra. Da mesma forma, Martha revela que, mesmo tendo vivido apenas 22 dias, Enrico mudou completamente a sua vida e da família.
“Seguimos em frente por quem está aqui, nossos dois filhos, para honrar a vida de quem se foi e viver da melhor forma aqui, valorizando o que está ao nosso redor, aproveitando a vida que temos. Eu valorizo mais as coisas hoje, olho para os meus filhos e para a vida de uma forma mais grata, pois um ser tão pequeno, como era o Enrico, conseguiu transformar a nossa vida desta forma, mudou o nosso olhar sobre muitas coisas. Fez com que prestássemos mais atenção, mais cuidado, atenção, carinho pelo que ainda temos em nossa vida. Ele mostrou para nós como podemos ser fortes, porque ele foi muito forte, muito mesmo, nasceu, lutou pela vida dele até o ultimo instante e esta é uma grande motivação para seguirmos em frente”, frisa.
Martha também pondera sobre o que é importante ao passar por momentos tão complicados como o que ela vivenciou. “Para mim, foi muito importante estar com as pessoas que eu amo, tive apoio da minha mãe, da minha sogra, dos amigos, da família como um todo. É importante se cercar de pessoas que fazem bem e se permitir sentir o luto, da dor, ao mesmo tempo estar com pessoas que te lembrem o bom da vida aqui. É preciso tentar ter o equilíbrio entre as duas coisas. O que eu diria para mães que enfrentaram ou enfrentam este luto, é que eu acredito que não existe dor maior que esta, perder um filho, ainda mais tão pequeno, mas elas não estão sozinhas, temos que nos ajudar, falar sobre isso, celebrar os nossos filhos, sem sentir a sua dor ser diminuída, pois eles sempre serão nossos filhos”, finaliza.
