Um japonês redescobrindo o atletismo na terceira idade, em Pomerode
Com uma rotina simples e constante, ele surpreende pela disposição e por uma trajetória que atravessa o tempo, o país e os limites pessoais.
Sumuyoshi e o professor André. (Foto: Isadora Brehmer/ JP)
Sumuyoshi Nishimura, de 70 anos, morador de Pomerode, não imaginava que uma aula de ginástica na cidade se transformaria em uma medalha nos Jogos Abertos da Terceira Idade. “Começou quando eu fui convidado por outras pessoas de terceira idade, para a ginástica. Aí eu vim falar com o André e ele me recebeu. Conversa vai, conversa vem, aí eu falei que tinha vontade de participar no atletismo. Ele disse: tudo bem, vamos nos inscrever. E fomos, sem objetivo nenhum, só para participar mesmo.”
A história de Nishimura no esporte, porém, é antiga. Nascido no Japão, foi criado no Rio Grande do Sul, onde descobriu ainda jovem o gosto pelas corridas. “Desde a infância eu praticava. Sempre participei no colégio, em outros municípios. O professor me convocava para correr, e eu ia. Sempre gostei de praticar esporte.” Ele se lembra com precisão do ginásio onde competia, na cidade de Portão, próximo a São Leopoldo. “Era o Ginásio Nove de Outubro.
Eu me criei por ali, entre São Leopoldo, Estância Velha, Novo Hamburgo. Sempre entre os alemães. E o destino me trouxe agora para Pomerode, a cidade mais alemã do Brasil.”
Foi nesse novo cenário que Nishimura, já aposentado e morador da cidade há seis anos, decidiu voltar às pistas. A volta aconteceu com cautela, mas também com determinação. “Participei nos 1500 metros e nos 400 metros também. Nunca tinha corrido essa distância antes, mas aceitei o desafio.”
Para sua surpresa, cruzou a linha de chegada com um tempo suficiente para o terceiro lugar, nos 400 metros. “A gente se emociona. Eu não esperava chegar a esse ponto. Até perdi o segundo lugar por poucos segundos. Mas infelizmente, a condição física também não ajuda tanto. A idade pesa.”
Apesar disso, Nishimura mantém uma rotina ativa. Caminha todos os dias pelas ruas da cidade. “De manhã, geralmente. Muita gente me conhece aqui porque eu caminho para lá e para cá. Quando tinha a competição, eu caminhava de manhã, de tarde e de noite. Tinha que me preparar mesmo. Virou rotina. Aqui em Pomerode virou rotina.” As distâncias variam. “Às vezes caminho dez quilômetros, às vezes cinco, ou dois. Depende da vontade.”

Foto: Divulgação
Além das caminhadas, ele participa das aulas de ginástica e, ocasionalmente, de hidroginástica. “Participo quando posso. Porque tem outros afazeres também, como se diz.”
Agora, com a medalha no currículo, Nishimura já pensa no próximo passo. “Estava até comentando com o André, quem sabe no ano que vem tento salto em distância. Estava vendo os resultados lá, quanto o primeiro colocado fez. Mas se treinar, a gente consegue. Nunca se sabe.”
O professor André Pauli Corrêa, responsável pelas atividades da terceira idade em Pomerode, destaca que a conquista de Nishimura tem um valor que vai além da colocação. “O principal objetivo é a participação. Eles vêm para as nossas atividades – ginástica, hidroginástica, vôlei adaptado – pela saúde física. Mas quando participam dos jogos, isso mexe com a autoestima. Eles voltam querendo mais. O Nishimura mesmo, ficou em terceiro, e já pensa em melhorar. Isso é gratificante para nós, profissionais.”
Um momento que marcou Nishimura foi a forma como seu nome foi anunciado na premiação. “Eles falaram: Sumuyoshi, representando o município de Pomerode. E os outros não. Os outros só falaram o nome e o município. Mas não disseram que estavam representando. A minha filha disse: ‘Viu? Um japonês ganhando prêmio na cidade mais alemã do Brasil.’ E eu pensei: ela tem razão.”
Foi a primeira vez que ele competiu representando Pomerode. E talvez não a última. “Enquanto Deus me der saúde e o André me ajudar, a gente vai”, afirma.
