Osterfest

Tradição que passa de geração em geração: o sabor e o carinho de Marlene Selhorst na Osterfest

Há 10 anos, voluntária transforma receitas de família em memórias afetivas na oficina de pintura de bolachas e se torna parte essencial da festa

28 de março de 2026

Foto: Isadora Brehmer / JP

Entre cores, glacês e mãos pequenas ansiosas para decorar suas próprias criações, existe um trabalho silencioso e fundamental para que a oficina de pintura de bolachas aconteça durante a Osterfest: o preparo cuidadoso das receitas que saem do forno carregadas de história. É nesse cenário que a dedicação de Marlene Selhorst se destaca, transformando uma tradição familiar em uma das experiências mais afetivas do evento.

Embora este seja o primeiro ano em que participa diretamente da produção das bolachas para a oficina, a relação de Marlene com o preparo dessas delícias vem de muito antes — da infância, dentro de casa, ao lado da mãe. “Minha mãe fazia muito sempre no Natal e na Páscoa. Na nossa época de criança, o presente de Natal eram bolachas pintadas com um chocolatezinho. Esses eram nossos presentes”, relembra. O gesto simples, mas carregado de significado, foi o ponto de partida de uma tradição que hoje encanta centenas de visitantes.

A ligação com a Osterfest também não é recente. Marlene já soma uma década de participação no evento, desde o período em que a festa ainda era organizada pela Fundação Cultural. Ao longo dos anos, encontrou na produção das bolachas uma forma de contribuir diretamente com o público, mantendo viva uma herança culinária que atravessa gerações.

A receita utilizada atualmente é resultado dessa trajetória. Entre as fórmulas herdadas da mãe — algumas feitas com sal amoníaco, ingrediente bastante tradicional nas cozinhas antigas, e outras mais amanteigadas, preparadas com o auxílio da máquina de moer carne — foi necessário adaptar o modo de preparo para a dinâmica do evento. “A gente procurou várias receitas até chegar numa que fosse fácil, que todo mundo pudesse fazer, sem complicação, e que fosse prática para trabalhar aqui durante a festa”, explica. Assim nasceu a chamada “bolacha da Oma”, base de toda a oficina.

A rotina durante os dias de programação começa cedo. Antes mesmo da chegada do público, Marlene já organiza os ingredientes, separa a manteiga e prepara a massa que será utilizada ao longo do dia. Enquanto a festa acontece, o trabalho continua sem pausa: novas massas são feitas, as fornadas se sucedem e as bolachas prontas são armazenadas em baldes para garantir que ninguém fique sem participar da atividade.

A produção é intensa. Em um único dia, são preparadas de três a quatro receitas completas, cada uma rendendo mais de dois quilos de massa. O resultado é um volume expressivo de bolachas que sustenta uma das oficinas mais procuradas da Osterfest.

Mas é no contato com o público que Marlene encontra o verdadeiro sentido do que faz. “É muito gratificante. Cada um tem uma historinha. Tem aqueles que nunca viram pintar uma bolacha e ficam encantados, e tem os que já fazem em casa, mas vêm aqui porque é mais divertido”, conta.

Ao longo dos anos, ela passou a acompanhar o crescimento de muitas crianças que retornam ao evento com suas famílias. Algumas chegaram ainda pequenas e hoje já são adolescentes, mantendo a tradição de participar da oficina.

Foto: Isadora Brehmer / JP

 

“Um dia veio uma família de Blumenau que vem todo ano. O menino mais velho já está com 14 anos. O pequeno era bem pequenininho quando veio pela primeira vez”, relata com emoção.

Esses reencontros são, para ela, a maior recompensa. Abraços espontâneos, sorrisos e o orgulho das crianças ao mostrarem suas bolachas decoradas são memórias que não têm valor material. “Isso não tem preço. É uma coisa que a gente vai ter para sempre”, afirma.

A Osterfest, nesse contexto, deixou de ser apenas um evento anual para se tornar parte da própria vida de Marlene. A cada edição, ela celebra a oportunidade de estar presente e continuar contribuindo. “Todo ano eu penso: mais um ano eu consegui. Para mim é uma vitória”, diz.

Mesmo conciliando a participação na festa com o trabalho fora dali — que em alguns dias chega a 15 horas de jornada — ela garante que o cansaço é diferente. “É cansativo, mas é um cansaço gostoso. Essa época é uma época em que eu esqueço os problemas lá de fora. Eu me centralizo só aqui”, destaca.

O que a mantém firme, segundo ela, é o carinho recebido do público e a certeza de que seu trabalho faz diferença na experiência de quem visita a Osterfest. “Não tem dinheiro que pague ver que eles gostaram. É o que eu mais amo fazer”, resume.

Mais do que preparar bolachas, Marlene Selhorst ajuda a moldar lembranças. Em cada fornada, vai junto um pedaço da história da sua família, da cultura local e do espírito de uma festa que valoriza tradições. Um trabalho feito com as mãos, mas principalmente com o coração — e que, ano após ano, se transforma em um dos ingredientes mais doces da Osterfest.

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