Saúde

SHIP-Brazil: um estudo de saúde inédito em Pomerode

Iniciativa da FURB avalia fatores de saúde e bem-estar de descendentes dos imigrantes pomeranos

17 de maio de 2025

Foto: Renan Gasparini Gonçalves

O município de Pomerode, conhecido por sua forte herança cultural alemã, é o cenário de um estudo inovador que está promovendo avanços na área da saúde coletiva. O projeto SHIP-Brazil (Study of Health in Pomerode), realizado pela Universidade de Blumenau (FURB), em colaboração com a Universidade de Greifswald, da Alemanha, é um dos maiores estudos epidemiológicos já feitos no Brasil.

O objetivo principal é investigar as condições de saúde e os fatores de risco associados a doenças entre os habitantes da cidade, formada por imigrantes pomeranos no final do século XIX.

Conexões com a Alemanha

A origem do SHIP remonta a 1997, quando a Universidade de Greifswald iniciou o Study of Health in Pomerania (SHIP) na região da Pomerânia, no nordeste da Alemanha. A pesquisa teve como intuito avaliar os baixos índices de saúde e qualidade de vida dessa região, identificando doenças prevalentes e os fatores de risco para a população.

Devido ao sucesso da iniciativa, ela passou a ser repetida a cada cinco anos, permitindo uma análise comparativa dos dados ao longo do tempo.

Com o intuito de expandir esse estudo, em 2012, foi decidido incluir comunidades com descendentes de pomeranos ao redor do mundo, e Pomerode foi escolhida como a primeira cidade fora da Alemanha para participar.

O professor Clóvis Arlindo de Souza, coordenador do primeiro seguimento do SHIP-Brazil, conta que “o início da realização dos exames e questionários saúde foi em 2014. O estudo é realizado com homens e mulheres, entre 20 e 79 anos, que foram selecionados aleatoriamente, seguindo os mesmos padrões da pesquisa alemã”.

Por que Pomerode?

A escolha de Pomerode como local de estudo se deu por sua forte identidade germânica e pelo fato de ser habitada por descendentes diretos de pomeranos. O principal objetivo é comparar os dados obtidos em Pomerode com os resultados da Pomerânia, na Alemanha, e assim entender as interações entre os fatores ambientais e genéticos que influenciam a saúde.

Além disso, a cidade oferece um recorte interessante para análise de doenças e fatores de risco, especialmente com o estudo de acompanhamento dos participantes. A FURB, por meio de seu Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, é responsável pela coordenação do estudo no Brasil.

Resultados preliminares: uma radiografia da saúde de Pomerode

A primeira etapa do estudo, chamada SHIP-Brazil-0, foi realizada entre 2014 e 2018, com a participação de 2.488 pessoas. Os exames e questionários implementados na pesquisa permitiram um panorama sobre a saúde dos moradores de Pomerode, gerando diversos trabalhos acadêmicos e artigos científicos.

“São mais de 3 mil variáveis, dados e informações sobre saúde, que já produziram 54 trabalhos de conclusão de cursos de graduação, 24 dissertações de mestrado, 1 tese de doutorado, 28 artigos científicos em fase de análise ou já publicados em revistas nacionais e internacionais, e mais de 70 resumos em anais de congressos nacionais e internacionais”, conta o professor Clóvis.

Em Pomerode, 62% da população e 83% dos idosos preservam a cultura alemã. A maioria dos moradores avalia sua qualidade de vida como boa ou muito boa. Dados do estudo indicam que os indivíduos que mantêm a cultura alemã apresentam menor prevalência de depressão, maior idade, maior risco de consumo excessivo de álcool, maior circunferência abdominal e maior ocorrência de doenças crônicas. Além disso, foi observado um elevado uso de serviços de saúde, como consultas médicas e odontológicas, uso de medicamentos e internações, sendo a maioria desses atendimentos realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Foto: Divulgação/SHIP-Brazil

 

Os moradores de Pomerode fumam menos (11%) em comparação com outras regiões do Brasil e da Alemanha. No entanto, a prática de atividades físicas é baixa, com 70% da população apresentando comportamento sedentário. A alimentação também é um ponto de atenção, com elevado consumo de alimentos processados, embutidos, doces e bebidas alcoólicas. Esses hábitos têm relação com a alta prevalência de excesso de peso, que atinge 69% dos adultos e 62% dos idosos. A hipertensão arterial está presente em 19% dos adultos e 54% dos idosos, enquanto o diabetes afeta 3,5% dos adultos e 20% dos idosos. A depressão também é significativa, atingindo 16,3% dos adultos e 28,8% dos idosos.

Os exames cardiovasculares mostram condições piores em relação aos dados nacionais e alemães, com maior espessura das carótidas e presença de placas ateroscleróticas. Foi identificada uma associação entre a baixa prática de atividades físicas, o tabagismo, a circunferência abdominal elevada e a presença de doenças crônicas com a baixa força muscular, o desempenho físico funcional reduzido e a elevada espessura das carótidas. Entre os idosos, a restrição de mobilidade foi associada à baixa força muscular e à presença de doenças crônicas. Também houve relação entre a baixa força muscular e a presença de hipertensão arterial.

“Algumas variáveis serão analisadas, tais como qualidade do sono, transtornos mentais, doenças nos olhos por exame de retinografia, doenças ósseas e medidas de gordura do corpo com densitometria, uso de medicamentos, microbiota intestinal, saúde cardiovascular e alimentação. A interação entre genética/ancestralidade/descendentes pomeranos e as aspectos ambientais e sociais em Pomerode e na Alemanha, estão sendo avaliadas para compreender o papel dos fatores de risco nas condições de saúde examinadas. Com o estudo de coorte, após coleta do primeiro seguimento, teremos como avaliar os motivos e o risco dos possíveis fatores que levam as condições de saúde, as doenças e as principais causas de mortalidade”, acrescenta o coordenador do SHIP-Brazil.

O que está por vir?

O SHIP-Brazil-1, primeiro seguimento do estudo, ocorrerá entre 2025 e 2027, e mais de 3.000 variáveis serão analisadas para compreender a evolução da saúde na cidade. Aspectos como qualidade do sono, saúde mental, doenças cardiovasculares, alimentação e a interação entre genética, ancestralidade e fatores ambientais serão aprofundados. A análise contínua desses dados possibilitará entender as causas das doenças e sua relação com as condições de vida.

A pesquisa também abrirá portas para novos subprojetos, já que conta o envolvimento de mais de 30 pessoas, entre professores, alunos e pesquisadores, além de parcerias com instituições como a Prefeitura de Pomerode e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

Impacto para a comunidade

O estudo SHIP-Brazil não só beneficia diretamente os participantes, que têm acesso a exames e informações sobre sua saúde, mas também traz ganhos para toda a comunidade de Pomerode. Com os dados gerados, os profissionais de saúde locais poderão aprimorar suas práticas, enquanto gestores públicos poderão planejar melhores estratégias de saúde pública.

Além disso, a comunidade acadêmica e científica também se beneficia do projeto, com a produção de dissertações, teses e artigos que contribuem para o avanço do conhecimento na área da saúde coletiva, tanto no Brasil quanto no exterior.

Objetivos a longo prazo

“Como o SHIP-Brazil é um dos poucos estudos epidemiológicos populacionais de acompanhamento do Brasil, e dado o tamanho, pois é o maior estudo já realizado pela FURB, existe mais de um objetivo. Entretando, o objetivo geral é investigar associações entre fatores de risco psicossociais, biológicos e de estilos de vida com distúrbios subclínicos e doenças sistêmicas”, finaliza o professor.

A pesquisa segue como um modelo de acompanhamento, não só para mapear as condições de saúde, mas também para projetar estratégias eficazes para o bem-estar da população, tanto em Pomerode quanto em outras localidades com descendentes de pomeranos.

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