Até a década de 1980, o Brasil dependia da importação da variedade Red Delicious, popularmente conhecida como “maçã argentina”. O cultivo comercial começou nesse período, mas somente no final da década de 1990 o país atingiu a autossuficiência na produção de maçãs de alta qualidade, passando também a exportar. Hoje, quase toda a produção nacional se concentra em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, estados com clima frio, condição necessária para a frutificação.
O avanço se deve ao trabalho de pesquisa iniciado em 1968 com o Projeto de Fruticultura de Clima Temperado (Profit), executado pela Empasc, precursora da Epagri. Foram anos de estudos que resultaram na adaptação de cultivares ao solo catarinense, conduzidos em duas estações experimentais localizadas em Caçador e São Joaquim.
Segundo o pesquisador Marcus Vinicius Kvitschal, um dos destaques foi a introdução de mais de 500 variedades estrangeiras, das quais se consolidaram as cultivares Fuji e Gala, hoje as mais produzidas no país. Ele explica que a Epagri também investiu no melhoramento genético das macieiras, no desenvolvimento de tecnologias de propagação e na criação de pomares mais adensados, além de técnicas de indução da brotação, essenciais para garantir a produção em regiões com menos frio.
De acordo com a Secom, a Epagri e parceiros também avançaram em pesquisas de pós-colheita, ecofisiologia, fitopatologia e manejo, o que permitiu consolidar um sistema de produção de frutas de alta qualidade e abrir portas para o mercado externo. Esse trabalho contribuiu para que o Brasil alcançasse a autossuficiência em 1998, tornando-se o 12º maior produtor mundial, responsável por 1,2% da produção global.
Santa Catarina responde por aproximadamente 51% da produção nacional de maçãs, seguida pelo Rio Grande do Sul, com 46%. Em 2023, o estado foi responsável por 43,7% das exportações brasileiras, movimentando US$ 24,11 milhões. Na safra 2024/25, a produção catarinense superou 482,2 mil toneladas, com destaque para as variedades Gala e Fuji.
A cadeia produtiva da maçã gera cerca de 200 mil empregos diretos e indiretos no Brasil, metade deles em Santa Catarina. Em cidades como Fraiburgo e São Joaquim, a atividade agrícola impulsionou tanto o setor empresarial quanto a agricultura familiar, representando uma importante fonte de renda e desenvolvimento regional.
O futuro da pesquisa, segundo Marcus Vinicius, envolve diversificar a produção e criar cultivares adaptados às condições brasileiras, reduzindo a dependência de poucas variedades e garantindo sustentabilidade diante de mudanças climáticas, pragas e desafios de mercado.
Conforme destacou a Secom, é graças à ciência desenvolvida pela Epagri que o Brasil, mesmo sendo um país tropical, tornou-se um dos maiores produtores mundiais de maçã, transformando uma fruta antes importada em símbolo de qualidade e competitividade no agronegócio.