Educação

Programa Jovem Aprendiz abre portas e forma talentos dentro da indústria em Pomerode

Empresas locais têm apostado na formação de jovens talentos como estratégia para suprir a demanda por mão de obra qualificada

20 de maio de 2026

Lidiane e Déricles passaram pelo Programa e relatam como a experiência contribuiu para sua formação profissional. (Fotos: Joana Prochera / Arquivo pessoal)

Em uma cidade com forte vocação industrial como Pomerode, o Programa Jovem Aprendiz tem se consolidado como uma porta de entrada para o mercado de trabalho, e também como um caminho concreto para o desenvolvimento profissional a médio e longo prazo. Empresas locais têm apostado na formação de jovens talentos como estratégia para suprir a demanda por mão de obra qualificada e, os resultados já podem ser observados dentro das próprias organizações.

Para empresas como o Grupo Kyly, o programa é, inclusive, “um dos mais queridos”, como define a gerente de Desenvolvimento Humano e Organizacional (DHO), Daiane Busarello. Segundo ela, a iniciativa permite formar profissionais já alinhados à cultura da empresa desde cedo.

“Eles se tornam colaboradores mais aculturados, que entendem o que é importante para o grupo, como funciona o ambiente de trabalho e quais são os nossos valores”, explica.

Na prática, isso se traduz em histórias de crescimento como as de Déricles da Silva e Lidiane Kratz, que começaram como aprendizes e hoje ocupam funções estratégicas dentro da empresa.

Da aprendizagem ao apoio à liderança

Déricles da Silva ingressou no Grupo Kyly em 2018 como jovem aprendiz. Hoje, oito anos depois, construiu uma trajetória marcada por evolução constante e ocupa o cargo de Facilitador — função que atua como um elo entre a operação e a liderança, auxiliando na organização da equipe, no acompanhamento de processos e no desenvolvimento de pessoas no setor de expedição.

Ele relembra que o início foi marcado por desafios, principalmente relacionados ao desenvolvimento pessoal e à necessidade de adaptação ao ambiente profissional. “Uma das coisas que eu mais aprendi foi sair da zona de conforto. Tanto no Senai quanto aqui na empresa, a gente era colocado em situações que exigiam comunicação, apresentação, contato com outras pessoas. Isso fez toda a diferença”, conta.

Déricles da Silva. (Foto: Arquivo pessoal)

 

Após o período como aprendiz, Déricles foi efetivado como Auxiliar de Expedição em 2020. A partir daí, iniciou uma sequência de evoluções internas: tornou-se Expedidor I, depois Expedidor II, até chegar à posição de Facilitador em 2023.

Nem tudo, porém, aconteceu de forma linear. Ele chegou a tentar uma vaga de Facilitador anteriormente, sem sucesso — momento que quase o fez desistir da progressão.

“Fiquei bem desapontado, pensei em parar de tentar. Mas coloquei os pés no chão e decidi continuar, porque eu queria crescer aqui dentro e fazer a minha história”, relembra.

A persistência deu resultado. A promoção veio por mérito, reconhecimento interno concedido a partir do desempenho e desenvolvimento apresentado no dia a dia. Hoje, ele projeta novos objetivos dentro da empresa. “Eu quero mais. Quero ser o primeiro jovem aprendiz a chegar em cargos de liderança maior, como coordenação, gerência e até diretoria”, afirma.

Experiência em diferentes áreas impulsiona carreira

A trajetória de Lidiane Kratz também começou cedo. Aos 14 anos, em 2016, ela ingressou como jovem aprendiz no Grupo Kyly, motivada pelo desejo de aprender e conquistar independência financeira.

“Eu tinha muita vontade de fazer algo diferente e também de ter o meu próprio dinheiro. A Kyly foi a oportunidade para isso”, conta.

Durante o programa, Lidiane iniciou no setor de marketing, onde teve contato com diferentes áreas da empresa e desenvolveu habilidades de comunicação. Posteriormente, participou de um processo interno para jovem trainee, passando a atuar na área de compras, dentro do setor de suprimentos.

Lidiane Kratz. (Foto: Joana Prochera / Jornal de Pomerode)

 

Com o desempenho, veio a efetivação. Ela iniciou como auxiliar de suprimentos, função de apoio às rotinas administrativas e operacionais da área, e evoluiu para assistente, assumindo atividades mais complexas. Ao longo desse período, também participou de um projeto interno voltado à área de sistemas, o que acabou abrindo novas possibilidades.

A virada na carreira aconteceu quando aceitou um desafio fora do seu planejamento inicial: migrar para a área de Tecnologia da Informação.

“Foi um momento marcante. Deu um frio na barriga, porque era algo totalmente diferente, mas eu pensei que não podia deixar a oportunidade passar”, relata.

Atualmente, Lidiane atua como Analista de Negócios Pleno de TI. Para ela, a possibilidade de transitar por diferentes setores foi decisiva para o desenvolvimento profissional.

“Eu consegui entender como as áreas se conectam e como uma pode contribuir com a outra. Isso ajuda muito na resolução de problemas e na comunicação no dia a dia”, explica.

Formação que vai além da técnica

De acordo com Daiane Busarello, o principal objetivo do Programa Jovem Aprendiz é proporcionar aos jovens o primeiro contato estruturado com o universo do trabalho, algo que vai muito além das atividades técnicas.

“É uma oportunidade para eles entenderem regras, responsabilidades e também o valor do trabalho dentro de um grupo. A maioria está tendo a primeira experiência profissional”, destaca.

O programa é realizado em parceria com o Senai de Pomerode, combinando formação teórica com a prática dentro da empresa. Os jovens são distribuídos em diferentes áreas, o que amplia a visão sobre o funcionamento do negócio e permite identificar afinidades profissionais.

Daiane Busarello. (Foto: Arquivo pessoal)

 

Entre as habilidades mais valorizadas para a efetivação estão a proatividade, o comprometimento e a vontade de aprender. “A questão não é acertar sempre, mas demonstrar interesse, correr atrás e aproveitar as oportunidades”, ressalta Daiane.

Segundo ela, jovens que passam pelo programa chegam ao mercado mais preparados e, dentro da empresa, costumam evoluir mais rapidamente.

“Eles já conhecem a cultura, entendem como a empresa funciona. Isso facilita muito o desenvolvimento”, afirma. Atualmente, cerca de 50% dos jovens aprendizes da empresa acabam sendo efetivados, índice considerado expressivo e que reforça o papel estratégico do programa.

Realidade local: aprendizado como estratégia para o futuro

Dados do Senai de Pomerode reforçam a importância da aprendizagem industrial no município. Até março de 2026, são 388 jovens aprendizes matriculados, com maior concentração nas áreas de vestuário (179 alunos), metalmecânica (102) e gestão (92).

Ao todo, 39 empresas da cidade utilizam o modelo de aprendizagem como porta de entrada para novos talentos. Em muitos casos, a adesão vai além da cota obrigatória prevista em lei, refletindo a necessidade crescente por profissionais qualificados.

Os setores que mais absorvem esses jovens são justamente aqueles que sustentam a economia local: a indústria têxtil/vestuário e a metalmecânica.

A taxa de efetivação varia conforme o recorte. Dados recentes apontam cerca de 21% de contratação após o programa, enquanto levantamento do Observatório Senai indica que 48,2% dos aprendizes de Pomerode estavam empregados no ano seguinte à conclusão.

Para a coordenadora de operações do Sesi e Senai em Pomerode, Mara Rubia da Silva, a aprendizagem é parte da solução para um problema enfrentado em todo o estado: a escassez de mão de obra.

“A formação desses jovens é uma solução a médio e longo prazo. A indústria precisa desse olhar para o potencial de empregabilidade e desenvolvimento”, destaca.

A construção de um futuro

O programa também contribui para o desenvolvimento pessoal dos jovens. Dinâmicas, treinamentos e momentos de reflexão ajudam na construção de objetivos e no amadurecimento profissional.

Lidiane lembra de uma atividade marcante: escrever uma carta sobre o próprio futuro. “Foi um momento de parar e pensar no que eu queria. Um dos meus objetivos era ser efetivada e isso se concretizou”, conta.

Já para Déricles, o principal conselho para quem está começando é persistir. “Não desistam. A empresa vai dar oportunidade para quem quer crescer. Vai ter momentos difíceis, mas é preciso continuar”, afirma.

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