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Ondas de calor: porque parecem mais intensas e quais os prejuízos à saúde

Engenheiro florestal explica porquê o fenômeno parece mais intenso e médica fala sobre os possíveis problemas de saúde que podem surgir

27 de abril de 2025

Foto: Envato Elements

Ao longo do verão muito se falou na expressão “ondas de calor”. Estes são eventos climáticos caracterizados por temperaturas extremamente altas, que superam os níveis esperados para uma determinada região e época do ano.

Segundo o Ministério da Saúde, os períodos de calor intenso, no caso as ondas de calor, podem ter duração de dias ou semanas. Essas ondas são particularmente perigosas em áreas urbanas devido ao efeito de “ilha de calor”, onde a concentração de edifícios, concreto e asfalto retém mais calor, elevando ainda mais as temperaturas.

O engenheiro florestal e professor do Departamento de Engenharia Florestal da Universidade Regional de Blumenau (FURB), Erwin Hugo Ressel Filho, explica que as ondas de calor registradas tanto na região do Vale do Itajaí, como no restante do Estado e do País, podem estar relacionadas às mudanças climáticas que afetam o planeta.

Segundo o engenheiro florestal, as mudanças climáticas, causadas principalmente pelo aumento das concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera, como dióxido de carbono (CO₂), metano (CH₄) e óxidos de nitrogênio, têm alterado os padrões climáticos globais, resultando em uma série de efeitos extremos, como ondas de calor mais intensas e frequentes.

“Alguns motivos pelos quais as ondas de calor podem estar relacionadas às mudanças climáticas são o próprio aquecimento global, que nada mais é do que o aumento da temperatura média global devido à emissão de gases de efeito estufa, que tem provocado temperaturas mais elevadas, o que, por sua vez, pode resultar em ondas de calor mais intensas e prolongadas. Em regiões onde o clima já é quente, isso pode tornar os verões ainda mais extremos”, explica.

Além da elevação das temperaturas e da intensidade das ondas de calor, também podem ocorrer mudanças nos padrões climáticos, que alteram os padrões de circulação atmosférica, como as correntes de jato.

“As correntes de jato são correntes de ar que ocorrem na atmosfera. Essas correntes são provocadas pela combinação da rotação do planeta sobre o seu eixo e o aquecimento da atmosfera por radiação solar. Isso pode fazer com que os sistemas de alta pressão, que geralmente provocam ondas de calor, se estendam por mais tempo e cubram áreas mais amplas. Além disso, essas mudanças podem diminuir a frequência e intensidade das precipitações, tornando o clima ainda mais quente e seco. Eventos climáticos extremos como ondas de calor, secas, tempestades e furacões tem tido um aumento na sua frequência e intensidade. Esses eventos estão ocorrendo com maior frequência e gravidade devido ao aumento da energia térmica armazenada na atmosfera e nos oceanos”, pondera o professor.

Ainda, algumas mudanças causadas pelas ondas de calor, como a redução da cobertura de neve ou o derretimento do gelo marinho, podem intensificar o aquecimento global. Por exemplo, a neve e o gelo refletem grande parte da radiação solar, enquanto as superfícies expostas (como solo ou água) absorvem mais calor, criando um ciclo de retroalimentação que amplifica o aquecimento. Estes ciclos são chamados de Feedbacks Climáticos.

“Em resumo, as ondas de calor não são causadas exclusivamente pelas mudanças climáticas, mas as alterações climáticas induzidas pela ação humana certamente tornam essas ondas de calor mais intensas e frequentes. Esse fenômeno é uma das muitas evidências dos impactos das mudanças climáticas em curso”, afirma.

Como fica a saúde?

As ondas de calor podem provocar alguns problemas relacionados à saúde, para quem permanece muito tempo exposto ao calor intenso. A Dra. Nathany Raup Porfírio (CRM 21054 – SC), médica clínica geral, pós-graduada em estudos do envelhecimento e geriatria, enumera alguns dos problemas que podem ser provocados pelo calor excessivo.

“As ondas de calor podem levar a quadros de desidratação, insolação. O calor excessivo também favorece a criação vírus e bactérias nos alimentos, o que gera quadros de gastroenterite, que provoca diarreias, vômito, pela ingestão de alimentos contaminados. A longo prazo a exposição ao calor excessivo pode causar cansaço extremo, somado ao ressecamento da pele, cujo aquecimento pode levar ao surgimento de lesões. Além disso, as ondas de calor podem causar dor de cabeça, irritabilidade, e acentuar doenças cardíacas e respiratórias”, afirma.

Alguns grupos de pessoas também merecem atenção nestes casos, pois são considerados de risco a sofrerem mais com estas consequências. São os idosos, que já são propensos à desidratação, pois algumas vezes já usam medicamentos, além de serem mais propensos à oscilação da pressão arterial. Também é possível citar as crianças, gestantes, pessoas com doenças crônicas, indivíduos que vivem em situação de vulnerabilidade, que não terão acesso ao local mais arejado, como grupos de risco.

Para evitar consequências à saúde, causadas pelas ondas de calor, algumas medidas simples podem ser adotadas. “É importante se hidratar constantemente, bebendo bastante água ao longo do dia, além de evitar exposição ao sol nos horários mais quentes (entre 10h e 16h), usar roupas leves e claras para ajudar na regulação térmica, aplicar protetor solar regularmente para proteger a pele, permanecer em locais frescos e ventilados, evitando ambientes abafados’”, cita a Dra. Nathany.

Também é fundamental estar atento aos sinais de alerta, como tontura, fadiga e suor excessivo, além de buscar ajuda médica, se necessário.

Fatores que amenizam a sensação de calor

Um fator que pode influenciar diretamente na sensação de calor que sentimos em dias mais quentes, especialmente quando estamos em meio a uma onda de calor, é a arborização. A sensação de calor, de acordo com Erwin, é significativamente potencializada em áreas com menos arborização em comparação com áreas com mais árvores, devido a vários fatores relacionados à interação entre a vegetação e o clima local.

“Por exemplo árvores fornecem sombra, bloqueando a radiação solar direta e reduzindo a quantidade de calor que atinge o solo e outras superfícies. Em áreas com menos arborização, a radiação solar incide diretamente sobre o solo e as superfícies construídas (como concreto, asfalto e vidro), que absorvem e retêm calor, contribuindo para um aumento da temperatura local. As áreas sombreadas pelas árvores, por outro lado, mantêm a temperatura mais baixa. As árvores e plantas realizam um processo chamado evapotranspiração, no qual a água das folhas é liberada para a atmosfera na forma de vapor. Esse processo ajuda a resfriar o ar, já que a evaporação exige energia térmica, retirando calor do ambiente. Em áreas com mais árvores, esse efeito de resfriamento natural ocorre mais intensamente, o que diminui a sensação de calor. Em áreas sem vegetação, esse processo não ocorre, o que contribui para o aumento da temperatura”, esclarece.

O engenheiro florestal acrescenta que, em ambientes mais urbanos, com menos vegetação, o solo e as superfícies pavimentadas (asfalto, concreto) refletem uma quantidade maior de radiação solar para o ambiente ao redor, aumentando a sensação de calor mantendo as temperaturas elevadas por mais tempo, um fenômeno conhecido como ilhas de calor urbanas. Árvores e vegetação, por sua vez, refletem menos radiação, absorvendo parte dela e ajudando a manter a área mais fresca.

 

“As árvores, além de fornecerem sombra, ajudam a reduzir a temperatura do solo, mitigando esse efeito. Elas também podem influenciar a circulação do ar, criando microclimas mais frescos. Em áreas arborizadas, o ar tende a ser mais fresco e a circulação do vento pode ser mais intensa devido à presença da vegetação. Isso ajuda a dissipar o calor acumulado. Sem vegetação, o ar pode ficar mais estagnado e quente”, frisa.

Afinal, é possível afirmar que o verão está mais quente?

O professor Erwin Hugo Ressel Filho pondera que a afirmação de que o verão parece mais quente do que há alguns anos pode ser verdadeira, mas que é importante considerar o contexto e os dados científicos que sustentam essa percepção.

“Em termos gerais, há evidências de que as temperaturas médias globais têm aumentado ao longo das últimas décadas devido às mudanças climáticas, o que pode tornar os verões mais quentes do que eram no passado. Contudo, essa sensação de calor mais intenso pode ser afetada por diversos fatores, tanto climáticos quanto regionais”, comenta.

No entanto, os impactos provocados pelas ondas de calor podem ser minimizados, com algumas medidas que podem ser adotadas pelos poderes públicos, pensando a médio e longo prazos. “Tais medidas vão desde o aumento da arborização urbana, desde ruas, avenidas, passando por criação de parques urbanos. Obrigação do uso de materiais reflexivos e de resfriamento na construção civil como pavimentos permeáveis e telhados e pavimentos de cores claras. Planejamento urbano sustentável, políticas públicas de conservação das águas, educação ambiental, incentivo a mobilidade coletiva sustentável (uso de biocombustíveis e eletricidade). A adoção dessas medidas pode reduzir significativamente a sensação de calor nas cidades, melhorar a qualidade de vida dos habitantes e contribuir para a mitigação dos efeitos do aquecimento global. É importante que o poder público, em colaboração com a sociedade e especialistas, implemente um conjunto integrado de políticas que incluam ações imediatas e de longo prazo para tornar os ambientes urbanos mais frescos e sustentáveis” declara Erwin.

Por fim, o professor cita, ainda, que as mudanças climáticas também impactam diretamente na intensidade e frequência de outros fenômenos naturais, como temporais e incêndios florestais.

“O aumento da temperatura global, combinado com a alteração dos padrões climáticos e a intensificação da variabilidade climática, tem tornado esses eventos mais severos. Isso não significa que esses fenômenos não ocorram sem as mudanças climáticas, mas a atuação das mudanças climáticas está amplificando e agravando os riscos e os danos associados a esses desastres naturais. Portanto, é fundamental que ações de mitigação das mudanças climáticas sejam tomadas para reduzir os impactos desses eventos extremos”, finaliza.

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