Cultura

O jovem Louis, que reinventa o bandoneon em Pomerode

O primeiro contato com o bandoneon aconteceu quase por acaso, em 2019, durante uma entrevista que acompanhava com o pai, Claudio Werling, em Jaraguá do Sul.

29 de março de 2026

Louis (à direita) com o professor Rodrigo. (Foto: Joana Prochera / JP)

Em uma cidade onde a cultura germânica pulsa em cada detalhe, do idioma às festas tradicionais, um instrumento segue resistindo ao tempo e ganhando novos ares. Em Pomerode, o bandoneon não é apenas herança: é reinvenção.

E essa transformação passa pelas mãos de um menino de 13 anos chamado Louis Otto Werling, e pela história de seu professor, Rodrigo Kienen.

O legado

A trajetória começa bem antes de Louis nascer. Em 2003, um adolescente de 15 anos, apaixonado por música, bateu à porta de um mestre de 94 anos em Indaial. Rodrigo Kienen já era fã daquele senhor, tinha dois LPs dele e os ouvia repetidamente na juventude. O nome do mestre: Alfredo Radloff.

“Comecei a fazer aula com ele no dia 15 de setembro de 2003”, relembra Rodrigo, hoje com 38 anos. Foram dois anos intensos de aprendizado. “Eu estudava seis, oito horas por dia.” Em 2005, com a morte de Radloff, o aluno virou professor. Assumiu não apenas as aulas, mas a missão de manter vivo um instrumento que muitos consideravam ultrapassado.

“Naquela época, o bandoneon era visto como instrumento de gente mais velha, até cafona. Poucos jovens queriam aprender”, conta.

Rodrigo seguiu outro caminho. Estudou tango em Porto Alegre com professor uruguaio, mergulhou em diferentes estilos e passou a ensinar que o bandoneon não era exclusivo da música alemã. “Ele é um instrumento eclético. Dá para tocar qualquer coisa.”

Foto: Joana Prochera / JP

 

Em 2005, mudou-se para Pomerode. Encontrou na cidade um terreno fértil para a tradição e para a renovação. Hoje, cerca de 60% de seus alunos são jovens, entre 7 e 18 anos. Entre eles, um em especial chama atenção.

O menino que queria tocar o que tocava na rádio

Louis nasceu em Lages, morou em Correia Pinto e chegou a Pomerode em 2017. O primeiro contato com o bandoneon aconteceu quase por acaso, em 2019, durante uma entrevista que acompanhava com o pai, Claudio Werling, em Jaraguá do Sul.

“Eu fiquei muito encantado com o instrumento”, lembra. Ao experimentar o bandoneon pela primeira vez, decidiu: “Pai, eu quero levar isso a sério.”

As aulas começaram oficialmente em 09 de setembro de 2020, inicialmente com o professor Roberto Maske. Rodrigo dava aula na sala ao lado e observava. “No começo tem aquela dificuldade, mas ele logo se destacou”, conta. “O ouvido musical, a percepção que ele tem, é superespecial.”

Mas o que realmente diferencia Louis é a inquietação. Ele aprendeu as músicas germânicas, como manda a tradição. Porém, sempre voltava com uma pergunta: “Professor, será que dá para tocar isso aqui no bandoneon?”

O “isso” podia ser pop, rock, música internacional. Um dos primeiros desafios foi adaptar uma canção de Alan Walker para o instrumento tradicionalmente associado às polcas e marchas alemãs.

“Fiquei encucado com essa dúvida. Será que é possível transformar essas músicas para o bandoneon?”, conta Louis. E era.

Do tradicional ao universal

A vontade de diversificar também nasceu na escola. Convidado para se apresentar, Louis percebeu que podia usar o instrumento como ponte entre gerações.

“Eu tento tocar músicas que agregam todas as faixas etárias. Alemãs, mas também diversificadas, que os colegas gostam.”

Foto: Joana Prochera / JP

 

Para Rodrigo, esse movimento é mais do que talento individual. “Ter alunos como o Louis é muito benéfico para o instrumento. Mostra que o bandoneon não é só tradição, é possibilidade.”

Ele explica que, no passado, muitos jovens migravam para o acordeon por considerarem o bandoneon limitado. Hoje, com repertórios mais elaborados e ousados, o cenário mudou. “Quando um aluno vê outro tocando algo diferente, ele quer fazer também. Isso cria entusiasmo.”

Um instrumento, muitas histórias

O pai de Louis lembra que, antes de comprar o primeiro bandoneon, pediu um instrumento emprestado para testar o interesse do filho. Duas semanas depois, veio a confirmação do professor: “O menino leva jeito, vamos comprar um bandoneon para ele.”

Hoje, Louis já está no segundo instrumento. Divide-se entre apresentações escolares, encontros culturais e eventos tradicionais, como os realizados no bairro Testo Alto.

E mesmo explorando músicas inglesas e arranjos contemporâneos, ele não abre mão da raiz. “Eu pretendo continuar com isso futuramente, porque não pode se perder a tradição. É algo muito importante para mim e para a nossa cidade.”

Se Alfredo Radloff passou o conhecimento a Rodrigo, que agora o transmite a dezenas de jovens, Louis representa o próximo capítulo dessa linha do tempo. Em Pomerode, onde a cultura germânica é orgulho e identidade, o som do bandoneon segue ecoando, mas agora também dialoga com playlists digitais, palcos escolares e novas plateias.

Notícias relacionadas