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Com um obstáculo, também um recomeço

Jovem relata mudança de vida, a partir do início da batalha contra o câncer

08fbe3f5894ecf843624adc60348c8c9.jpg Foto: Daiana Kopsch Fotografias

A vida, muitas vezes, nos surpreende com mudanças radicais, novidades que chegam e mudam completamente os nossos planos. Foi assim que começou a história de Juma Belitzki, 28 anos, que iniciou o tratamento contra o câncer de mama, descoberto no ano passado.

 

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A engenheira eletricista, desde os 17 anos, fazia acompanhamento de nódulos benignos nos dois seios. Porém no ano passado, antes dos exames de rotina, Juma revela que sentiu alterações em um nódulo no seio esquerdo. 

“Na época, eu estava morando no México, nos arredores da Cidade do México. Cheguei a fazer exames lá, mas não me apontaram nada de anormal. Meu marido, Francisco, desconfiou e insistiu para que eu fosse a outro médico. Foi justamente em dezembro, quando a empresa que eu trabalhava me mandou para cá, onde tem uma filial, para fazer capacitação, que consegui consulta com uma ótima mastologista, em Jaraguá do Sul. Ela encaminhou todos os exames de urgência e, em menos de 15 dias da consulta, eu tive o diagnóstico. Em uma semana, já estava em tratamento”, conta.

 

 Devido ao início urgente do tratamento, Juma não pode regressar ao México, onde morava com o marido há um pouco mais de um ano. A engenheira eletricista admite que foi uma mudança drástica, pois não era “voltar ao Brasil para se tratar”, mas sim, “abandonar tudo e cuidar de si”. Hoje, Juma mora com a mãe, em Corupá, que saiu do emprego para apoiar a filha, e o marido, o qual precisou voltar sozinho ao México para organizar um pouco da vida do casal lá. Depois, Francisco voltou ao Brasil para apoiar a esposa, aqui.

A notícia, de acordo com a engenheira eletricista, foi um baque e que a ficha do que realmente estava acontecendo demorou a cair. “Descobrir que algo ruim estava crescendo no meu peito foi como se eu tivesse mergulhado em um lago congelado, do tipo ‘não é comigo’, eu só estou lendo a história de outra pessoa. Eu demorei bastante tempo para entender que era realmente comigo e chorei por mim apenas uma vez, quando já estava no fim da primeira parte do tratamento. Me considero uma pessoa otimista e sonhadora, talvez isso tenha me auxiliado bastante a não deixar que o mundo caísse antes de ter forças para levantar de novo”, comenta.

Em compensação, Juma revela que o início foi complicado para a mãe e o marido, com medo de que a história de Juma se encerrasse muito cedo. A engenheira pondera que é muito fácil e recorrente pensar desta forma, mas temos que ter em mente que a linha do tempo é igual para todos. 

 

(Foto: Daiana Kopsch Fotografias)

“Não sabemos quando vamos passar daqui para um outro plano e câncer, definitivamente, não é sentença de morte, mas sim, uma chacoalhada na vida, para que tenhamos a oportunidade de melhorar. Afinal, se fosse para ‘ir embora’, seria de alguma forma mais rápida, como um acidente de carro, por exemplo”, reflete Juma.
Na família da paciente não há ninguém com histórico de câncer, de nenhum tipo. O câncer que Juma está tratando é do tipo triplo negativo inflamatório primário, um câncer que não tem origem hormonal, mas sim, em uma mutação. É a primeira vez que ela está em tratamento e não tem metástase, ou seja, quando o câncer se espalha a outros órgãos.

Por ser do tipo inflamatório (que tem mais facilidade de espalhar) e estar com 6cm no momento do início do tratamento, o médico que acompanha seu caso decidiu iniciar com quimioterapia, para depois fazer a cirurgia.  O protocolo do tratamento é quatro quimioterapias vermelhas, a cada três semanas, o qual Juma terminou em abril, e 12 brancas, semanais, das quais ela já passou por três.

 

Buscando forças para lutar

Enfrentar este momento complicado, ainda mais de forma tão repentina, exige da paciente e da família muita força física e psicológica. Mas Juma afirma que precisou apenas buscar a força que já existia dentro de si.

“Acho que todos temos a força que precisamos dentro de nós mesmos, a todo momento. Sempre tem algo que precisamos ou queremos fazer, agora, simplesmente, mudei o foco da batalha. Ao invés de pensar nas tarefas do cotidiano normal, como ser reconhecido no emprego, estudar para uma pós-graduação ou a briga constante com a balança, eu parei tudo, literalmente, para cuidar de mim”, ressalta.

Juma admite que sempre teve uma agenda apertada, tentando fazer de tudo e mais um pouco, e que não dedicava muito tempo para orar, por exemplo. “Hoje, tenho tempo de me fazer uma refeição bem caprichada e saudável, o que leva tempo, meditar, colocar meus livros e séries em dia. Pequenas coisas que nos dão prazer, mas que, no cotidiano, ficam limitados pelas obrigações”, conta.

Algo que a ajudou muito, também, foram os tratamentos complementares, como grupos de apoio e o centro espírita. Juma afirma que é católica, mas muito aberta a escutar outras formas de amor ao divino. De início, segundo a engenheira eletricista, pensou que nos grupos de apoio encontraria pessoas desesperançadas e uns poucos “sobreviventes”. Juma foi a estes encontros de grupo mais para ocupar a agenda e sair de casa, mas se surpreendeu muito e encontrou pessoas que classifica como incríveis, que têm muito a ensinar sobre vida, sobre fé, sobre união.

“Claro que a família é extremamente importante, mas existe uma certa solidão no câncer. A família nos quer bem e faz de tudo para apoiar, mas só quem passou ou está passando consegue entender. Depois que se recebe o diagnóstico, é importante você aceitar e absorver a informação por si mesmo, antes de falar para outras pessoas, pois existe um forte preconceito de ‘previsão de morte iminente’ que se tem. Mesmo entre os que nos são queridos. E receber esse tratamento, mesmo que temporário, pode abalar mais do que a própria notícia do diagnóstico. Então, é algo que é importante estarmos preparados”, destaca Juma.

A engenheira também conta que, assim que iniciou o tratamento oncológico, começou, também, alguns tratamentos complementares, afinal, para ela, mais do que tratar um problema, é preciso tratar a causa dele. Juma teve, então, seções com psicólogo, terapia holística, Reiki, radiostesia, frequentou o centro espírita, foi à missa, buscando tratamentos para a mente e para a alma.

“Recomendo tentar tudo, nem tudo a gente se adapta ou gosta, mas tentar não custa muito. A grande maioria é investimento de tempo e deslocamento. Mas com o coronavírus se espalhando, acabei tendo que ficar mais reclusa, pois minha imunidade baixa muito e não podia me expor. Hoje em dia, saio de casa apenas para receber a quimioterapia e quando recebo visitas eles ficam só na garagem, distantes e de máscaras, pois todo cuidado é pouco! Inclusive, meu marido que é quem trabalha fora, tem um quarto e banheiro separados da casa, só dele, para poder ficar, agora que estou em tratamento. Minha mãe é quem se encarrega de fazer as compras, mas não sai na rua sem máscaras e quando chega em casa, já higieniza tudo”, descreve.

 

Memórias de batalhas vencidas

Para recordar de momentos marcantes e alegres, em meio à batalha contra o câncer, Juma contou com o apoio de uma pessoa da família, também especial para ela. A fotógrafa pomerodense Daiana Kopsch é cunhada de Juma e a auxiliou na busca pela recuperação da autoestima, também importante nesta caminhada.

Com Daiana e o marido, Juma teve a ideia de fazer uma seção de fotos para diminuir a tensão do cortar o cabelo, à medida que o tratamento ia avançando, para, de acordo com ela, “evitar a famosa cena da novela ‘Laços de Família’ onde tudo acabava em uma choradeira sem tamanho”, explica.

Então, pediu ajuda ao marido e à Daiana, sabendo que teria o apoio deles, com ideias diferente de cortes, tornando o momento mais leve. E de uma noite que poderia ter se tornado um tormento para o resto da sua vida, saíram muitas risadas e ficaram lembranças gostosas, segundo a engenheira eletricista.

 

(Foto: Daiana Kopsch)

Depois disso, ela pediu ajuda novamente à Daiana, em um segundo ensaio, que foi o marco do fim da quimioterapia vermelha, responsável pela perda de cabelo, que mexe tanto com o psicológico de muitas mulheres que passam por essa situação.

“A autoestima é algo muito pessoal e, claro, que quando recebemos elogios, nos sentimos mais leves. Não me considero uma pessoa vaidosa, afinal, sou uma negação para maquiagem e meu cabelo recebia tratamento, de verdade, umas duas vezes por ano. Ainda assim, saber que vai ficar sem cabelo é diferente de realmente ficar sem, ao menos, no início. A ideia original não era melhorar a autoestima, mas sim, criar memórias de batalhas vencidas. As fotos, com certeza, me ajudaram muito no primeiro aspecto também”, garante.

Por fim, Juma deixa uma mensagem de esperança, para quem iniciou nesta batalha, para quem acompanha alguém que luta e, também, para toda a sociedade, que assiste à batalha do mundo contra uma nova doença.

“Só gostaria de dizer a quem está em tratamento de câncer, qualquer que seja o tipo ou o estágio: câncer não é sentença de morte! A vida não acabou, ela só está te dando uma chacoalhada! ‘Aproveitar todo dia como se fosse o último’ é algo que todos deveriam fazer, mas só quem passa ou que apoia alguém em uma doença delicada é que realmente consegue entender o significado desse dito popular e assim viver ele plenamente”, encerra.