Falcão: exemplo de talento e sucesso
O craque esteve em Pomerode, durante a semana, para gravar uma campanha para a Weiku do Brasil, referência na América do Sul no ramo de esquadrias de PVC. E aproveitou para conceder entrevista exclusiva ao JP Esporte, onde falou um pouco da sua vitoriosa carreira.
Com mais de 400 gols pela Seleção Brasileira e tantos outros pelos times em que atuou, tanto no Futsal, quanto no Futebol de Campo, Futebol 7 Society e Showbol, Alessando Rosa Vieira, o Falcão, é um daqueles personagens considerados verdadeiros ícones do esporte. Eleito por quatro vezes o melhor do mundo, pela Fifa (2004, 2008, 2011 e 2012), durante os 23 anos da sua carreira conquistou fama, títulos e muitos admiradores pelo mundo inteiro.
“Aposentado” desde dezembro do ano passado, o agora ex-jogador utiliza a sua imagem para eventos e campanhas publicitárias. E foi por isso que o craque esteve na cidade de Pomerode, durante a semana, para gravar uma campanha para a Weiku do Brasil, referência na América do Sul no ramo de esquadrias de PVC.
Falcão concedeu entrevista exclusiva ao JP Esporte, onde falou um pouco da sua vitoriosa carreira e os novos rumos que sua vida está tomando, após o adeus às quadras.
JP Esporte – Você passou por grandes clubes, ao longo da carreira. Tem algum clube que você teve vontade de jogar e não conseguiu?
Falcão – Na verdade, eu sou totalmente bem resolvido quanto a isso, sempre digo que eu estive no lugar certo, na hora certa. Por exemplo, eu sou santista e joguei no Santos. Acredito que não jogar fora do Brasil foi algo que, talvez, tenha faltado, mas isso não me incomoda. Então, sinceramente, não tenho nada a questionar com relação a isso. Dentro do Futsal, eu passei pelos grandes clubes.
JPE – Você conquistou um grande título com o seu time do coração, o Santos, em 2011. Foi diferente essa conquista das outras?
F – Cada uma tem um sabor especial, mas você jogar no seu time do coração, que tem uma torcida de futebol de campo, foi uma sensação que eu queria ter sentido, pois joguei no Corinthians quando era menino. Mas jogar no Santos, com o reconhecimento que eu já tinha, com uma torcida apaixonada e todo mundo sabendo que eu era santista, foi, realmente, diferente dos outros.
JPE – Como foi ter participado dos áureos tempo do Jaraguá Futsal, umas das maiores forças da modalidade, na época?
F – Foi o grande momento da minha carreira, se tivesse um lugar ou uma época que, se eu pudesse escolher para voltar, seria Jaraguá do Sul. Lá, eu fiquei oito anos e ganhei mais de 40 títulos, foi o meu auge de carreira, onde ganhei como melhor do mundo as primeiras vezes e tenho um grande reconhecimento, além de ser o clube pelo qual eu mais joguei. Por isso, posso dizer que fui muito feliz aqui.
JPE – Qual foi o sentimento de ter marcado o gol nº 400 pela Seleção Brasileira, em Jaraguá do Sul?
F – Primeiramente, chegar ao gol 400 é algo que, talvez, seja inalcançável no meu esporte. E eu tive dois jogos na Argentina antes, que eu passei ‘em branco’. E quando eu soube que o próximo jogo da Seleção seria em Jaraguá do Sul, foi quando eu escolhi ser o meu último jogo e, também, buscar essa marca. E tudo aconteceu perfeitamente, meu último jogo na Seleção, na cidade que eu queria que fosse, quebrando mais um recorde. Foi um momento muito especial da minha vida, que Jaraguá, mais uma vez, fez parte.
JPE – Você esteve em Pomerode, no ano de 2007, participando dos Regionais dos Jogos Abertos. Você recorda disso?
F – Recordo, sim. Por ser vizinha de Jaraguá do Sul, eu frequentava muito a cidade, vinha jantar, visitava o Zoológico, quando ia a Blumenau, passava por aqui. Inclusive, cheguei a frequentar a Festa Pomerana, quando o diretor trazia o time para uma abertura, tanto que conheço bem o Pavilhão onde ela é realizada e sei da sua força. E em 2007, joguei os Regionais dos Jogos Abertos. Por isso, a cidade está bem marcada na minha memória.
JPE – Como você pretende continuar difundindo o Futsal?
F – Eu já faço isso, por exemplo, tenho um calendário ‘fechado’ até julho, neste momento. O Brasil é muito grande e existem muitas cidades que eu não tive a oportunidade de jogar e as pessoas têm essa expectativa. Eu tenho um escritório específico para tratar disso, marcar jogos-exibição, tanto no Brasil quanto fora. Eu tenho dois ou três anos para intensificar essa questão para, depois, podermos descansar de verdade. A procura está sendo acima daquilo que a gente esperava, afinal, quanto mais você faz, mais você tem que fazer, principalmente, para as cidades e países que ainda não visitei. Todos percebem que eu estou, agora, disponível para isso, diferente de quando eu jogava, que esse tipo de ação era muito esporádica. A agenda está bem mais cheia, porque antes você ia, jogava e voltava pra casa. Agora já emendo um evento no outro, e aparece uma oportunidade boa em um dia que você não contava, aí você já encaixa. Mas eu fico feliz por ter essa aceitação do público.
JPE – Se surgisse uma oportunidade, você disputaria o Torneio de Verão de Indaial?
F – Já recebi muitos convites para jogar a competição. Tanto que, quando eu jogava em Jaraguá do Sul, fazíamos muito a abertura ou o encerramento. Mas nos últimos anos, principalmente em 2019, tive alguns convites para jogar, mas eu preciso colocar as situações na balança. Digo isso porque eu competi por muitos anos, mas hoje eu posso ter esse lado financeiro me divertindo. E o Torneio de Verão é uma competição, com quadra pequena, torcida, ginásio lotado, e não é o que eu quero mais para minha vida. Eu jogaria contra os mesmos jogadores que vinha jogando nos últimos anos, outros mais novos, no auge da forma física, e isso seria uma exposição muito grande, pois todos têm a ideia de que o ‘Falcão tem que ganhar’, o que geraria uma cobrança. Por isso, competir não faz mais parte dos meus planos.
JPE – Qual foi o momento mais difícil da sua carreira?
F – Na morte do meu pai, em janeiro de 2004, quando eu tinha acabado de vir a Jaraguá do Sul. Nós descobrimos a doença dele em janeiro de 2003 e, praticamente aquele ano todo, eu jogava e voltava para São Paulo, sem saber se eu veria meu pai de novo. Acredito que esse período foi bem difícil, pois não conseguia focar nos jogos, fui expulso muitas vezes, discutia por qualquer coisa. No restante, não me arrependo das minhas escolhas. Graças a Deus, por todas as equipes que eu passei fui campeão, em 23 anos, não passei nenhum ano ‘em branco’, então, não posso reclamar.
JPE – E qual mais te marcou?
F – O Mundial de 2012, onde tive paralisia facial, causada pelo estresse de ter machucado a panturrilha. Estava na Tailândia e foi um período bem difícil, pois eu queria muito jogar. E eu transformei essa adversidade em superação. Contra a Argentina eu entrei e fiz dois gols, contra a Espanha, na final, também. Inclusive, esse é o tema da minha palestra, por isso, acredito que aquele momento foi a minha afirmação mundial, por tudo o que eu passei e por ter contribuído, de forma direta, com o título do Brasil.
JPE – Você apostaria em alguém para ser seu sucessor?
F – É difícil, porque você tem o público específico do Futsal e o público geral. E eu sempre falo do Falcão na terceira pessoa. E o Falcão conseguiu buscar esse público além do Futsal, então, quem gosta e não gosta do esporte, acompanhou o Falcão, por diversos motivos: falar bem, estar no lugar certo, na hora certa, interagir com a torcida, ser decisivo em momento cruciais. Eu consegui trazer a arte de jogar na rua, com os amigos, para o lado profissional. E essa sucessão de fatores fez com que eu fosse tão diferenciado no meu esporte. E muitos jogadores não tem todas essas características juntas: um que é bom é tímido, o que não é tímido, não é tão bom, tem aqueles que são bons jogadores mas não são decisivos, então, sempre falta alguma coisa. Não é egocentrismo, é realidade. Eu acho muito difícil acontecer de novo, principalmente, no Futsal.
JPE – Qual a importância da base para o Futsal?
F – Todo o esporte precisa ter um tratamento diferenciado, separando ‘escolinha’ do alto rendimento. Muitas vezes, as escolinhas só valorizam os meninos bons de bola, e isso não é o ideal. É preciso atender todos os tipos de garotos, de maneira igual. No alto rendimento, você vai pegar aquele menino que é diferenciado e vai direcioná-lo a um clube. Hoje, eu tenho quase 70 franquias pelo Brasil e a nossa meta é essa, formar atletas, lógico, mas, principalmente, cidadãos. E mesmo que não se tornem atletas profissionais, seja qual for a modalidade, pratiquem esportes. Isso traz muitos benefícios, principalmente para as crianças, tirando-as do sedentarismo.
JPE – Como está lidando com essa nova vida, fora das quadras?
F – Estou muito feliz, eu parei de forma consciente, pois o que eu me tornei no meu esporte, fez com que a minha imagem fosse o meu maior produto. É diferente de muitos atletas que param e não têm outros atrativos, como eventos, palestras ou jogos de exibição. Quando eu encerrei minha carreira, nós nos planejamos, tanto que eu consegui me desvincular como jogador, do meu último clube, mas me vinculei como empresa e como imagem, mantendo os mesmos valores. E a maioria dos eventos que eu faço é jogando, então, não houve uma ruptura total daquilo que eu fazia. E hoje em dia eu me divirto, sem competição e sem aquela rotina de treinamentos, musculação, hotel, viagens. Eu consigo jogar, da mesma forma, sem ter a preocupação do dia a dia.