Entre o medo e o milagre: a maternidade que floresceu
Após a dor da perda, a chegada de Alissa transforma medo em amor e ressignifica o tempo, o corpo e a vida
Foto: Arquivo pessoal
Há histórias que nascem antes mesmo de um primeiro choro. Histórias que começam no silêncio, na espera, no medo e, ainda assim, encontram caminho para florescer. A de Dauana Paes Amorim Mueller é assim: marcada por uma perda, atravessada por incertezas, mas guiada por um desejo que insistiu em permanecer.
Em 2024, ela viveu o que tantas mulheres conhecem, mas poucas conseguem traduzir em palavras: o aborto. A primeira gestação, que havia sido celebrada com surpresa e alegria ao lado do marido, Lucas, terminou cedo demais. Ficou o vazio e, junto dele, a vontade de tentar de novo.
Quando a segunda gravidez chegou, trouxe consigo um sentimento diferente. Não houve surpresa, nem anúncio elaborado, mas sim a cautela.
“Eu fiz o teste, chamei o Lucas e só perguntei: vê se isso aqui tá certo. Eu tô grávida mesmo? Inicialmente, nós ficamos com medo. Não contamos para ninguém. Só depois da ultrassom é que conseguimos acreditar”, relembra.

Foto: Arquivo pessoal
Dauana estava com pouco mais de uma semana de gestação quando descobriu. Tempo suficiente para que a esperança nascesse — mas também para que o medo se instalasse.
Era um território delicado, onde a alegria caminhava lado a lado com a insegurança.
“Era um turbilhão de emoções. Uma felicidade enorme, mas com aquele pensamento: será que agora vai dar certo?”
A gestação de Alissa exigiu cuidado desde o início. Considerada de risco nos primeiros meses, trouxe enjoos intensos, vômitos e a necessidade de desacelerar — algo que, para Dauana, não foi simples. Empreendedora, acostumada a conduzir a própria rotina e a tomar as rédeas do dia a dia, ela precisou aprender a parar.
“Foi a primeira vez que eu tive que abrir mão do meu eu. Deixar de ser a pessoa que resolve tudo, que corre atrás, e aprender a ser cuidada. Isso mexe muito com a gente.”
Ao lado dela, Lucas assumiu um papel essencial. Presente em todas as consultas, nos dias difíceis e nas decisões mais delicadas, foi apoio constante durante toda a gestação.
“Ele foi meu braço direito, esquerdo, tudo. Eu não sei como uma mãe consegue passar por isso sem apoio. Ele esteve comigo em todos os momentos.”

Foto: Arquivo pessoal
Se a gravidez foi um processo de entrega, o parto foi uma travessia. Longa, intensa, por vezes confusa. As contrações começaram ao meio-dia de um domingo. Vieram as idas e vindas ao hospital, a espera, a dor que crescia sem pressa — e a dilatação que parecia não avançar.
“Eu fiquei horas achando que nada estava acontecendo. Parecia que eu estava sempre no mesmo lugar.”
Foram cerca de 17 horas em trabalho de parto. Um tempo que, na memória, já não se mede em horas.
“Antes eu pensava: como alguém aguenta tanto tempo assim? Mas quando você vive, parece diferente. Não são horas. São momentos, é outra percepção.”
Quando finalmente o corpo respondeu, tudo aconteceu rápido. De oito centímetros à dilatação total, do pré-parto à sala de parto e, então, o encontro. Alissa chegou ao mundo em poucos minutos, após uma longa espera. E, quando foi colocada sobre o peito da mãe, o tempo parou de novo, mas de outra forma.
“Foi um sentimento de que tudo era possível. Não importava mais nada. Ali, naquele momento, eu sabia que tudo ia dar certo.”
Desde então, os dias ganharam um novo ritmo. Mais lento, mais atento, mais cheio de significados pequenos e imensos.
“Eu tento aproveitar cada segundo. Porque eles passam muito rápido. Cada olhar, cada sorriso. Eu penso: pode ser a última vez que ela faz isso desse jeitinho.”
Alissa é descrita como tranquila, observadora, mas com personalidade desde cedo. E é nesse cotidiano, entre o colo, o cuidado e as pausas, que Dauana vem reconstruindo também sua própria identidade.
Entre ser mãe e empreendedora, ela encontrou um equilíbrio possível, ainda que imperfeito, ainda que em construção.
“Eu não consigo ser só mãe, nem só a Dauana de antes. As duas coisas se misturaram. E tá tudo bem. É muito mais do que eu imaginava. É um amor que não precisa de nada em troca. Só existe. E transforma tudo.”

Alissa vom a tataravó, bisavó do pai, Lucas – Foto: Arquivo pessoal
Para mulheres que enfrentam a dor da perda e o caminho incerto de uma nova gestação, ela deixa uma mensagem simples, mas carregada de experiência:
“Tudo tem o seu tempo. Se não aconteceu antes, é porque talvez você ainda não estivesse pronta. Confia no processo. Se for pra acontecer, vai ser no momento certo.”
A história de Dauana, Lucas e Alissa não apaga a dor do que ficou para trás. Mas mostra que, mesmo depois dela, é possível recomeçar. E que, às vezes, o amor chega assim: com medo, com cuidado e com uma força que ninguém explica, mas todo mundo sente.
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