“É possível se tratar”: CAPS de Pomerode alerta para mitos e reforça apoio a quem enfrenta alcoolismo
Coordenadora do CAPS, psicóloga Michelle Vitório Marchetto explica como funciona o atendimento e destaca que dependência alcoólica é uma doença tratável
Imagem ilustrativa. (Foto: Envato Elements)
O consumo de álcool é a principal causa de procura por atendimento no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) de Pomerode.
A informação é da psicóloga e coordenadora da unidade, Michelle Vitório Marchetto, que explica que o alcoolismo é um transtorno reconhecido por manuais internacionais e não uma “falta de vontade”, como ainda é visto por parte da população.
Segundo Michelle, para identificar a dependência são utilizados critérios estabelecidos pelo DSM e pela CID-11, que avaliam sinais como prejuízos sociais, dificuldade de controle, aumento da tolerância e sintomas de abstinência, que podem incluir tremores, angústia, convulsões e até episódios psicóticos em alguns casos.
Avaliação e tratamento no CAPS
Michelle destaca que o CAPS funciona em modelo de porta aberta: qualquer pessoa pode procurar atendimento sem encaminhamento prévio. “Toda pessoa que chega passa por uma avaliação inicial, que chamamos de acolhimento. A partir dessa avaliação, definimos o melhor encaminhamento e o plano terapêutico”, explica.
O tratamento inclui:
• Consultas psiquiátricas
• Atendimento psicológico individual
• Terapia ocupacional, quando necessário
• Grupos específicos para dependência química
• Discussão interdisciplinar de casos para definir estratégias
• Participação da família no processo terapêutico
“Trabalhamos conforme o desejo da pessoa e conforme o nível de prejuízo causado pela substância. Dependência química é sempre tratada aqui”, reforça.
Casos leves podem ser tratados diretamente na unidade de saúde. Já transtornos moderados vão para o ambulatório, e os graves são acolhidos pelo CAPS.
Papel essencial da família
A psicóloga lembra que o contexto familiar pode tanto favorecer quanto prejudicar o tratamento. “A família, às vezes, sem perceber, facilita o acesso à bebida ou não impõe limites. Por outro lado, quando ela participa, oferece suporte e ajuda a estabelecer limites, o processo de recuperação se torna muito mais possível”, afirma.
Mitos que atrapalham
Michelle explica que um dos principais mitos relacionados ao alcoolismo é a ideia de que o paciente usa porque “quer” ou por “falha de caráter”. Segundo ela, essa visão prejudica o tratamento e aumenta o estigma.
Outro equívoco comum é o medo do CAPS. “Ainda existe a visão psicofóbica de que o CAPS seria um manicômio, e isso não é verdade.”, destaca.

Foto: Eliane Cristina / JP
A unidade conta com uma equipe multidisciplinar, formada por psicólogos, assistente social, terapeuta ocupacional, teólogo, enfermeiros, técnicos de enfermagem, psiquiatra e equipe administrativa. “É um espaço de cuidado, não de isolamento”, completa.
Cultura e realidade local
Michelle também explica por que o álcool é a substância mais presente entre os atendimentos em Pomerode. “Tem muito a ver com nossa cultura germânica, que incentiva o consumo desde cedo. Soma-se a isso fatores estressores e ambientais, e muitas pessoas acabam desenvolvendo transtornos relacionados ao álcool”, afirma.
Para quem enfrenta dificuldades com o álcool, a coordenadora deixa uma mensagem: “O transtorno por uso de álcool traz prejuízos emocionais, físicos, sociais e profissionais. Mas existe tratamento e existem casos de pessoas que retomaram a vida sem o uso ou com uso social e sem prejuízo. O importante é buscar ajuda. Estamos de portas abertas.”
O CAPS de Pomerode funciona de segunda a sexta-feira, das 7h às 12h e das 13h às 16h. O acolhimento é feito até as 11h pela manhã e até as 15h à tarde, para garantir tempo adequado de avaliação.