Da infância no interior do Rio de Janeiro à criação de uma marca de café na cidade mais alemã do Brasil
Natural do Rio de Janeiro, Glauco chegou a Pomerode há oito anos e decidiu se dedicar a marca de café, trabalhando com torrefação
Fotos: Laysa Moraes Dias
O café sempre esteve presente na vida de Glauco de Paula Rodrigues. Antes de se tornar torrefador de cafés especiais em Pomerode, ele já carregava memórias afetivas ligadas aos grãos. “Tive uma infância passando férias na fazenda de café de um tio”, relembra. Mas foi a insistência de outro tio, Tomás, que transformou a lembrança em projeto de vida.
Tomás é fundador da Átilla, indústria de torradores de café, e enxergava no Sul do Brasil um terreno fértil para os cafés especiais. “Ele sempre insistia para que eu montasse uma torrefação aqui no Sul do Brasil, que era uma ótima região e grande consumidora de cafés especiais”, conta Glauco.
Natural do interior do Rio de Janeiro, Glauco chegou a Pomerode há oito anos. Gerente no Banco do Brasil, ele estava no Rio Grande do Sul quando conseguiu transferência para Santa Catarina, aproximando-se de familiares que hoje vivem no interior de São Paulo. Mas a mudança foi além da logística familiar.
“Acabei vindo para Pomerode e me apaixonando. Isso também foi um dos motivos de ter criado a marca e a torrefação. A paixão por Pomerode e a vontade de criar raízes”, conta.
Foi a partir de um convite para um curso oferecido pela própria Átilla que o projeto começou a sair do papel. “Fiz o primeiro curso em Belo Horizonte, na sede da empresa. Alguns meses depois adquiri o primeiro torrador e iniciei as torras.” Desde então, a busca por conhecimento é constante. “Até hoje busco cursos e treinamentos na área, pois a interação com as novidades é muito importante.”
Técnica e sensibilidade
A torra de cafés especiais é um processo que exige precisão e sensibilidade. “O processo é muito controlado, sendo o torrador ligado a um notebook, e utilizado um software que nos dá todas as informações que estão ocorrendo com os grãos dentro do equipamento”, explica. Temperatura, tempo e curva de torra são monitorados em detalhes. “Tudo é muito controlado para que o café mantenha todas as notas sensoriais, aromas e a qualidade esperada.”
Diferentemente do que muitos imaginam, cafés especiais não recebem adição de sabores. “Os cafés especiais têm notas sensoriais diversas, mas não recebem nenhum tipo de adição de saborizante. Estes tons são da própria fruta.” As características são resultado do chamado terroir — as condições de solo, altitude e clima em que o café é cultivado. “Cada café vai desenvolver notas conforme as condições em que o mesmo é cultivado”, garante.
A busca pela matéria-prima é parte essencial do trabalho, e também uma das etapas mais prazerosas. “As buscas por estes cafés se transformam sempre em viagens muito divertidas e saborosas, pois em cada produtor sempre tem uma história nova e um café esperando.” Para ele, é um “momento maravilhoso, que dá vontade de ter todo mundo junto”.
Café como encontro
Criar a marca e torrar cafés especiais em Pomerode é, segundo Glauco, uma mistura de felicidade, responsabilidade e orgulho. “Levar o nome desta cidade maravilhosa em um produto desenvolvido por mim é fantástico.”
Hoje, os cafés são comercializados em alguns pontos de venda na cidade, além de encomendas pelo Instagram e WhatsApp. Mas, para ele, a venda é consequência de algo maior.
“Para os amantes do café, tomar cafés especiais não é uma simples ação de tomar um café de qualidade, mas sim um momento de confraternizar, de compartilhar momentos”, declara.
Mais do que um negócio paralelo à carreira no banco, a torrefação representa um vínculo com a cidade que escolheu para viver. Glauco construiu também raízes. E, a cada xícara, busca compartilhar não apenas aromas e notas sensoriais, mas histórias dos produtores, da cidade e a sua própria.