Como está a vida de Marciana Piske 11 anos após acidente que mudou sua vida
De uma recuperação desafiadora à conquista do bronze no Campeonato Brasileiro de vôlei sentado, Marciana prova que a aceitação e o paradesporto transformam trajetórias.
Como está a vida de Marciana Piske 11 anos após acidente que mudou sua vida - Foto: Arquivo Pessoal
Onze anos se passaram desde o dia 04 de abril de 2015, data que dividiu a vida de Marciana Seiler Piske. Naquela época, um grave acidente de trânsito na rodovia SC-421, via que liga Pomerode a Blumenau, resultou na amputação de sua perna esquerda e em diversas faturas, interrompendo uma rotina intensa: “antes do acidente minha vida era muito ativa, eu malhava três vezes por semana, cuidava dos meus dois filhos e marido, além de trabalhar. Eu não parava nunca”, relembrou ela, meses após a tragédia.
A colisão com uma van mudou tudo em frações de segundo: “me recordo de estar na via e ver a Sprinter invadindo a minha pista. Depois acordei no chão, com muita dor. Nesse momento eu gritei para pedir ajuda, pois não havia ninguém por perto”, contou à época.
Em dezembro daquele mesmo ano, uma reportagem do Jornal de Pomerode detalhava sua luta: com o auxílio fundamental de doações da comunidade, ela dava os primeiros passos com uma prótese. O caminho, contudo, exigiu uma força interior imensa: “foi ali que eu recomecei a minha vida, quando eu disse ‘sim’ para ela. Posso dizer que, no começo, não foi fácil, não”, reflete a Marciana de hoje.
O contraste entre a personagem de 2015 e a de 2026 ilustra uma jornada de evolução constante. Há mais de dez anos, ela se afastou do trabalho como costureira, sonhando em recuperar a autonomia que havia perdido: “fiquei três meses e meio dependendo da minha sogra e do meu marido para ir ao banheiro, para comer, para tudo. Sair da independência para ser dependente de alguém não é fácil. Eu não queria isso para mim”, recorda.
Atualmente, seu cenário é completamente diferente e reflete a vitória sobre aquele momento crítico. Consolidada no mercado de trabalho, ela transformou as limitações em combustível: “hoje eu estou sendo uma pessoa realizada, e com certeza Deus me proporcionou muito, muito mais. Trabalho no financeiro de uma empresa, que me apoia também na parte do esporte”, celebra. A prótese, que hoje passa por um processo de adaptação para um novo encaixe após nove anos de uso contínuo, tornou-se o instrumento de liberdade que a leva a pódios nacionais.
- Foto: Arquivo Pessoal
- Foto: Arquivo Pessoal
Apoiada incondicionalmente pelo marido e pela família, Marciana reencontrou no esporte competitivo o seu principal motor. O vôlei convencional, que já havia feito parte de sua adolescência nos tempos de base em Blumenau, deu lugar a um novo cenário em 2020: o vôlei sentado. O projeto começou modesto, com apenas ela e mais duas meninas enfrentando as incertezas da pandemia, mas logo se estruturou. A dedicação rendeu feitos históricos, culminando na quebra de uma hegemonia de quase 15 anos das tradicionais equipes de Goiânia, com a conquista da medalha de bronze no Campeonato Brasileiro em 2024 e 2025.
“Criar um time nunca foi o meu objetivo. Acho que começar do zero foi a melhor parte. Apanhamos muito, apanhamos. Mas eu tenho muito orgulho de ter apanhado. Porque foi ali veio o necessário para a gente crescer. Um atleta não nasce campeão, a gente se transforma”, orgulha-se. Longe de se acomodar, sua agenda esportiva abrange hoje o Pilates, o tênis de mesa e os primeiros contatos com o remo.
- Marciana encontrou no vôlei sentado uma nova paixão – Foto: Arquivo Pessoal
- Marciana encontrou no vôlei sentado uma nova paixão – Foto: Arquivo Pessoal
A corrente do bem que permitiu a compra de sua primeira prótese deixou marcas profundas em sua visão de mundo, transformando a gratidão em ativismo. Sabendo que os custos de mobilidade são altíssimos, Marciana compreende que a longa espera pela rede pública pode destruir oportunidades de recomeço: “se eu tivesse esperado pelo SUS, ou esperado pelo INSS, que demora muito tempo, eu não ia estar trabalhando.
Hoje eu tenho a minha [prótese] porque eu trabalho”, explica, revelando já ter gastado mais de R$ 80 mil em manutenção e equipamentos na última década. Por isso, ela atua como uma voz ativa de incentivo para novos amputados da região, engajando a comunidade em ações beneficentes e oferecendo suporte emocional direto nos hospitais: “quando eu falo com pessoas amputadas, eu gosto muito de conversar com elas, porque cada corpo é de cada pessoa, a dor é de cada um. A gente não pode ter medo daquilo que vai acontecer se tu não estás vivendo ainda. A gente tem que ter o medo do agora, e não do que vai acontecer”, aconselha.
- A família foi um dos principais combustíveis de Marciana na recuperação do acidente, conta – Foto: Arquivo Pessoal
- Marciana também realiza palestras, contando sua experiência – Foto: Arquivo Pessoal
Questionada sobre a mensagem que deixaria para quem enfrenta hoje um trauma semelhante ao que ela viveu no asfalto da SC-421, a atleta destaca o poder da escolha: “eu sempre digo que Deus te dá duas escolhas naquele momento: ou você fica numa cama, ou você levanta a sua cabeça, ergue e diz sim para a sua vida”, afirma.
Onze anos depois, a mulher que um dia precisou amputar a própria perna se perguntando o que seria do amanhã, ensina que o primeiro passo para a cura é aceitar a si mesmo. Marciana relembra um episódio marcante de sua primeira alta hospitalar para ilustrar sua filosofia de vida: “as pessoas me olharam de um jeito assim: ‘Nossa, coitada’. Eu pensei ‘Não, eu não quero que as pessoas me olhem assim’, voltei para elas e dei um sorriso. O sorriso que tu dás, voltará para você. Então sorria para os teus problemas, porque a vida vai dar a solução”, finaliza.






