Esporte

Cair, levantar… recomeçar! Uma história de superação, contada de forma emocionante

Como dizem por aí, a vida é uma roda gigante, onde ora estamos por cima, ora, por baixo. Porém, justamente nos momentos mais difíceis, é que temos que nos agarrar com todas as forças na esperança de dias melhores, para que possamos voltar a estar “por cima”.

23 de fevereiro de 2018

Como dizem por aí, a vida é uma roda gigante, onde ora estamos por cima, ora, por baixo. Porém, justamente nos momentos mais difíceis, é que temos que nos agarrar com todas as forças na esperança de dias melhores, para que possamos voltar a estar “por cima”. E as lições aprendidas nas adversidades nos influenciam e nos fazem prosseguir, cada vez mais fortes.

Poucos pomerodenses não conhecem Walter Bendheim Filho, 57 anos, 3º Sargento Reserva Renumerada da Polícia Militar de Santa Catarina (PMSC) e sua história de superação. Diagnosticado, em 2004, com Polineuropatia com sequela de paraplegia flácida arreflexa, teve no esporte o seu “recomeço”, uma vez que, durante a sua infância e adolescência, foi criado dentro das piscinas, praticando natação, e das quadras, com a modalidade de basquete.

Confira o depoimento de Bendheim Filho, em primeira pessoa, que nos mostra o quanto o esporte e a força de vontade podem mudar a existência das pessoas.

 

O INÍCIO – Pratico natação desde muito cedo, pois meus pais eram sócios de clubes em São Paulo (SP). Além disso, passávamos férias em Santos, litoral paulista. Nesses espaços, sempre pude nadar. O primeiro clube que frequentei foi o Solares dos Amigos e, depois, o Clube Castelinho, que margeava a represa de Guarapiranga, no bairro de Santo Amaro. Foi nele onde apreendi a nadar. Nesta época, eu tinha nove anos e contei com o apoio do “Papai Noel”, que deixou embaixo do pinheirinho de Natal um pé de pato, um respirador e uma máscara.

Mais tarde, quando morava na Chácara Santo Antônio, zona Sul de São Paulo, uma vizinha tinha uma piscina e, aproximadamente, em 1970, ela montou uma escola de natação. O professor era o Roberto, filho dela. Ele era deficiente visual e foi meu primeiro professor de natação. Lá comecei a nadar sem qualquer equipamento e participei das primeiras competições de natação. Como o professor era deficiente visual, ele nos corrigia pela audição. Não adiantava tentar nadar de modo diferente do que ele mandava, pois percebia pela audição e corrigia.

Em 1974, aos 14 anos, passei em uma seleção do Senai e, em 1975, iniciei o curso de eletricista. Nesse período também cursava o ginásio, que corresponde, atualmente, ao período de 5º ao 9º do ensino fundamental.

Foi nessa época que o professor de educação física me apelidou de “Miudinho” por eu ser o aluno mais alto. Foi ele quem me convidou para praticar basquete e, também, me incentivou a entrar no clube da prefeitura municipal de São Paulo, que ficava próximo ao Senai. Neste local pude praticar as duas modalidades.

Nas segundas, quartas e sextas-feiras eu participava das aulas de basquete, à noite. E, para aproveitar algumas horas livres, terças e quintas-feiras e aos sábados pela manhã eu treinava natação, em uma piscina semiolímpica aberta. O treinamento era de quatro horas e, para fechar a semana, aos domingos, eu corria.

Pratiquei natação até sair do Senai, no final de 1976. Já o basquete treinei até 1978 e parei para poder servir o exército, em Brasília.

 

O RECOMEÇO – Quase 30 anos depois, em 2005, voltei a praticar natação. Eu havia retornado da Rede Sarah de Hospitais de Reabilitação, em Brasília, e lá os médicos recomendaram praticar natação, depois que fiquei paraplégico. Sendo assim, fui em busca de aprendizado para essa nova etapa.

O esporte volta a entrar na minha vida, mas, desta vez, de forma bastante diferente, pois tinha perdido os movimentos das penas. Foi na escola Água Doce, em Pomerode, que retornei à natação. Mas, por outros motivos, tive que parar depois de alguns meses.

Nesta época, me associei à Associação Blumenauense de Deficientes Físicos (Abludef), onde iniciou o primeiro time de basquete em cadeira de rodas. E, em 2010, incluí o atletismo à minha rotina. Depois de muito treino intenso, em 2011, no Parajasc de São Miguel do Oeste, conquistei o 4º lugar na modalidade dardo, 1º no disco e 1º no arremesso de peso.

A natação sempre me ajudou muito, até mesmo quando, por algumas vezes, me recuperei da paraplegia. O esporte me ajudou a adquirir movimentos e força.

A vida dá voltas e, em 2014, voltei para a cadeira de rodas e, desta vez, definitivamente ou até quando a medicina descobrir algo que possa reverter a situação.

A vida continua e, por isso, voltei para o esporte. Desta vez com o basquete em cadeira de rodas, pela Abludef. Em seguida, também voltei a praticar musculação e natação na academia Essencial, no bairro Badenfurt, em Blumenau.

 

ESPORTE BLUMENAUENSE – Comecei a competi pela cidade de Blumenau, em virtude do basquete. Em Blumenau, pela Abludef, tínhamos as cadeiras de rodas, quadra, professores e a associação, que era forte para dar suporte na manutenção e viagens para competições. Por já praticar o basquete em Blumenau, nada mais justo que treinar as demais modalidades também por aquela cidade.

Aqui no município há a Associação Pomerodense de Deficientes (Apodef), da qual sou membro e, se sempre que pude, auxiliei. Entretanto, no esporte da associação, participei apenas uma vez em um campeonato de bocha, aqui em Pomerode.

Em 2014, voltei para a natação, desta vez em piscinas de 13 metros e com a intenção de competir. Foi quando conheci a Associação Paradesporto Escolar de Blumenau (Apesblu). Apesar do nome “escolar”, nesse período, iniciaram os trabalhos com adultos. A Apesblu foi um sonho que veio na bagagem da professora Giselle Margot Chirolli que, aos poucos, conseguiu trazer para o projeto outros profissionais bastante comprometidos, como técnicos, fisioterapeutas, nutricionistas, além do apoio da infraestrutura, como piscina, academia e aulas de adequação postural, entre tantos outros.

Nesse período, treinei com intensidade musculação na academia, em Pomerode, e natação, na piscina da Furb, uma grande parceira da Apesblu, em Blumenau. É preciso ressaltar que a Furb é muito importante para o paradesporto. Além da piscina, a universidade cede quadra de atletismo, quadra para o basquete em cadeira de rodas, entre outros. Além disso, há outros parceiros essenciais para os paratletas.

Eu nadava três vezes por semana, sendo que um dos dias eu precisava levantar às 03h45min, pois o treino iniciava às 05h e terminava às 07h. Nosso professor, Henrique, era pontual e às 05h já estava nos esperando. O resultado dessa dedicação e apoio veio no Parajasc de 2017, quando conquistei três medalhas de ouro, sendo uma nos 50 metros costas, uma no peito e outra na modalidade livre.

Infelizmente, devido ao aumento do combustível, a manutenção do carro e outros motivos, este ano tive que parar de treinar natação, praticando apenas musculação e basquete. Agora meu objetivo é comprar uma Handbike, que é uma bicicleta adaptada para cadeirantes.

 

PARADESPORTO – Participar de uma competição pelo paradesporto é incrível. Você está lá com amigos de anos de convivência (lembro muito do Chiquinho, Alairton, Célio, Márcio, Dayane, Maike, Guido, Jorge e Dionísio) e, ainda, fiz muitas amizades com paratletas de outros municípios. A gente convive por uma semana com pessoas com outras deficiências distintas e quando olhamos para trás, percebemos que há muita gente com muito mais problemas que o seu e é muito mais feliz. Lições de vida. Você vê cenas de superação que marcam para o resto da vida.

Também vemos o amor que as pessoas têm pelo seu semelhante. Os professores e outras pessoas que nos acompanham são a prova que o grande mandamento de Deus está sendo respeitado: “Amar o próximo como a ti mesmo”.

Hoje, a deficiência anda tão perto das pessoas, seja por acidente, disparo de armas, quedas, doenças e tantas outras ocasiões, por isso, precisamos estar preparados para o que vier. Não morremos quando ficamos deficientes, apenas aprendemos uma nova vida. Este aprendizado é duro e, dependendo de como a pessoa aceita, pode ser longo ou não.

Somos pessoas iguais a qualquer outra, mas com algumas limitações físicas.  Necessitamos de acessibilidade como todas outras pessoas precisam. Por exemplo, por que fazer uma escada ao lado de uma rampa? A rampa é muito mais segura para todas as pessoas.

O esporte sempre foi muito importante para mim. Saúde física e mental, disciplina, respeito, entre outras contribuições. A natação, em especial, é um esporte que ativa todo o corpo, principalmente os pulmões, e tem a grande vantagem que não causa impactos, tornando as lesões quase raras.  

Agradeço a minha família, em especial, esposa e filhos, e aos professores. Não lembro o nome de todos, mas entre os grandes mestres estão: Roberto, o primeiro professor de natação, Dilnei (atletismo em Pomerode), Wagner, Luís e Andressa (basquete), Maurício (basquete e atletismo), Jair e Henrique (natação em Blumenau), José, Karina e outros da Água Doce, em Pomerode, Jonas, Toni, Naiara, Marlon e Gabi (musculação) e todos outros professores que, direta ou indiretamente, fizeram parte de minha vida. 

 

DESENVOLVIMENTO – O esporte no Brasil tem que ser visto como algo que faz bem e que deixará os postos de saúde com menos pacientes e menos adolescentes em risco, cometendo atos infracionais. Entretanto, o esporte não pode ser direcionado para futebol  (para os meninos) e vôlei (para as meninas). Temos que diversificar e oferecer outras opções como natação, basquete, atletismo, handebol, tênis de mesa, canoagem, ciclismo, esgrima, ginástica, judô, remo e tantos outros.

Deste modo, cada um pode escolher onde melhor se adapta. Claro que fica difícil para um município ter todas as modalidades, mas que tenha o máximo de opções e que não se esqueça do esporte adaptado.

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