Burnout: quando o corpo diz “basta” antes da gente perceber
A psicóloga Daiane Busarello alerta para sinais silenciosos do esgotamento e reforça: reconhecer limites é parte essencial do cuidado com a vida — e não um ato de fraqueza.
Foto: Envato Elements
A discussão sobre saúde mental nunca esteve tão presente quanto nos últimos anos. Entre os temas que ganharam visibilidade, a Síndrome de Burnout, também conhecida como Síndrome do Esgotamento Profissional, tornou-se uma preocupação crescente, especialmente em contextos de pressão, competitividade e acúmulo de responsabilidades. Classificado pelo Ministério da Saúde como um distúrbio emocional decorrente de situações de trabalho desgastantes, o burnout envolve exaustão intensa, estresse crônico e sintomas físicos e emocionais que podem evoluir para quadros graves, como depressão profunda.
Para ampliar essa conversa, o Jornal de Pomerode ouviu a psicóloga Daiane Busarello, profissional com trajetória que transita entre a psicologia organizacional e clínica. Movida pelo desejo de “cuidar das pessoas e fortalecer culturas saudáveis”, Daiane observa de perto como indivíduos se desenvolvem, e também como adoecem, dentro das organizações.
“Escolhi a psicologia porque acredito que cada pessoa carrega uma potência única, às vezes adormecida, às vezes sufocada pelas exigências internas e externas”, conta. Sua escuta clínica e experiência no ambiente corporativo revelam um cenário complexo, onde autocrítica, excesso de demandas e falta de limites se cruzam silenciosamente.
Um rompimento interno que ninguém vê de imediato
Além da definição técnica, Daiane descreve o burnout como “um rompimento interno”. Para ela, o processo começa quando a mente e o corpo passam a dizer “não”, enquanto a pessoa insiste em continuar dizendo “sim”.
“É como perder o brilho, o entusiasmo, o sentido. Você funciona no automático, sem conseguir se reconhecer”, aponta. E reforça: “Burnout não é só cansaço. É quando a energia emocional, antes renovável, parece não voltar mais.”, descreve a psicóloga.
Essa percepção dialoga com a lista de sintomas detalhada pelo Ministério da Saúde, que inclui desde cansaço extremo, irritabilidade e alterações de humor até problemas gastrointestinais, dores musculares, insônia e sentimentos de fracasso ou desesperança. Segundo o órgão, os sinais normalmente começam de forma leve e tendem a se agravar, o que contribui para que a pessoa os ignore.
Sobrecarga ou consciência?
Questionada sobre o aumento de casos, Daiane aponta que vivemos o acúmulo de duas forças: a sobrecarga real e a ampliação da consciência emocional.
“As pessoas estão mais pressionadas do que nunca, mas também mais conscientes dos próprios limites — especialmente as gerações mais jovens”, explica. O tema, antes reduzido a “falta de resiliência”, ganhou nome e legitimidade. “Pedir ajuda não é fraqueza, é responsabilidade.”

Psicóloga Daiane Busarello. (Foto: Arquivo pessoal)
Os sinais escondidos
Entre os alertas que passam despercebidos, Daiane destaca: perda do prazer em atividades simples; irritabilidade silenciosa; dificuldade em tomar decisões antes consideradas fáceis; microesquecimentos; sensação constante de atraso; viver no modo automático. São sinais que não chamam atenção de imediato, mas que revelam sobrecarga emocional grave.
Autocrítica, limites e o esgotamento que se instala
Daiane observa uma relação direta entre burnout e autocobrança. Pessoas muito exigentes consigo mesmas, segundo ela, ultrapassam limites sem perceber. “O burnout nasce desse cruzamento: alta expectativa + pouco limite + ritmo acelerado + autocobrança desumana”, afirma.
A falta de limites também é um gatilho importante. “A ausência de limites faz com que a pessoa abra mão de si para caber em tudo — e isso é impossível. Quando você não decide seus limites, o mundo decide por você.”
Essa dificuldade é potencializada pela cultura da produtividade e da urgência. “Quando tudo é para ‘agora’, a pessoa perde a noção de prioridade, ritmo e limite. A produtividade, quando vira identidade, desumaniza.”
O sofrimento normalizado
Para Daiane, o aspecto mais preocupante do burnout em 2025 é a naturalização da dor. “Pessoas esgotadas acham normal sentir o que sentem. Empresas naturalizam a exaustão como parte do jogo. E a sociedade aplaude quem se sacrifica sem parar. Isso transforma o burnout de exceção em padrão.”
O que dizem os especialistas em saúde pública
O Ministério da Saúde reforça que o diagnóstico deve ser realizado por psicólogos ou psiquiatras, a partir de avaliação clínica. No Sistema Único de Saúde (SUS), a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) oferece atendimento integral e gratuito, incluindo psicoterapia e, quando necessário, tratamento medicamentoso.
O tratamento envolve mudanças de rotina, férias quando indicadas, práticas de autocuidado, atividade física regular e exercícios de relaxamento. Quando não tratado adequadamente, o quadro pode evoluir para depressão grave e até internações.
Como prevenir
Daiane sugere práticas acessíveis e transformadoras para evitar o esgotamento:
– criar pausas intencionais, mesmo de cinco minutos;
– reconhecer emoções sem julgamentos;
– estabelecer limites claros;
– reduzir a multitarefa;
– manter hábitos mínimos de autocuidado;
– aprender a dizer “não” sem culpa;
– desacelerar antes que o corpo faça isso à força.
“Cuidar de si não é egoísmo, é responsabilidade com a própria vida. Não espere chegar ao limite para pedir ajuda. Cuidar da mente não é só tratar o sofrimento, é fortalecer a vida. Cada pessoa merece se sentir bem, com leveza, propósito e presença. Saúde mental precisa ser prioridade, e não plano B”, finaliza a psicóloga.