Bombeiro voluntário de Pomerode, integrante de Grupo de Resgate de Alto Risco, conta experiências em resgates no RS
Giuliano Bagattini esteve com o GERAR (Grupo de Resgate de Alto Risco de Jaraguá do Sul), um dos primeiros grupos a auxiliar nos resgates no estado vizinho
Giuliano Bagattini (à direita), faz parte do GERAR e esteve no grupo enviado ao Rio Grande do Sul. (Foto: Arquivo pessoal)
Um bombeiro voluntário que atua em Pomerode, fez parte de um dos grupos catarinenses que auxiliaram nos resgates realizados no Rio Grande do Sul, nos primeiros dias da tragédia que atinge boa parte do estado.
Giuliano Bagattini é diretor de comunicação e integrante operacional do Grupo de Resgate de Alto Risco de Jaraguá do Sul (GERAR), acionado para ajudar no resgate de vítimas das chuvas no estado vizinho. Nesta semana, o Grupo voltou a ser acionado no estado vizinho e Bagattini mais uma vez irá auxiliar na atuação do GERAR no RS.
O GERAR começou suas atividades em 2008 e é composto por bombeiros, policiais militares, profissionais da saúde, como enfermeiros, técnicos em enfermagem e médicos. O Grupo pode atuar em nível nacional e internacional, sendo especialista em situações de alto risco, desabamento e colapso de estruturas, enchentes, deslizamentos e movimentação de massa, resgate aquático, com ênfase em enchentes, resgate em altura, busca e resgate em áreas remotas.
“Fomos acionados por meio de um ofício de atuação da Casa Civil do RS no dia 1º de maio, por termos uma aeronave e a possibilidade de nos deslocarmos por meio próprios. Esta aeronave é do nosso piloto, que é militar da reserva e atuou inclusive nos resgates do terremoto no Haiti. Assim que recebemos o contato, preparamos a equipe e fui escalado entre os tripulantes operacionais da aeronave. Foi minha primeira missão com resgate aéreo”, conta Bagattini.
Na madrugada de 1º de maio, a equipe do GERAR saiu de Porto Belo rumo ao Rio Grande do Sul e, segundo o bombeiro, só foi possível continuar com o deslocamento devido a experiência do piloto, já que o tempo estava ruim. A equipe foi obrigada a parar em Capão da Canoa, pois não havia condições climáticas de seguir para a Serra Gaúcha. O acionamento inicial havia sido feito nos municípios de Carlos Barbosa e Feliz.
“No dia seguinte ainda não conseguimos chegar à região da Serra e nossa meta era chegar em Novo Hamburgo, pois tínhamos acionamento em Carlos Barbosa e depois em Feliz. Então fomos até Porto Alegre, pelo Litoral. Na capital gaúcha, que ainda não havia sofrido com a cheia do Guaíba, abastecemos e tentamos seguir viagem de novo, poucas horas antes de o aeroporto ficar alagado. Levamos quase três horas para chegar em Lajeado, em uma viagem mais tensa, devido às condições climáticas, com pouca visibilidade e um teto de voo baixo. Pousamos em Lajeado, onde o caos já estava instaurado. Pegamos uma primeira missão de transporte de medicamentos, pois a cidade estava dividida pelo Rio, então fazíamos este transporte entre os lados”, conta Bagattini.
A equipe do GERAR iria parar em Bento Gonçalves para abastecer e depois seguir às cidades onde houve o acionamento, mas quando chegou em Bento Gonçalves, foi solicitado que os membros do GERAR ficassem no município, pois, segundo o bombeiro, estava um caos e havia centenas de pessoas que precisavam de resgate. Como a necessidade já não era tão grande em Carlos Barbosa e Feliz, permaneceram em Bento Gonçalves.
“Em Bento Gonçalves, havia a necessidade de fazer resgates mais complicados, que exigiam mais conhecimento técnico. Quando chegamos lá, havia mais duas aeronaves, depois chegou mais uma, então ficamos em quatro aeronaves para os resgates. Recebemos as coordenadas e partimos para as missões, que iam acontecendo uma atrás da outra. Saímos com a aeronave, e voltávamos com cinco, seis pessoas, durante dois dias intensos, com o dia inteiro de trabalho”, relembra o bombeiro de Pomerode.
Ainda segundo Bagattini, dois dias em Bento Gonçalves, foram resgatadas cerca de 500 pessoas, sendo que mais de 200 foram resgatadas pela equipe do GERAR. “As missões que tinham mais complexidade eram passadas a nós, pela experiência do nosso piloto e da equipe. Resgatamos todos os que precisavam ser resgatados nas missões direcionadas a nós, não deixamos ninguém para trás. Inclusive, no último dia, havia seis pessoas em uma área de risco, mas não cabiam todos na aeronave. Então, um pai acabou ficando e houve uma situação de desespero da família, mas o nosso piloto garantiu que voltaria para resgatá-lo. E mesmo com as recomendações para que ele não fosse, porque já estava escurecendo, nosso piloto foi e conseguiu trazer este homem em segurança”, relembra.
Bagattini comenta, ainda, que foram diversas as situações marcantes ao longo de dois dias. Uma delas foi o resgate de uma mulher que estava em uma área de risco e que tinha dificuldade de locomoção, mas a equipe do GERAR conseguiu levá-la a um local seguro e fazer com que recebesse a atenção à saúde necessária.
Outro caso emocionante foi o resgate de uma moça, feito pelo GERAR, que buscava por sua família. Os familiares dela, segundo Bagattini, foram resgatados em outro ponto e levados ao aeroporto, onde foi o reencontro.

Fotos: Isadora Brehmer / JP / Arquivo pessoal
“Presenciar este momento foi muito emocionante. Lembro também do resgate de uma idosa, de 94 anos, que nunca havia andado de helicóptero, e que foi trazida por nós para o aeroporto. Houve pessoas com patos, galinhas na aeronave, ou seja, que tinham afetividade grande com os animais, foram inúmeras situações”, enumera o bombeiro.
Para o membro do GERAR, a experiência no Rio Grande do Sul foi inédita para o grupo, pela dimensão do ocorrido. “Eu era o com menos experiência, os demais haviam tido experiências como Brumadinho, Doutor Pedrinho, mas todos ficamos chocados na mesma proporção, pois nunca havíamos nos deparado com algo assim. A tragédia afetou mais da metade do estado do Rio Grande do Sul, não apenas uma cidade ou uma região”, pondera.
Após a experiência no estado vizinho, Bagattini reforça que o sentimento, hoje, é de dever cumprido e agora que vão retornar para mais auxílio ao RS, garante que estará focado na missão de sempre ajudar quem precisa.
“É meu terceiro ano como bombeiro, algo que é minha vocação. Sou formado em publicidade, mas achei minha vocação como bombeiro. Temos um lema, que é sempre estar preparado, e é algo que eu faço por amor. Somos um instrumento na mão de Deus, e Ele me coloca onde eu poderei ajudar as pessoas. Por mais que a tragédia choque a gente, naquele momento eu estou trabalhando, sou bombeiro, resgatista, minha missão é salvar as pessoas e trazê-las em segurança. A pressão vem em casa, quando a emoção surge, e neste momento felizmente temos a família conosco, para dar um alento”, finaliza.
Até o momento, todas as equipes do GERAR que atuaram no Rio Grande do Sul já resgataram mais de mil pessoas, sendo 200 por resgate aéreo e 800 por terra e água.
