AVC: como identificar e prevenir?
Especialista explica o que causa um AVC, como ele é tratado e quais as formas de prevenção do Acidente Vascular Cerebral
Foto: Envato Elements
O Acidente Vascular Cerebral (AVC), é uma das principais causas de morte e incapacitação no mundo. No Brasil, é a segunda doença que mais mata e a principal causa de incapacidade, no mundo.
Segundo o Dr. Leandro Jose Haas, Neurocirurgião – Neurorradiologista Intervencionista (CRM 8312 RQE 6080 e 13022), professor de Neurocirurgia na Furb e coordenador do curso de Medicina na Furb, o AVC ocorre quando há uma alteração no fluxo sanguíneo que chega ao cérebro, causando a morte de células nervosas.
“Aproximadamente 70% das pessoas não retorna ao trabalho após um AVC devido às suas sequelas, e 50% ficam dependentes de outras pessoas no dia a dia. Pode ocorrer em qualquer idade, inclusive nas crianças, mas costuma ser mais frequente em mais idosos e pessoas com problemas cardiovasculares. A incidência de AVC vem crescendo cada vez mais entre os jovens, ocorrendo em 10% de pacientes com menos de 55 anos, e a Organização Mundial de AVC (World Stroke Organization) prevê que uma a cada seis pessoas no mundo terá um AVC ao longo de sua vida. No cérebro ele pode se apresentar como uma isquemia cerebral, onde uma área do cérebro sofre falta de circulação, ou uma hemorragia cerebral, quando uma artéria ou uma veia extravasa o sangue no parênquima cerebral”, explica Haas.
Em Pomerode, segundo dados do Corpo de Bombeiros Voluntários, entre o período de 1º de janeiro de 2024 e 12 de novembro de 2024, foram atendidos 14 casos de AVC pela corporação. Já entre 1º de janeiro de 2023 e 12 de novembro de 2024, foram 29 ocorrências de AVC atendidas.
Ainda, de acordo com o Hospital e Maternidade Rio do Testo, entre 1º de janeiro e 13 de novembro, foram 19 pacientes atendidos com Acidente Vascular Cerebral, não especificado como hemorrágico ou isquêmico.
De acordo com o Ministério da Saúde, a doença cardiovascular afeta 15 milhões de pessoas anualmente, sendo que 5,5 milhões não sobrevivem e outras 5 milhões ficam com sequelas permanentes, impactando drasticamente na saúde pública e na qualidade de vida dos pacientes e de suas famílias.
O acidente vascular cerebral, que ocorre predominantemente entre adultos de meia-idade e idosos, pode ser classificado em isquêmico, hemorrágico intracerebral e hemorragia subaracnóide. A forma isquêmica representa entre 75% e 85% dos casos, ocorrendo quando há obstrução em um vaso sanguíneo que leva sangue ao cérebro, muitas vezes causada por coágulos resultantes de aterosclerose ou fibrilação atrial.
De acordo com uma reportagem da CNN Brasil, no Brasil, cerca de 39.345 brasileiros perderam a vida devido ao AVC entre janeiro e agosto de 2024, de acordo com o Portal de Transparência do Registro Civil (ARPEN Brasil).

O neurocirurgião e coordenador do curso de Medicina da FURB explica que há dois tipos de AVC, o isquêmico e o hemorrágico.
“O AVC isquêmico ocorre pela obstrução ou redução do fluxo sanguíneo em uma artéria cerebral, causando falta de circulação no seu território vascular. Ele é responsável por 85% dos casos de AVC. O AVC hemorrágico causado pela ruptura espontânea (não traumática) de um vaso, com extravazamento de sangue para o interior do cérebro (hemorragia intracerebral), para o sistema ventricular (hemorragia intraventricular) e/ou espaço subaracnóideo (hemorragia subaracnóide)”, esclarece.
Os sintomas de que uma pessoa possa estar sofrendo um AVC são: fraqueza ou formigamento na face, braço ou perna, especialmente em um lado do corpo; desvio da rima labial, com a boca torta ao falar; confusão mental, alteração da fala ou fala enrolada; alteração da visão, com embaçamento ou visão dupla, em um ou ambos os olhos; alteração do equilíbrio súbita, da coordenação, tontura ou desequilíbrio para andar; dor de cabeça muito forte, súbita, sem história de dor anterior.
Principais causas do AVC
O Dr. Leandro Haas enumera que os principais fatores de risco para que uma pessoa sofra um Acidente Vascular Cerebral são hipertensão arterial, diabetes, estresse, tabagismo e obesidade. Além disso, há condições que podem criar uma predisposição para a ocorrência do AVC.
“Uma situação de stress importante, aumento súbito de pressão arterial. Um problema não resolvido. O diagnóstico do AVC é feito por meio de exames de imagem, que permitem identificar a área do cérebro afetada e o tipo do derrame cerebral. Tomografia computadorizada de crânio é o método de imagem mais utilizado para a avaliação inicial do AVC isquêmico agudo, demonstrando sinais precoces de isquemia”, esclarece.
Possíveis sequelas e tratamento
Segundo o neurocirurgião, no caso do AVC isquêmico a trombólise pode ser realizada endovenosa na admissão até 4,5 horas do início do evento, com monitorização neurológica e clínica em UTIs ou unidades de AVC.
“Habitualmente não se recomenda a redução da pressão arterial (PA) em pacientes com AVCI na fase aguda; contudo, vários autores já mostraram que a PA sistólica elevada, acima de determinados níveis, está fortemente associada à transformação hemorrágica e a piores resultados no tratamento trombolítico. Assim, deve-se reduzir a pressão arterial do paciente para níveis que permitam a este receber o trombolítico. Após a infusão do rt-PA, a pressão arterial deve ser mantida abaixo dos parâmetros mencionados por pelo menos 24 horas”.
Outra opção terapêutica que está disponível no tratamento do AVC isquêmico, de acordo com o Dr. Leandro Haas, é a trombectomia mecânica, na qual é possível estender esta janela terapêutica para até 24 horas, em alguns casos; constituindo-se na retirada do coágulo de dentro do vaso ocluído promovendo a restauração do fluxo arterial.

Dr. Leandro Jose Haas, Neurocirurgião – Neurorradiologista Intervencionista (CRM 8312 RQE 6080 e 13022), professor de Neurocirurgia na Furb e coordenador do curso de Medicina na Furb. (Foto: Arquivo pessoal)
“No AVC hemorrágico provocado por um aneurisma cerebral roto, que gerou uma hemorragia subaracnóidea, temos disponíveis, a microcirurgia (clipagem do aneurisma) ou a embolização endovascular do aneurisma com implante dos coils (micromolas), para o fechamento e nos AVC hemorrágicos espontâneos provocados pelo pico de pressão alta, muitas vezes o sangramento é reabsorvido lentamente, tendo um controle rigoroso da pressão alta. Em alguns casos quando existe sangramento intraventricular colocamos um catéter de drenagem no interior do ventrículo e nos hematomas intracerebrais grandes, avaliamos a necessidade de cirurgia com drenagem do hematoma”.
No entanto, mesmo nos casos em que o tratamento é possível, o AVC pode deixar sequelas nos pacientes acometidos por ele.
“Depende da área afetada e a extensão do AVC. Na região frontal, pode ter alterações motoras, como falta de força no braço, perna. Na região parietal alterações motoras ou de sensibilidade. Na região occipital alterações visuais. Na região temporal, alterações de linguagem e fala. No cerebelo alteração da marcha, alterações do equilíbrio. No tronco cerebral alterações mais graves, coma, perda de controles autonômicos e até a morte”, alerta Haas.
Ainda de acordo com o coordenador do curso de Medicina da FURB, o AVC pode ser considerado um problema de saúde comum em nossa região. “No Vale do Itajaí e no Estado temos uma alta prevalência de AVC, visto que, na sua grande maioria, os habitantes são descentes de alemães e italianos, questões alimentares influenciam neste aspecto; também a presença de muitos hipertensos, diabéticos e transtornos de dislipidemias (colesterol e triglicerídeos altos)”, afirma.
No entanto, há alguns hábitos e cuidados que podem ser adotados no dia a dia e que ajudam a prevenir o AVC, como por exemplo evitar desenvolver fatores de risco como hipertensão, diabetes, estresse, tabagismo e obesidade.
“O risco de AVC pode ser reduzido evitando os fatores de risco, fazendo atividade físicas, caminhada, andando de bicicleta. Muitos aspectos contribuem para o aparecimento de um AVC e de outras doenças crônicas, como câncer e diabetes. Alguns desses fatores não podem ser modificados, como a idade, a raça, a constituição genética e o sexo. Outros fatores, entretanto, dependem apenas da pessoa e são os principais para prevenir essas doenças”, destaca o neurocirurgião.
Alguns hábitos simples podem ajudar nesta prevenção, como:
– Não fumar;
– Não consumir álcool;
– Não fazer uso de drogas ilícitas;
– Manter alimentação saudável;
– Manter o peso ideal;
– Beber bastante água;
– Praticar atividades físicas regularmente;
– Manter a pressão sob controle;
– Manter a glicose sob controle.
“Estimula-se o treinamento de pessoal na área específica do Pronto Socorro, SAMU, para aperfeiçoamento do diagnóstico. Em todos os locais em que se realiza tratamento do AVC com agentes trombolíticos, em qualquer parte do mundo, o fator limitante mais frequente é o tempo decorrido entre o início do processo de AVC e a chegada do paciente ao hospital, não permitindo uma avaliação adequada por equipe treinada para este fim, em tempo de indicar o tratamento com segurança. Por este motivo orientamos, no inicio de algum sintoma suspeito, chame o SAMU ou que sua família o leve mais rapidamente ao Pronto Socorro mais próximo de sua casa”, finaliza o especialista.
