Após acidente de trabalho que o deixou paraplégico, mãe de jovem de Jaraguá do Sul faz apelo por empatia e revela rotina de cuidados 24 horas
João Victor sofreu uma queda de quatro metros durante o expediente em 2024. Desde então, enfrenta uma lesão medular completa enquanto a mãe dedica praticamente todo o dia aos seus cuidados e busca dar mais qualidade de vida ao filho
Foto: Arquivo Pessoal
Na rotina de uma mãe, não existem finais de semana, feriados ou férias. Desde o dia 22 de janeiro de 2024, essa realidade ganhou um novo significado para uma moradora de Jaraguá do Sul, Claudeleia da Silva, que passou a dedicar praticamente todas as horas do dia aos cuidados do filho, João Victor Pinheiro, após um grave acidente de trabalho que o deixou paraplégico.
A história, compartilhada pela própria família, é marcada por desafios diários, reabilitação e muita perseverança. Agora, a mãe decidiu tornar sua realidade pública com um objetivo: despertar empatia e mostrar o que realmente significa cuidar de uma pessoa com lesão medular.
Um acidente que mudou tudo
Antes do acidente, João Victor levava uma vida ativa. Gostava de ir à praia, nadar, fazer trilhas, acampar com a família, andar de bicicleta, jogar videogame, estudar e trabalhar.
Tudo mudou em 22 de janeiro de 2024. Enquanto trabalhava em uma empresa de grande porte em Jaraguá do Sul, ele caiu de aproximadamente quatro metros de altura ao buscar um material em um mezanino.
Segundo o relato da mãe, o local onde ocorreu a queda possuía um portão de segurança que deveria permanecer fechado, mas ele não estaria funcionando no momento do acidente.

Foto: Arquivo Pessoal
João foi socorrido consciente, porém perdeu a consciência ao chegar ao hospital, onde precisou ser entubado e internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Após exames, a família recebeu uma notícia devastadora: ele havia sofrido fraturas nas vértebras T7 e T8, além de uma lesão medular completa.
“Quando o médico disse que ele havia quebrado a T7 e a T8 e tinha uma lesão medular completa, nosso mundo desabou. Depois que ele acordou na UTI, mexemos na perna dele e ele não sentia nada. Foi um desespero enorme”, relembra a mãe.
Durante a internação, João passou por cirurgia de artrodese na coluna, precisou de drenagem no tórax devido ao acúmulo de líquido no pulmão e permaneceu cerca de 30 dias hospitalizado.
A casa e a vida precisaram mudar
O retorno para casa foi um dos momentos mais difíceis da família.
Sem recursos para adaptar a residência, João chegou a dormir na cozinha, onde os cuidados eram mais fáceis de serem realizados.
Nos meses seguintes, ele iniciou um intenso processo de reabilitação. Passou 49 dias no Hospital Lucy Montoro, em São Paulo, e, posteriormente, participou de um novo programa de reabilitação em Brasília, onde permaneceu por 26 dias.
Segundo a mãe, as experiências proporcionaram avanços importantes, tanto físicos quanto emocionais.

Foto: Arquivo Pessoal
“Ele voltou com vontade de aprender coisas novas, fez amizades e passou a conversar mais com as pessoas.”
Mesmo assim, uma cirurgia no quadril esquerdo acabou interrompendo temporariamente a fisioterapia, atrasando parte da recuperação.
Hoje, João realiza fisioterapia em uma clínica especializada em reabilitação neurológica e frequenta academia de três a quatro vezes por semana.
Uma rotina que começa às seis da manhã
Os cuidados com João ocupam praticamente todo o dia da mãe.
A rotina começa às 6h, com a primeira sondagem urinária. Ao longo do dia, o procedimento precisa ser repetido aproximadamente a cada quatro horas, além da administração de medicamentos, higiene, troca de fraldas, preparo das refeições, deslocamentos para fisioterapia e academia e auxílio nas atividades diárias.
Segundo ela, a dedicação vai das 6h às 22h, horário da última sondagem.
Apesar das dificuldades, João conquistou avanços importantes desde que voltou para casa.

Foto: Arquivo Pessoal
Hoje ele consegue ajudar durante o banho, realiza algumas transferências entre cama e cadeira de rodas com mais autonomia e participa ativamente do próprio processo de reabilitação.
“O João é um menino sonhador. Ele fala que não vê a hora de voltar a andar e poder fazer tudo sozinho, sem depender de ninguém.”
Os desafios vão além da cadeira de rodas
A mãe explica que muitas pessoas não imaginam a complexidade dos cuidados exigidos por uma lesão medular.
Como João não possui sensibilidade nas pernas, ele também não percebe quando precisa urinar ou evacuar. Isso exige monitoramento constante para evitar infecções, feridas e outras complicações.

Foto: Arquivo Pessoal
Além disso, ela relata que o filho possui deficiência intelectual leve e Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), fatores que tornam o acompanhamento ainda mais necessário.
Segundo a família, parte dos materiais utilizados nos cuidados é fornecida pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e outra parte pela empresa onde ocorreu o acidente. No entanto, ela afirma que diversos itens essenciais acabam sendo comprados com recursos próprios.
“Quando precisei de lenços umedecidos para a higiene dele, disseram que isso não fazia parte do pacote. O que eles não ajudam, eu tento conseguir pelo SUS e, quando posso, compro.”
O sonho de adaptar a casa
Entre as maiores dificuldades enfrentadas atualmente estão as limitações financeiras.

Foto: Arquivo Pessoal
A família sonha em adaptar uma residência para oferecer mais conforto e autonomia ao jovem, principalmente um banheiro acessível.
A mãe também relata que precisará deixar o apartamento onde mora e se mudar para um imóvel alugado, o que representa um novo desafio financeiro.
“Quero conseguir dar uma qualidade de vida melhor para o João, adaptar a casa para que ele se sinta melhor e tenha acesso ao que precisa, sem precisar ficar pedindo ajuda.”
Um pedido por empatia
Mais do que contar a própria história, a mãe espera que o relato ajude a conscientizar outras pessoas sobre a realidade enfrentada por famílias que convivem diariamente com uma lesão medular.

Foto: Arquivo Pessoal
Ela afirma que muitas vezes enfrenta julgamentos de quem desconhece a intensidade dos cuidados necessários.
“Todos os dias eu olho para mim e penso: mais um dia eu venci. Não sei como dou conta de tudo. Me vejo como uma mulher forte e guerreira que vai até o fim para lutar pelo meu filho.”
Ao final do depoimento, ela deixa um pedido simples.
“Quero que as pessoas olhem para a nossa realidade com outros olhos. Que vejam o quanto eu faço por ele todos os dias, sem descanso, e o quanto o João se esforça para conquistar cada pequena evolução. Eu só queria mais empatia.”

Foto: Arquivo Pessoal
Como ajudar
Quem desejar contribuir com João Victor e sua família pode fazer uma doação via Pix para ajudar nas despesas com tratamentos, medicamentos, adaptações e demais custos da rotina de cuidados.
Pix (CPF): 003.530.149-07
A chave está em nome da mãe de João, Claudeleia, que hoje é a principal cuidadora do filho e dedica integralmente seus dias à sua assistência e reabilitação.