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Aos 84 anos, criador de orquídeas preserva histórias, conhecimento e paixão pelas plantas em Pomerode

Morador da cidade há cerca de cinco anos, Baldur Herr carrega uma trajetória marcada pela imigração para a Alemanha, atuação na indústria e décadas dedicadas ao cultivo e estudo de orquídeas no Sul do Brasil.

22 de junho de 2026

Foto: Isadora Brehmer / Jornal de Pomerode

Entre vasos suspensos, espécies raras e flores vindas de diferentes partes do mundo, o orquidário de Baldur Herr revela muito mais do que um hobby cultivado ao longo da vida. Aos 84 anos, o morador de Pomerode transformou décadas de experiências pessoais e profissionais em uma relação profunda com as orquídeas, plantas que, segundo ele, ajudaram a enfrentar períodos de estresse e trouxeram tranquilidade ao longo dos anos.

Nascido em Santa Catarina e criado no Paraná, Baldur viveu uma juventude marcada por mudanças e desafios. Em 1960, serviu o Exército no Rio de Janeiro e, logo depois, integrou um grupo de jovens brasileiros recrutados para trabalhar na Alemanha, país que buscava reconstruir sua economia após os impactos da Segunda Guerra Mundial.

“Naquela época, a Alemanha tinha dinheiro, mas não tinha mão de obra. Muitos homens haviam morrido na guerra e eles procuravam jovens para trabalhar lá. Eu terminei o Exército e fui para a Alemanha na segunda turma de brasileiros. A maioria era de Santa Catarina. Do Paraná foram poucos, mas eu fui um deles. Era uma oportunidade grande para quem queria crescer profissionalmente”, relembrou.

Depois de cumprir o primeiro contrato de trabalho, Baldur decidiu seguir para Berlim justamente em um dos períodos mais tensos da história europeia: a construção do Muro de Berlim. Enquanto milhares de pessoas deixavam a cidade por medo dos conflitos da Guerra Fria, ele fez o caminho inverso.

“Berlim era uma ilha capitalista dentro da Alemanha comunista. Muita gente estava saindo por medo da Guerra Fria, mas eu e um amigo fomos para lá porque existia incentivo para trabalhar e estudar ao mesmo tempo. Trabalhei durante o dia e estudei à noite por quase nove anos. Foi um período muito importante da minha vida, de muito aprendizado e crescimento”, contou.

Na Alemanha, Baldur trabalhou na Siemens, empresa multinacional onde desenvolveu experiência técnica e profissional. Anos depois, foi transferido para Curitiba para auxiliar na implantação de uma nova fábrica da companhia no Brasil.

A responsabilidade era grande. Em pouco tempo, precisou ajudar a estruturar linhas de produção e coordenar o treinamento de centenas de funcionários em uma operação considerada complexa para a época. “Era um trabalho bastante estressante. Em menos de dois anos, o departamento já tinha mais de 300 pessoas e toda aquela mão de obra precisava ser treinada em uma tecnologia nova. A cobrança dentro das multinacionais era muito forte e eu sentia bastante a pressão do trabalho. Foi justamente nesse período que as orquídeas apareceram na minha vida”, afirmou.

Foto: Isadora Brehmer / Jornal de Pomerode

 

O contato com as plantas surgiu por incentivo de um amigo orquidófilo de Curitiba. Inicialmente, Baldur visitou o orquidário do colega apenas por curiosidade, mas rapidamente percebeu que o cultivo poderia se transformar em uma atividade terapêutica.

“Ele disse para eu começar a cultivar orquídeas porque isso ajudaria a aliviar o estresse. Eu fui conhecer o orquidário dele, achei tudo muito interessante e comecei devagar. Como me criei na roça até os 18 anos, sempre tive uma ligação forte com a natureza. Quando eu chegava em casa cansado do trabalho, ia mexer nas plantas e aquilo me fazia muito bem. Em pouco tempo eu me sentia mais tranquilo, mais leve”, destacou.

O interesse transformou-se em paixão em uma época em que as orquídeas ainda eram consideradas raridade no Brasil. Segundo Baldur, há cerca de quatro décadas poucas cidades promoviam exposições voltadas ao cultivo das flores, e adquirir determinadas espécies exigia viagens e investimentos elevados.

“Hoje as pessoas encontram orquídeas em qualquer mercado, mas antigamente era muito diferente. As exposições aconteciam basicamente em Joinville e Curitiba. Não existia essa facilidade de comprar planta pronta em floricultura. Muitas espécies eram vendidas em dólar e eram voltadas principalmente para colecionadores. Era um universo muito mais restrito”, explicou.

Ao longo dos anos, Baldur aprofundou seus conhecimentos e passou a frequentar exposições, encontros e associações ligadas ao universo da orquidofilia. Em Curitiba, participou da Associação Paranaense de Orquidofilia por cerca de 15 anos. Mais tarde, já morando em Balneário Piçarras, ajudou a fundar o Círculo Orquidófilo do Litoral Catarinense.

Durante esse período, também desenvolveu uma rede de contatos com colecionadores de diferentes estados brasileiros e até da Argentina. Viajava com frequência para São Paulo em busca de espécies raras e fazia intercâmbio de plantas entre produtores e apaixonados por orquídeas.

“Eu não tinha exatamente um comércio tradicional, mas fazia um intercâmbio muito forte de plantas. Muitos colecionadores me procuravam atrás de espécies específicas. Eu buscava plantas em orquidários de São Paulo e repassava para clientes daqui do Sul e também da Argentina. Era algo muito conhecido entre os colecionadores naquela época”, relatou.

Foto: Isadora Brehmer / Jornal de Pomerode

 

Há cerca de cinco anos, Baldur mudou-se para Pomerode. Hoje, mantém um orquidário menor do que os anteriores, mas ainda repleto de espécies vindas de diferentes partes do mundo. Atualmente, cultiva aproximadamente 600 plantas, número significativamente inferior às cerca de 8 mil que chegou a possuir em Piçarras.

“Em Piçarras eu tinha um orquidário de aproximadamente 240 metros quadrados e mais de 8 mil plantas. Mas a idade também faz a gente reduzir um pouco. Hoje eu prefiro cuidar de menos plantas e conseguir dar atenção adequada para todas elas. Orquídea exige cuidado, observação e paciência”, comentou.

No espaço mantido em Pomerode, Baldur cultiva espécies nacionais e internacionais, incluindo variedades originárias da Tailândia, México, Colômbia e diferentes regiões brasileiras. O conhecimento técnico acumulado ao longo de décadas permite explicar detalhes sobre clima, adaptação e formas corretas de cultivo.

Segundo ele, muitas espécies não conseguem sobreviver quando são levadas para regiões com clima diferente daquele em que foram produzidas. O colecionador relembra, inclusive, de uma expedição realizada ao Tocantins, nos anos 1990, para resgatar plantas de uma área que seria inundada por uma represa.

“Nós recebemos autorização do Ibama para retirar plantas das áreas que seriam alagadas. Trouxemos muitas espécies para Curitiba, mas praticamente todas morreram porque não se adaptaram ao clima. Cada orquídea possui necessidades muito específicas. Por isso eu sempre digo que as pessoas precisam saber de onde vem a planta antes de comprar”, explicou.

Além do cultivo, Baldur também participa da comissão de avaliação de exposições de orquídeas em Santa Catarina, ajudando na escolha das plantas destaque em eventos do setor.

Mesmo com a popularização das orquídeas nos últimos anos, ele acredita que o verdadeiro encanto das plantas permanece ligado à relação criada entre cultivador e natureza.

“As plantas são seres vivos e elas sentem a presença da pessoa. Quem cultiva precisa desenvolver afinidade com elas, entender o tempo de cada espécie e aprender a observar os sinais que elas dão. Isso traz paz de espírito. É algo que faz bem para a mente e para a vida”, afirmou.

Para Baldur, o universo das orquídeas continua sendo fascinante justamente pela diversidade e pelas descobertas constantes. Entre flores raras, espécies híbridas e histórias acumuladas ao longo de décadas, o orquidário em Pomerode segue sendo não apenas um espaço de cultivo, mas também um reflexo da própria trajetória de vida do colecionador.

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