A arte como terapia e expressão
Artistas falam sobre suas técnicas de trabalho e como a arte traz coisas boas às suas vidas
Foto: Arquivo pessoal
A arte sempre fez parte da vida de Barbara Schmal, nascida na Alemanha e hoje moradora de Pomerode, e de Raica Koepsel Barbon, duas artistas que participaram do evento em homenagem ao Dia do Artista, promovido em agosto pela Refopa Joli.
Barbara conta que a arte começou a fazer parte de sua vida ainda na escola, já que desde o ensino fundamental teve aulas teóricas e práticas sobre a arte e artesanato (chamado Kunst- und Werkunterricht), com professores mestres.
Como a participação nas aulas era parte do currículo, Barbara foi aprendendo e também se encantando cada vez mais pela arte, também devido a visitas a exposições e museus.
“Em casa eu continuava desenhando e fazendo trabalhos artesanais diversos: copiando pinturas clássicas de livros e produzindo joias e pequenos quadros esmaltados. Meus pais sempre me apoiavam e nunca me negaram a compra dos materiais e equipamentos necessários. Quando me casei e passei a morar em São Paulo, nos anos 70, e me tornei aluna do pintor Edmundo Migliaccio. Com ele iniciei na pintura ‘neoclássica’, praticando com lápis, giz pastel, tinta à óleo, pintando retratos, paisagens, naturezas mortas. Posteriormente, com filhos pequenos e trabalhando, não sobrava muito tempo para minhas artes. Passei praticar pintura em seda: blusas, lenços, capas para almofadas, e pela primeira vez comercializei as peças. Com a ajuda de livros aprendi a técnica de aquarela que gosto muito. As minhas produções se tornaram presentes para familiares e amigos”, conta Barbara.
“Eu desenho e pinto desde que me lembro. Sempre adorei lápis de cor, amava ver os trabalhos de amigos com mais habilidades que eu. Inspirava-me nesses amigos para aperfeiçoar minhas técnicas”, revela Raica.
As duas artistas trabalham com técnicas distintas. Barbara tem como principal técnica a reprodução de fotografias antigas, muitas delas em preto e branco, em pinturas e desenhos.
“Herdei da minha mãe álbuns da nossa família, com fotografias antigas em preto e branco. Para preservar, escanei o acervo e experimentei a coloração digital das fotografias para dar mais vida a elas. Mas não me dei bem com a tecnologia. Como estou com dificuldade nas mãos em trabalhar com pincel e tinta, comecei experimentar canetas de diversos tipos: hidrográfica, permanente, também lápis de cor supersoft – todos mais fáceis de segurar e utilizar na mão. Atualmente uso para desenhar e para colorir fotos canetas com tinta pigmentada à base de álcool. Elas fixam bem na fotografia ampliada e permitem a sobreposição de cores. Também as uso em papéis com gramaturas acima de 180 grs. Sempre combino várias marcas de canetas, sempre em busca de tons diferentes e cores vivas e cintilantes”, explica.
Para Barbara o principal desafio em reproduzir esta técnica é o limite da paleta de cores, que é menor do que a oferta de tintas em tubos. “E também ainda estou testando a duração da tinta pigmentada a base de álcool nas fotografias, quanto tempo ela permanece ‘viva’ na foto, no papel”.

Barbara Schmal e um de seus quadros. (Foto: Arquivo pessoal)
Raica trabalha com uma técnica russa, chamada zhostovo, que exige bom domínio das pinceladas, tal como outra especialidade dela, o Bauernmalerei, além de conhecimento de perspectiva, luz, sombra, cores e profundidade.A artista está se especializando no zhostovo para também incluir esta técnica em suas aulas, já que também atua como professora de Bauernmalerei.
“Atualmente trabalho mais com pintura em madeira e MDF, na técnica do Bauernmalerei, que é uma técnica nica de pintura de origem alemã muito admirada por várias pessoas. Meu primeiro contato com essa técnica aconteceu através da minha sogra que fazia curso para aprendê-la e eu a imitava. Eu produzo na maior parte do meu tempo livre, inclusive finais de semana. Além de ser meu trabalho, a pintura também é um hobbie que me traz paz e tranquilidade. Atualmente comercializo minhas peças na loja Das Haus, em Pomerode; e na Kunst Haus, em Blumenau”, conta Raica.
A artista e professora de Bauernmalerei também comenta que a arte tem um significado especial em sua vida, pois a ajudou a superar algumas fases difíceis, embora tenha enfrentado momentos em que houve o bloqueio na criatividade.
“A arte transparece a emoção do artista e eu amo distribuir sentimentos bons, alegria, vibração, amor, carinho. Os desafios são similares a qualquer outra profissão. Precisamos ter acesso a cursos, reciclagem. Estamos sempre estudando e pesquisando. Porém o reconhecimento é o principal desafio, não só para a pintura mais específica no artesanato, como também do artesanato em geral. As pessoas ainda acreditam que o trabalho artesanal precisa ser barato, e eu não acredito nisso! Eu investi e invisto muito na minha arte para comercializá-la em quantidade e a valores simbólicos”, comenta.

Raica produzindo uma peça com a técnica zhostovo. (Foto: Arquivo pessoal)
Barbara, por outro lado, pensa na arte apenas como uma atividade prazerosa e ainda não pensou nela como um fim comercial, embora esteja aberta às possíveis oportunidades que possam surgir.
“Costumo desenhar sempre quando eu tiver um tempo livre. Me considero uma eterna aprendiz, alguém que continua buscar novas ideias, técnicas e materiais nas Artes. Alguem uma vez disse que a arte é um meio de comunicação para expressar amor, verdade e beleza. Gosto dessa definição. Conhecer a arte de outras pessoas, visitando exposições em museus e galerias como também criar as minhas artes, sempre me ajudou a relaxar, a processar problemas as vezes, a renovar minhas energias. É terapia. Também entendo arte como um desafio de testar os limites da minha capacidade visual, técnica e criativa. Morando em Pomerode há dois anos, me vejo observando diariamente a Natureza ao redor, em particular as nuvens, a floresta ‘vaporizada’, as casas de enxaimel – pensando que ainda vou poder desenhar tudo isso”, declara Barbara.
Por fim, Raica comenta que é preciso incentivar a arte e também os novos artistas.
“Os artesãos tem muita insegurança na hora de precificar suas peças. Eles acreditam que se cobrarem o que elas realmente valem não venderão nada. É uma questão cultural enraizada na nossa região. Trabalho muito essa ideia com meus alunos de pintura. A arte é muito importante para a transformação do ser humano, qualquer forma de expressão artística só tem a acrescentar e contribuir com o crescimento e a expansão cognitiva de uma pessoa. O cérebro busca novas conexões e sai da zona de conforto”, finaliza.
