Educação

Um ícone da educação

Garra, competência, determinação e personalidade são palavras que definem muito bem a ex-secretária de Educação e Formação Empreendedora, Neuzi Schotten.

1 de junho de 2015

Com uma vasta trajetória, que inclui especializações, publicação de livros, aulas em universidades do Vale do Itajaí e palestras de grande porte, Neuzi Schotten deixa a secretaria e aguarda a aposentadoria tão merecida, que está prestes a obter.
Imprimindo sua personalidade em projetos renomados como contraturno escolar, ensino bilíngue, capacitação de professores e funcionários da rede municipal de educação, varal literário, merendas preparadas com produtos do município e inclusão da disciplina de empreendedorismo, Neuzi Schotten demostrou em suas ações e nos desafios aceitos e superados, o quão apaixonada é pela educação e comprometida com a comunidade pomerodense.
Reflexo de tanto empenho foi fazer com que Pomerode obtivesse baixos índices de analfabetismo, renome e reconhecimento nacional no que tange a qualidade educacional de seus munícipes e os altos índices obtidos através do IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica).
O IDEB mede a qualidade de cada escola e de cada rede de ensino. O indicador é calculado com base no desempenho do estudante em avaliações do Inep e em taxas de aprovação. O índice é medido a cada dois anos e o objetivo é que o país, a partir do alcance das metas municipais e estaduais, tenha nota seis em 2022 – correspondente à qualidade do ensino em países desenvolvidos.
Já em ritmo de despedida, em 2011, Neuzi Schotten foi condecorada com o Prêmio Palma de Ouro para os 100 Melhores Secretários de Educação do Brasil. O evento reuniu Secretários de Educação e outras lideranças do segmento educacional, para vivenciar conhecimentos relevantes deste importante setor da sociedade. Os temas foram apresentados em palestras motivacionais e técnicas, rodada de ideias e apresentação de projetos.
Confira a entrevista feita pela equipe de redação do Jornal de Pomerode na sequência.

JP: Após atuar por oito anos como Secretária de Educação, qual a sensação de deixar o cargo?
Sou professora concursada e efetiva na Rede Municipal, mas atuei durante 22 anos na Secretaria de Educação como supervisora pedagógica, diretora de ensino e oito anos como secretária. Neste momento em que deixo a Secretaria de Educação dois sentimentos são muito fortes: o primeiro, tristeza pela saída, pois deixo parte de mim. Meu trabalho sempre fez parte do que sou. Nunca me senti “eu fazendo o trabalho”, mas sempre senti “o trabalho fazendo parte de mim”. Não saberia fazer outra coisa que não fosse trabalhar com a educação. Coloquei sentimentos em tudo o que fiz. O segundo, de alegria, por tudo que consegui realizar em parceria com tantas pessoas. Sabia que cada decisão que eu tomava influenciava diretamente na formação das crianças e adolescentes matriculados nas nossas escolas. Fico pensando sobre como será a vida das centenas de alunos que estão tendo o ensino bilíngue; penso sobre como será a atuação profissional dos nossos alunos depois que estão tendo a oportunidade de vivenciar experiências de empreendedorismo; fico pensando como será a vida dos nossos alunos especiais com os projetos que criamos para atendê-los melhor. Então, posso dizer que foi realizado o melhor e o que era possível em cada uma das situações, nunca perdendo de vista nosso objetivo maior: que todos os alunos aprendam e se tornem pessoas cada vez mais humanas.

JP: Quais as conquistas mais expressivas obtidas no cenário educacional pomerodense neste período?
Quando iniciei na Secretaria de Educação, em 1990, realizei minha primeira reunião pedagógica com todos os profissionais da Rede Municipal de Ensino. Esta reunião aconteceu na sala de aula da Escola Municipal Raulino Horn, no Alto da Serra. Fizemos a reunião nesta escola para homenagear a professora Renata Volkmann que estava se aposentando. O grupo coube em uma sala de aula. Deste grupo de, talvez, aproximadamente 50 ou 60 funcionários, deixo a Rede em 2012 com aproximadamente 500 funcionários. É bom observar que o aumento se deu efetivamente nas escolas e centros de educação infantil. Em 1990 abrimos a primeira creche (Rosa Borck), hoje temos nove (em CEI’s e escolas). Em 1990, as crianças especiais eram atendidas apenas na APAE, hoje estão no Ensino Regular das nossas escolas. Os anos finais do ensino fundamental também foi oferecido em escolas que tinham apenas os anos iniciais. Em 2005 incluímos a língua alemã na matriz curricular desde o primeiro ano em todas as escolas. Estendemos as horas atividades para os professores de educação infantil, foram colocados laboratórios de informática em todas as escolas, foi implantado o atendimento em turno integral, o ensino bilíngue em duas escolas, a inclusão da disciplina de empreendedorismo educacional, e tantas outras ações que não me ocorrem no momento, o que resultou no aumento do quadro de funcionários. O trabalho do secretário de educação é, essencialmente na área de gestão de pessoas, o que demanda muita dedicação e provoca desgaste físico, emocional, entre outros sentimentos. A implantação do SGE-Sistema de Gerenciamento de dados da educação, com diário eletrônico, acesso dos pais à vida escolar dos filhos, a matrícula eletrônica; a lista de espera dos CEI’s on-line, o desenvolvimento da competência leitora e escritora dos nossos alunos através da escrita de textos para o JP Escola e a participação dos pais na escrita de textos para o JP Pais, também me orgulha muito. Entretanto, me emociono, quando lembro especialmente de dois propósitos que tinha quando fui trabalhar na secretaria de educação: primeiro, estar sempre ao lado dos meus colegas de profissão e de trabalho. Não deixei sequer um momento de lutar pela minha classe, pelos meus colegas professores, procurando ser justa e adotar os mesmos critérios para todos. Segundo, me empenhar para atender as crianças nas creches, pois me lembrava de quando tinha meus três filhos pequenos e, necessitando trabalhar, não tinha um lugar digno para deixá-los, deixando-os muitas vezes com vizinhas que apenas me faziam um favor. A angústia de uma mãe e de um pai quando não têm onde deixar seus filhos me deixava sempre muito comovida.

JP: Qual foi o maior aprendizado neste período? Fica algum arrependimento?
Aprendi especialmente que o maior investimento que se deve fazer é o investimento no ser humano. O investimento vai desde a remuneração digna até o estabelecimento de uma relação mais próxima que permite olhar para cada uma das pessoas que está conosco. Talvez, o arrependimento esteja neste sentido. Muitas vezes me ocupava demais com questões técnicas e administrativas, o que me afastou do convívio mais próximo dos alunos e dos professores e funcionários da educação. Talvez eu fizesse diferente em outra oportunidade.

JP: Quais são seus projetos futuros?
Nos últimos dez anos tive uma jornada de trabalho bastante intensa, pois além de trabalhar na Secretaria de Educação (o que fiz com extrema dedicação e rigoroso cumprimento de horário, além das reuniões à noite e nos finais de semana), trabalhei com três institutos de pós-graduação. Então, três noites, em média, por semana, me deslocava para outros municípios, desde Itajaí, Tijucas, Balneário, Brusque, Blumenau e Joinville, para dar aulas. Desta forma, vou reduzir minha jornada de trabalho de 60h/s para 40h/s. Fui convidada para assumir a coordenação do curso de Pedagogia da UNIASSELVI, onde começo a trabalhar ainda nesta semana. Não darei mais aulas, para que eu possa fazer algumas coisas que até agora não tinha tido tempo de fazer. É um novo desafio. Depois de tantos anos no serviço público, vou dedicar-me à formação de professores, no setor privado. Estou feliz com isto e vou me dedicar da mesma forma como sempre o fiz no desempenho das minhas funções na Secretaria de Educação.

JP: No futuro, como gostaria de ser lembrada? Qual mensagem deixa para a comunidade e para aqueles que trabalharam ao seu lado?
Se eu for lembrada, já fico bem feliz. Mas se eu for lembrada como alguém que viveu intensamente a educação de Pomerode, fico ainda mais feliz. Talvez a mensagem que eu possa deixar é o desejo de que cada um que decide trabalhar na educação, que o faça de forma bem consciente e responsável, pois Educação é uma atividade que exige muita seriedade. Não dá para brincar de ensinar. Não dá mais para dizer que a criança não aprende, tem que se encontrar uma forma para que aprenda. Não dá para fazer isto sem entusiasmo. Acredito que este entusiasmo é a base para nossa luta pelo reconhecimento da educação no desenvolvimento de uma nação e, consequentemente, pelo reconhecimento dos profissionais da educação para que tenham as condições necessárias de vida e de trabalho.
Deixo um agradecimento muito especial a todos os pais que fizeram parte das APP’s pela intensa parceria que se estabeleceu entre nós e meu incentivo para que continuem contribuindo com as escolas.
Para a Joana, minha substituta, com a qual convivi todos estes anos, e de forma mais intensa nos últimos meses, fazendo uma transição responsável, desejo que seja muito feliz como eu fui na Secretaria de Educação e que seja abençoada com o dom do discernimento para que possa sempre tomar as decisões mais justas.

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