Esporte

Um sonho de menino, uma realização de adolescente

Matheus Felipe Peyerl ganhou uma oportunidade no Flamengo, por meio do Núcleo de Captação, localizado em Curitiba (PR).

18 de junho de 2019

“A paixão pelo futebol surgiu desde criança. Ele não podia ver uma bola, que tinha chutá-la, até mesmo dentro de casa, tanto que chegou a quebrar alguns utensílios, mas isso faz parte”. Este é um relato comum a muitos meninos brasileiros, que sonham em jogar futebol. No entanto, este é diferente, pois foi feito por Roseli Luiza Luetzow, mãe de Matheus Felipe Peyerl, 11 anos, que desde a semana retrasada, integra as categorias de base do Clube de Regatas do Flamengo.

O menino ganhou esta oportunidade por meio do Núcleo de Captação, localizado em Curitiba (PR), no qual, vinha realizando testes desde o fim do ano passado. “Ele já estava morando na capital paranaense. E num fim de semana, quando fomos visitá-lo, justamente pelo fato dele ter sentido saudade de casa, é que veio a notícia. Naquele sábado, dia 18 de maio, fomos informados que ele iria para o Rio de Janeiro, pois o coordenador das categorias de base do clube carioca, Rodrigo Nunes, o queria treinando lá, juntamente com outros três meninos”, relata a mãe.

Só que a trajetória do pequeno grande goleiro pomerodense, no futebol, começa muito antes, como já relatado no início da matéria. Só que não na posição que o levou para um dos maiores clubes do Brasil. “Desde pequeno, o Matheus sempre gostou de futebol, tanto que ele começou jogando Futsal, no Floresta. Só que na linha. Onde ele era convidado, participava, como em torneios no Formigueiro e na Associação Müller, além da Escolinha do Botafogo e do Água Verde”, diz Roseli.

 

Foto: Divulgação

Mas, um dia, devido a um conselho dos pais, a vida do garoto começou a mudar. “O pessoal elogiava muito e via um grande potencial nele, só que, pelo fato de o time ter perdido alguns jogos, isso acabou o desanimando. Então, eu e o meu marido conversamos com ele, para que tentasse ir para o gol, pois na linha havia muita ‘concorrência’. No começo, ele ficou relutante, mas, no fim, acabou aceitando”. E foi justamente num dos torneios disputados na Müller, que ele teve a oportunidade de atuar na futura posição. “Como o time não tinha goleiro, pediram para o Matheus ‘quebrar esse galho’. E ele foi muito bem. Naquele dia, o Spaca Blu também participou do torneio e os coordenadores o convidaram para treinar em Blumenau”, destaca a mãe.

 

AVALIAÇÕES

No período em que atuou no Spaca Blu, sua dedicação e talento chamaram a atenção de grandes clubes. Em agosto de 2018, ele foi chamado para fazer uma avaliação no Fluminense, juntamente com outros meninos do time. “Ele ficou 15 dias por lá e foi muito bem. Quando voltou, continuou os treinamentos e, em outubro, fez novas avaliações, desta vez, no Núcleo de Captação do Flamengo, em Curitiba. Após mais uma semana, ele voltou para cá, retornando a Curitiba, em dezembro, quando ficou por mais sete dias”, conta Roseli.

No mês de janeiro, uma nova chamada, mas desta vez, com um ingrediente diferente. “O meu marido ficou com ele lá, durante uma semana, quando pediram para que fosse embora, pois queriam ver como o Matheus iria reagir fora do ambiente familiar. E não é que ele se saiu bem? Nós é que ficamos com o coração apertado, de saudade. Mas, ele estava nas mãos de pessoas maravilhosas, o que nos deixou mais tranquilos”.

 

O INCÊNDIO NO CT NINHO DO URUBU

Só que, neste período, um acontecimento trágico quase colocou o sonho de seu filho abaixo. O incêndio que matou 10 pessoas, no CT Ninho do Urubu, ocorrido em 08 de fevereiro, abalou a todos, principalmente, por um dos garotos ser conhecido de Matheus. “Estava tudo preparado para ele morar no alojamento, em Curitiba, quando houve o incêndio. Nós ficamos muito chocados, porque um menino que treinava junto, acabou falecendo. Era o Gedinho (Gedson Beltrão dos Santos Corgosinho), que estava há apenas dois dias no CT. Ficamos muito sentidos porque, como foi com ele, poderia ter sido com nosso filho”.

Roseli também conta que, por conta de tudo isso, as atividades no Núcleo de Captação foram suspensas e os meninos voltaram para suas casas. “No tempo em que ficamos com ele, em Pomerode, conversamos muito a respeito do que aconteceu e chegamos à seguinte conclusão: foi uma fatalidade, e isso não pode impedir ninguém de realizar o seu sonho. Muitas pessoas me perguntavam se teríamos medo de mandar o Matheus de volta, e eu respondia que não. Deixei nas mãos de Deus”.

Quando os trabalhos foram reiniciados, o jovem voltou para lá, no dia 18 de março. E naquele fim de semana em que a notícia foi dada, a vida de toda a família tomou um novo rumo. Pouco mais de uma semana depois, todos foram ao Rio de Janeiro, de carro – graças a um amigo, que conhecia a região -, para conhecer a estrutura do CT Ninho do Urubu. “A primeira imagem que temos do Rio é a da violência, mas tivemos uma viagem tranquila. Lá, resolvemos coisas cotidianas, como alugar uma quitinete para os dois e arrumar uma escola para o Matheus. Também fomos até o CT antigo dos profissionais, que tem refeitório, consultório médico, academia e piscina. E grande parte disso poderá ser usufruída por ele”.

 

A NOVA VIDA

Vilmar Peyerl, pai do menino, vai acompanhar o filho até que ele atinja a idade necessária para poder ficar no alojamento, que é 14 anos. “Também pela questão da distância. E como ele está aposentado, o Matheus se sente mais seguro, afinal, se trata de um menino de 11 anos. Eu por enquanto, vou ficar por aqui, para cuidar da minha mãe”, enfatiza Roseli.

Para o pai, apesar de todas as dificuldades, vale a pena enfrentar tudo isso, em nome dos filhos. “Foi difícil tomar essa decisão, mas, para o futuro deles, temos que tomar atitudes, para que não nos arrependamos depois. É triste ficar longe de parte da minha família, que é a coisa que mais amo no mundo, mas vamos nos acostumando”, comenta Peyerl.

 

Pai e filho vivem no Rio de Janeiro – Foto: Divulgação

Já para o jovem, toda essa mudança ainda está sendo assimilada. “Quando me apresentei, fiquei com muita vergonha, mas consegui me acostumar. Todo o grupo me recebeu muito bem, tanto técnicos, quanto jogadores. E eles me incentivam a cada dia”.

Ele acrescenta que a sua rotina, é totalmente diferente do que vivenciava em SC. “Eu estudo, pela manhã, na Escola Municipal Frei Gaspar, e, à tarde, treino. Às terças e quintas-feiras, os trabalhos acontecem no Cefan (Centro de Educação Física Almirante Adalberto Nunes), que pertence à Marinha do Brasil e fica distante 40km da nossa casa. Já nas quartas e sextas-feiras, eu treino no CT do Flamengo, junto com a categoria Sub 12”, destaca.

O pomerodense também ressalta que nunca havia imaginado isso. “Quando comecei a jogar futebol, não levava a sério. Mas, agora, eu tenho orgulho de mim mesmo, por tudo o que consegui e estou vivendo. Tanto que, daqui a 10 anos, eu me vejo atuando pelo profissional do Mengão”, fala, com propriedade.

Essa determinação e amor pelo esporte vem de berço. “Ele sempre falou que queria jogar no Flamengo. Lá em casa, todos são flamenguistas e minha filha também é amante do esporte e sempre procuramos os incentivar para esse lado, pois a prática esportiva tira o jovem das drogas, da bebida e da criminalidade”, comenta a mãe.

E apesar da distância e da saudade, tudo tem um propósito. “Ele estando lá, eu posso colocar minha cabeça no travesseiro e ter a certeza de que não está nas mãos de pessoas estranhas. E que, principalmente, está muito feliz. A gente paga um preço alto pelo sonho dos filhos, mas vale a pena”, finaliza Roseli, com orgulho.

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