Superação à flor da pele
Desafio é a palavra que mais fascina o homem. Chegar ao seu limite e ver que todo o esforço valeu a pena, é algo que palavras não podem descrever. Ou melhor, podem. Neste texto, o ultramaratonista e pomerodense “de coração”, Fábio Rodrigo Machado, relata, com riqueza de detalhe, toda a sua luta e de seu companheiro Rodrigo, para completar a Brazil 135 Ultramarathon, uma prova de 217 km.
Desafio é a palavra que mais fascina o homem. Chegar ao seu limite e ver que todo o esforço valeu a pena, é algo que palavras não podem descrever. Ou melhor, podem. Neste texto, o ultramaratonista e pomerodense “de coração”, Fábio Rodrigo Machado, relata, com riqueza de detalhe, toda a sua luta e de seu companheiro Rodrigo, para completar a Brazil 135 Ultramarathon, uma prova de 217 km, que é considerada, a mais dura do Brasil.
Ao final, todo o esforço foi compensado, pela alegria de terem chegado na primeira colocação, neste desafio de tirar o fôlego, literalmente.
Relato – Após completar a prova de 2012 em 2º lugar entre os trios e na 2ª colocação geral, com o tempo de 20h29′, a Equipe Ultras do Cerrado, formada por mim, Rodrigo e Nelson se reuniu e resolveu: “em 2013, Rodrigo e Fábio representarão os Ultras do Cerrado em dupla!” Começava ali uma senhora aventura…
São 19 horas de quinta-feira, dia 17 de janeiro de 2013. Um ano se passou e aqui estou, novamente, chegando à cidade de São João da Boa Vista, local da largada. Desta vez, além da minha noiva, Luciana, sempre presente em minhas provas, o amigo Filipe nos acompanha. Ele será nosso motorista e pacer durante a prova.
No caminho para o hotel Mansão dos Nobres, o mesmo do ano passado, encontramos Rodrigo e Lilian, sua esposa. Eles vieram na véspera, assim como nossa outra pacer, Aninha, participaram do Congresso Técnico e estavam à nossa espera para organizar os carros de apoio, jantar e traçar os últimos planos para o dia seguinte.
Chegando ao hotel, encontramos a outra dupla de Brasília – BSB Parque, dos amigos Samuel e Fernandes. Aqui, cabe um parêntese: “além de conhecermos os currículos vitoriosos dessa dupla e a grande experiência do Samuel na BR, tínhamos feito alguns treinos com eles e sabíamos que se tratava de uma dupla muito forte e que, com certeza, estavam entre os favoritos à vitória.”
De volta ao hotel após o jantar, hora das últimas arrumações da bagagem e de um merecido banho quente. Quando volto para a cama, uma massagem relaxante e revigorante está a minha espera. Apenas neste momento que “a ficha realmente caiu” e as dúvidas e preocupações borbulharam: “meu Deus, o que será de nós amanhã? Será que treinei o suficiente? Quantas pessoas envolvidas, quanto investimento, será que vamos dar conta? Minha lesão no tendão de Aquiles (sentida às vésperas do Natal), será que vai incomodar? E se chover? E se fizer muito calor? E este anjo, Luciana, que me acompanha sempre e que após 10 horas de viagem de carro está aqui, cuidando de mim e sorrindo… será que não vou decepcioná-la? O Filipe, que abdicou de férias com a família para estar aqui, será que vai perdoar uma falha minha? Meu treinador, Aninha, Lilian, Rodrigo… meu parceiro, irmão de corridas, vou conseguir me manter firme ao seu lado?” E assim foi minha noite…
Chegou a hora – Seis horas da manhã, hora de acordar e em nada lembro aquela pessoa angustiada da noite anterior, muito pelo contrário. Acordo firme e sereno, consciente do que teríamos pela frente e do que poderíamos mostrar a todos. Olho pela janela e o sol, ainda que tímido, já dá sinais de que teremos um lindo dia. “Será uma grande prova!”
Após um breve café da manhã, saímos em direção à praça central da cidade, onde está localizado o ponto de largada e avistamos os animados corredores, divididos entre mais de 100 solos, 12 duplas, 10 trios e quatro quartetos, todos prontos para percorrer os 217 km da prova mais dura do Brasil. Fiquei arrepiado!
Logo encontramos o trio de Brasília (Garotinho, Marcio e Flávio) e seu carro de apoio, o Trovão Azul, uma Variant ano 74, que viria a ser a grande atração da prova. Fotos e mais fotos, abraços, risos e caramba… Faltam apenas 5 min para a largada. Adrenalina a mil, pois a largada será minha!
Sim, não poderia deixar de mencionar: à frente da linha de largada está Andre Kajlich, o único cadeirante a tentar e conseguir concluir a BR. Lembro-me de, após o café da manhã, passar em frente a seu quarto e vê-lo fazendo os últimos ajustes em sua cadeira de rodas. Aquela cena me chamou a atenção e fiquei ali, parado, admirando-o por alguns segundos, até seu sorriso me fitar e me deixar encabulado. Era o estímulo que faltava!
Largamos e rapidamente assumi a 3ª posição, atrás de corredores de um quarteto e de uma dupla Algo um tanto quanto perigoso para quem teria mais de 100 km pela frente, mas me sentia muito bem e resolvi deixar acontecer.
A 1ª troca estava programada para o km 7, ao término do asfalto de acesso à cidade, mas para minha surpresa, o carro de apoio não estava lá. Nem titubeei e segui trilha adentro. Fui encontrar Rodrigo com mais de 10 km e neste momento as duplas das equipes BSB Parque e São João da Boa Vista (3º colocado entre os trios, em 2012) já estavam junto a nós. Embora muito cedo ainda, tive a certeza de que a prova seria decidida entre nós. Sim, bem à nossa frente, um quarteto disparou e não o veríamos mais até a linha de chegada.
Enquanto meu parceiro se embrenhava no trecho de mata mais fechada, seguimos (Filipe, Aninha e eu) em direção à próxima cidade, Águas da Prata, onde Luciana e Lilian nos esperavam. Confesso que naquele momento estava um pouco chateado por terem mudado o ponto de troca, mas me contive. Afinal, a prova estava apenas começando e muita coisa ainda poderia acontecer.
Se me perguntarem qual a principal virtude do Rodrigo, direi imediatamente: “o cara é um monstro em subidas”. Pois dito e feito! Em pouco mais de 52 min ele cumpriu seu trajeto e colocou vantagem sobre as outras duplas. Naquele momento, estávamos em 1º entre as duplas e 2º no geral. O cara é um monstro, mesmo!
Parti pelas ruas de Águas da Prata e, para minha surpresa, pouco à frente, a avenida estava tomada pelas outras equipes de apoio, me incentivando e mandando aquela energia positiva. A adrenalina subiu e subiu muito. Ao pegar a saída da cidade, em direção ao Pico do Gavião (local mais alto da prova), fui ultrapassado por um corredor de trio. Aliás, este trio se manteria próximo a nós por um bom tempo.
Pico do Gavião, aqui está você, após 33 km de prova. Até seu cume, são 4 km de subida forte, algo a se respeitar. Com o intuito de preservar energias, combinamos de dividir o trecho em três, ficando a cargo do Rodrigo o último e mais íngreme.
Subimos o temido Pico em incríveis 28 min, e ao iniciar a descida cruzei com o Samuel da Equipe BSB Parque subindo bem. Olhei para o relógio e pude conferir que já estávamos 2,7 km à frente, uma bela vantagem para os menos de 40 km de prova até então.
A descida do Pico é um tremendo barato. Descida forte, boa para imprimir ritmo e onde há a possibilidade de encontrar os outros competidores subindo. Foi aí que tive a única oportunidade de ver o Trovão Azul em ação, sendo conduzido pelo amigo Marcio.
Após descer, hora do almoço – um macarrão instantâneo degustado rapidamente, porque lá vem meu parceiro de novo. Cumprimentamo-nos rapidamente, como fizemos em todas as trocas, e segui meu caminho, deixando-o para almoçar.
Duas trocas depois, na cidade de Andradas, um pequeno contratempo: os carros de apoio me perderam! Não chegamos a combinar o que fazer nestas situações, mas Rodrigo e eu sabíamos que a prova não poderia ser prejudicada e que não deixaríamos o ritmo cair. Então, segui em frente e apenas depois de 8 km é que me acharam e pudemos efetuar nova troca. Se não fosse a garrafa de isotônico, hein Luciana e Lilian?
A prova continuou dentro da normalidade, exceto pelo ritmo forte que imprimíamos. Estávamos cerca de uma hora abaixo de nossas previsões. Por vezes cogitamos diminuir a pegada, mas como estávamos muito bem, resolvemos manter.
Os desafios da corrida noturna – Às 18 horas, nossa pacer, Aninha, entrou em ação e passou a nos puxar. Enquanto corríamos, a noite caía e as primeiras estrelas surgiam. Nossa conversa fluía e o tempo passava sem sofrimento. Nem parecia que já tínhamos corrido praticamente 130 km. Enquanto isto, o outro carro de apoio seguiu para Borda da Mata para providenciar nosso jantar e um local para meu banho.
Coincidentemente, jantamos no mesmo local do ano passado: um restaurante simples, à beira do asfalto, mas de comida bem apetitosa. Aproveitei para tomar um banho e dar uma respirada. Pronto, a prova começa agora! Todos que fazem a BR sabem das dificuldades da prova a partir deste trecho. Não bastasse a quilometragem acumulada, ainda temos pela frente a completa escuridão, as infindáveis subidas e a péssima estrada.
Retomei a prova para que Rodrigo tomasse um banho e jantasse. Estava “zerado” e cheio de gás para enfrentar as subidas. Neste momento, Filipe já estava como pacer e seguiu morro à cima comigo.
Mantínhamos uma animada conversa e subíamos bem, quando, com pouco mais de 1 km rodado, ouvimos os gritos da equipe de apoio. O pior para aquele momento tinha acontecido: um de nossos carros tinha atolado. Nem precisamos combinar nada. Apenas passei a mão em uma garrafinha d’água, em uma lanterna de mão e segui em frente, sem saber exatamente por quanto tempo teria que correr sozinho.
Foram os 9 km mais difíceis da prova para mim. Um sobe e desce frenético, escuridão, frio e um silêncio perturbador. A cada km parava para tentar ouvir o som dos carros, mas nada deles e a água estava acabando. Pensei em muitas coisas, mas agora, sequer consigo recordar em quê.
Segui até Tocos do Mogi, quando ouvi o som de nosso carro de apoio. Por um instante pensei que o sofrimento estaria terminado, mas não. Rodrigo tinha ficado para trás para tomar banho e eu teria que seguir por mais algum tempo. Passei pelo ponto de controle e segui em frente. Subida e mais subida, mas agora não estava mais sozinho… e como isto fez diferença! Enquanto Luciana dirigia, Filipe me puxava e tentava me distrair. Falava bastante e eu apenas ouvindo, tentando me manter correndo. Lembro-me de ter dito que ainda estava com 60% de minhas forças. Filipe, era mentira!
Com 13,5 km percorridos, as temidas cãibras apareceram nas duas pernas. Simplesmente travei no meio de uma subida. Naquele momento, pensei que teríamos problemas sérios, mas como num passe de mágica ou um milagre, meu parceiro apareceu. E não apenas apareceu, como também estava inteiro, com um vigor impressionante. Enquanto segui de carro até o próximo ponto de troca para dar uma recuperada, ele começou a vencer morro após morro. O monstro estava de volta!
Luciana parou o carro na entrada de Estiva e ficamos ali esperando pela troca. Eu estava mal, desidratado e com frio, mas aí surgiu o que considero meu grande diferencial em qualquer prova que participe: seu apoio! Emprestou-me seu casaco, me aqueceu e me falou tudo exatamente como eu precisava ouvir naquele momento. Fui praticamente ressuscitado!
Estava pronto para voltar a correr, mas nada do meu parceiro. De repente, um quarteto e um trio nos passam e avisam que Rodrigo se perdera, mas que já estava a caminho. Um pouco mais de espera e lá estou eu correndo novamente, ainda que um pouco mais lento do que antes da parada para o jantar.
Já tínhamos percorrido mais de 165 km e, apesar dos contratempos, ainda estávamos com meia hora abaixo de nossas previsões, o que nos dava uma boa margem em relação às outras duplas. Sabíamos que a vitória estava próxima e era só manter!
Em momento algum da prova nos preocupamos em competir contra os trios e quartetos. Mas a competição se desenrolou naturalmente. Mantivemos nosso ritmo forte, passamos o trio, corremos alguns quilômetros junto ao quarteto e abrimos vantagem. O que não sabíamos até então, é que aquelas ultrapassagens representariam a 1ª colocação geral da prova!
O alívio – Seguimos entre morros, porteiras, asfalto e mais morros. À certa altura, Filipe grita: “Galera, eu vi as luzes da cidade atrás daquele morro!” Ninguém se manifestou. Talvez por não acreditar. Talvez pelo cansaço de todos impedirem grandes comemorações. O fato é que ele estava certo. Poucos minutos depois, avistamos as luzes de Paraisópolis.
Mais alguns quilômetros e lá está a rua de acesso à cidade, reconhecida pela pavimentação típica da região. Nossa equipe simplesmente transbordou em alegria! Passamos a correr Rodrigo, Filipe e eu. Enquanto isto, as meninas gritavam, buzinavam, faziam uma grande festa. Durante aquele último km, desenvolvido em um ritmo abaixo de 5 min/km, algo inimaginável para aquela altura da prova, entre abraços, risos e felicitações, um filme se passou em minha cabeça e o final que se desenhava era perfeito. Todas as questões da noite anterior à prova estavam respondidas.
Exatamente às 04h51min53 da madrugada de sábado, após 20h49min13 de prova, cruzamos a linha de chegada, todos juntos, como a verdadeira equipe que fomos durante toda a prova. Arrisco-me a dizer que, naquele momento, coroamos, além de todo o treinamento, investimento, esforço, etc e tal, a realização do sonho de uma família. Pessoas que se sacrificaram por um objetivo comum, que se tornaram amigos e formaram uma grande família!
Fotos, filmagem, premiação, nada pode retratar o que estávamos sentindo. Tínhamos superado os 217 km da Brasil 217 e todas as suas dificuldades. Ganhamos a prova entre as duplas e mais tarde saberíamos que também vencemos no geral, por conta da desclassificação do quarteto que disparou na frente. Sim, como esquecer da quebra do recorde das duplas em mais de 3 horas?
A prova perfeita, com as pessoas perfeitas! Este é resumo de tudo. Se o caminho é o da fé, a prova é a da superação e da persistência. E isto, fizemos muito bem. A Equipe Ultras do Cerrado está de parabéns!
Bem, como todo ultramaratonista está constantemente em busca de seus limites, já ficou acordado: “Em 2014, Rodrigo e eu faremos a BR solo!” Essa prova dará outro belo relato…