Três gerações da mesma família mantiveram vínculo com a Escola Almirante Barroso ao longo de mais de 70 anos
Avó, mãe e neta compartilharam memórias sobre as diferentes épocas da instituição, desde o período em que era proibido falar alemão até os projetos educacionais mais recentes
Foto: Isadora Brehmer / Jornal de Pomerode
A história da Escola Almirante Barroso, em Pomerode, também foi construída pelas famílias que atravessaram gerações dentro das salas de aula da instituição. Entre elas está a família Lindemann, representada por Lucita Lindemann, pela filha Maikeli Lindemann e pela neta Bárbara Schumacher, que estudaram na escola em períodos completamente diferentes, mas carregam lembranças marcantes do local.
As experiências compartilhadas pelas três revelam a transformação da educação ao longo das décadas, desde os tempos mais rígidos do ensino, ainda nos anos 1950, até a realidade atual, marcada por tecnologia, projetos educacionais e incentivo ao aprendizado do idioma alemão — justamente o oposto do que acontecia no passado.
Lucita Lindemann foi a primeira da família a frequentar a Escola Almirante Barroso. Ela entrou na instituição em 1952, aos oito anos de idade, numa época em que a escola ainda funcionava próxima ao local onde atualmente está instalada a igreja da comunidade.
Segundo ela, o ambiente escolar era bastante disciplinado e havia apenas dois professores: o professor João e seu filho, Gerhard. Naquele período, falar alemão dentro da escola era proibido, embora praticamente todas as crianças da comunidade utilizassem apenas o idioma em casa.
“A gente não podia falar alemão, mas em casa só se falava isso. Então era difícil entender tudo em português. Quando alguém falava alemão dentro da sala, o professor colocava de castigo atrás do quadro negro. Era uma época muito rígida, mas também existia muito respeito pelos professores. O seu João era mais severo e deixava castigo quando a gente não sabia as coisas. Hoje parece estranho lembrar disso, mas naquela época era normal”, contou.
Lucita recorda ainda que o uniforme escolar era composto por saia azul-escura de pregas e blusa branca.
Apesar da rigidez, Lucita guarda lembranças positivas da escola, especialmente dos momentos de recreio e convivência com os colegas.
Ela destacou que, naquela época, as crianças trabalhavam bastante em casa, ajudando as famílias, e ir para a escola representava também um momento de diversão.
“Em casa a gente trabalhava muito. Então ir para a escola era quase uma liberdade. No recreio a gente podia brincar, conversar, correr. Era um momento feliz. A escola parecia uma segunda família. A gente saía de casa, mas parecia que continuava em casa, porque todo mundo se conhecia e convivia muito próximo”, afirmou.
Décadas depois, foi a vez de Maikeli Lindemann continuar a trajetória da família na Escola Almirante Barroso. Ela ingressou na instituição em 1976, também enfrentando as dificuldades causadas pela língua portuguesa.
Maikeli contou que, assim como a mãe, cresceu falando apenas alemão dentro de casa e teve medo dos primeiros dias de aula por não saber se comunicar em português.
“Eu tinha muito medo de ir para a escola porque não sabia português. Em casa a gente só falava alemão. Eu lembro que perguntava para minha mãe como eu faria para pedir para ir ao banheiro. Ela me dizia para ficar tranquila porque a professora entendia alemão. E realmente entendia. Isso salvava a gente, porque oficialmente não podia falar alemão na escola. O português praticamente foi aprendido do zero ali dentro”, contou.
Ela estudou na instituição apenas até o quarto ano, já que naquele período a escola ainda oferecia apenas o ensino primário. Depois, precisou seguir os estudos em outra unidade.
Maikeli teve aulas com professores que marcaram sua trajetória, como dona Edla, esposa do professor Gerhard, além da professora Carmen Castro, de quem guarda lembranças carinhosas.
A ex-aluna também recorda das atividades desenvolvidas na escola, especialmente as relacionadas à disciplina e ao civismo. “Toda semana a gente cantava o Hino Nacional, sempre enfileirados e muito organizados. Era uma educação muito diferente da de hoje. A escola ajudava muito na formação da pessoa. A gente aprendia disciplina, respeito e convivência. As turmas eram pequenas, tinha apenas duas salas e tudo funcionava de forma muito próxima”, disse.
Entre as memórias mais afetivas da época está a preparação da sopa servida aos alunos no recreio. Segundo Maikeli, uma vez por semana algumas meninas eram escolhidas para ajudar na cozinha da escola.
“A professora Edla chamava duas meninas para ajudar a fazer a sopa de legumes. A gente descascava batata, cenoura, chuchu e ajudava no preparo. Isso era o lanche da escola. Parece algo simples, mas foi muito marcante para nós. Era divertido e também ensinava responsabilidade. São coisas que a gente nunca esquece”, lembrou.
Ela também destacou que, embora ainda existissem castigos na época, eles já eram mais leves do que os vividos pela geração da mãe.
As punições costumavam acontecer principalmente durante provas orais de tabuada. “Quem não sabia a tabuada tinha que ficar virado para a parede. Não era mais aquela rigidez tão pesada do tempo da mãe, mas ainda existia disciplina. E, sinceramente, para a época, era tudo muito tranquilo. Existia respeito entre professores, alunos e famílias”, afirmou.
A terceira geração da família na Escola Almirante Barroso foi representada por Bárbara Schumacher, que estudou na instituição entre 2011 e 2021, desde o pré-escolar até o nono ano.

Bárbara na infância. (Foto: Arquivo pessoal)
Ela viveu uma realidade completamente diferente da enfrentada pela avó e pela mãe. Além da estrutura ampliada da escola, Bárbara acompanhou o período das aulas online durante a pandemia de Covid-19 e participou de projetos ligados ao ensino da língua alemã — justamente o idioma que décadas antes era proibido dentro das salas de aula.
“Na minha época foi completamente diferente. A gente aprendia alemão na escola e tinha vários projetos para incentivar isso. Eu participei até da prova do Guedes e de projetos com a professora Cláudia. É engraçado perceber como tudo se inverteu. Na época da minha avó e da minha mãe, a maioria falava alemão e era proibido usar o idioma. Hoje a escola incentiva justamente esse aprendizado”, destacou.
Ela relembrou também as brincadeiras no parquinho durante o pré-escolar, a convivência com os professores e a experiência das aulas remotas durante a pandemia.
“Eu comecei no pré-1 com quatro anos e fiquei até 2021. O pré era muito divertido, cheio de brincadeiras. Depois, do primeiro ao quinto ano, a gente tinha praticamente uma professora só. Já do sexto ao nono ano eram vários professores e a gente mudava de sala. Só na pandemia que tudo virou online, com aulas gravadas e sistema alternado. Foi uma experiência completamente diferente do que as outras gerações viveram”, relatou.
Bárbara também destacou as mudanças estruturais da escola, como as quadras esportivas e os laboratórios, que passaram a fazer parte da rotina dos alunos mais recentemente.
Segundo ela, as aulas de laboratório estavam entre suas experiências favoritas. “Ir para o laboratório era uma das coisas mais legais. Ver aqueles materiais, fazer experimentos, tudo isso era muito divertido. Dá para perceber o quanto a escola cresceu e evoluiu ao longo dos anos. Minha mãe não chegou a viver isso no Almirante porque na época dela só tinha até o quarto ano”, contou.
Para a jovem, estudar na mesma escola frequentada pela mãe e pela avó criou um sentimento especial de continuidade familiar.
“É bem interessante porque parece uma linhagem continuando. Muitos professores conheciam minha mãe e sabiam que ela tinha estudado ali. Isso deixava tudo mais familiar. A escola faz parte da história da nossa família”, afirmou. Mesmo não tendo conseguido participar das comemorações dos 140 anos da instituição, a família afirmou que mantém forte ligação com a escola e participa frequentemente das festas e ações promovidas pela comunidade escolar.
Maikeli revelou ainda que, quando a filha estava concluindo o nono ano, chegou a participar de um movimento de mães que tentava implantar o ensino médio na unidade.
“A gente queria muito que tivesse o ensino médio ali também, principalmente para manter os filhos mais próximos de casa e continuar naquela escola que a gente gostava tanto. Não deu certo porque a escola é municipal, mas sentimos bastante quando elas precisaram sair dali. A administração, os professores e o ambiente sempre funcionaram muito bem. Foi um ciclo que se encerrou, mas que mostrou o quanto a escola evoluiu ao longo das gerações”, concluiu.